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29. Deus, Igreja, História e Professores Universitários

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07.04.2017 | 6 minutos de leitura
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29. Deus, Igreja, História e Professores Universitários




Solange Maria do Carmo



Alex Cristiano dos Santos




Deus é um problema. Na raiz da palavra, problema significa uma questão que está posta à frente. E, de fato, é assim: afirmar ou negar Deus, questionar a probabilidade de sua existência ou defendê-la, trata-se de uma questão sempre à frente.


O mundo atual não é ateu ou agnóstico. Embora tenhamos visto o alvorecer da Razão com o Iluminismo e o decreto da morte de Deus, declarada por Nietzsche, estamos assistindo ao retorno de Deus no desejo de espiritualidade de muitos. Depauperado ou não, ele continua enquanto questão. Retorna frequentemente como tudo que é recalcado, e disso já sabemos bem. 


A religião cristã é uma maneira, dentre outras, de fazer experiência de Deus. Seu diferencial, entretanto, é comunicar a encarnação do Filho de Deus e sua Paixão.  A Igreja de Cristo é a comunidade dos irmãos que vivem em fraternidade, pelo menos em tese. Essa Igreja subsiste na Igreja Católica. Subsistir, aqui, significa em poucas linhas que a Igreja de Cristo e a Igreja Católica não se equivalem. Cristo, seu Espírito e os elementos de sua Igreja são mais amplos que a Igreja Católica.


A Igreja Católica é também uma instituição, com normas e conflitos. Sua história é tão problemática quanto a história da humanidade, justamente porque essa instituição é humana. É também divina? Que as duas coisas estejam intrincadas, esta é uma defesa da própria Igreja. Mas não por recurso ideológico, para manter o poder –como aconteceu com frequência, outrora – mas porque se vê ligada a Jesus. Essa é uma experiência de fé, possível de ser justificada sobre muitos aspectos filosóficos e teológicos, mas o que mais interessa é que um "encontro" de fé com Jesus conecta os "que se encontram" numa comunhão.


As instituições têm problemas. A fantasia de que é possível escapar às instituições é um infantilismo absurdo. As instituições existem e elas não são só estáticas, mas também dinâmicas, da mesma forma como as religiões. Família, Escola, Igreja, Matrimônio, Estado, todos têm dificuldades graves e uma história de altos e baixos, de transversalidades socioculturais, políticas e econômicas, bem como imbricações e influências entre elas. Assim sendo, se nós do século XXI, quisermos entender uma época como o século XI, por exemplo, só o faremos, sob a responsabilidade de não sermos anacrônicos, se conhecermos seus traços culturais, políticos e econômicos.


A história também é uma dificuldade, afinal os fatos brutos não existem desgrudados da narrativa. Com a historiografia é preciso pedir auxílios ao perspectivismo, à psicanálise, às técnicas literárias, à arqueologia textual e outras ciências. Ora, a história existe, os fatos existem e as narrativas históricas são fatos textuais em tensão com os fatos brutos. Existem, pois, nuances histórico-críticas, hermenêuticas, contextuais. Obviamente que todas essas relatividades não nos permitiriam negar a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, ou a Inquisição, nem mesmo diminuir o peso da violência e do mal presentes ao longo de todas as épocas. Não mesmo. Ainda que fosse apenas um assassinato, apenas um torturado; isso já seria o suficiente para o horror e o escândalo. Entretanto, as nuances político-econômicas, filosófico-literárias, teológico-culturais existem e são mais abundantes do que imaginamos. Conhecê-las, assim como se conhece as partes de um quebra-cabeça, é aproximar-se do "sensusplenum"; afinal, o todo (inalcançável) é sempre maior que a soma das partes. 


Nas universidades e escolas, os generalismos, os descuidos com teorias, as críticas afetivas a determinados contextos, os anacronismos, tudo isso está presente. É evidente que um professor tem o direito e o dever de não esconder sua opinião, de discordar e apresentar críticas construtivas ou destrutivas. Mas que sejam consistentes! Quando falamos em consistência, entendemos que é preciso também declarar opções teóricas, sem medo de defender aquilo em que se acredita. Melhor ainda quando se o faz, a partir da precisão e da honestidade intelectual. Por sua vez, honestidade intelectual significa caminhar até onde é possível e reconhecer os limites. Afinal, em tempos de especialidades, é preciso reconhecer até onde vai nosso alcance. Ninguém domina todo conhecimento, ainda que queira.


Por muito tempo, foi cult criticar Deus e a Igreja nos espaços universitários, como símbolo de inteligência. Ainda hoje isso parece estar na moda. Dias atrás, fazendo um curso de Fenomenologia, a professora, uma especialista em Hanah Arendt, fez uma crítica à Suma Teológica. A crítica era atravessada, superficial, mas o pior veio quando a professora atribuiu a obra a Santo Agostinho, enquanto essa pertence a Santo Tomás de Aquino. Outra professora, leitora de Heidegger, disse em sala que foi na Idade Média que "(nós) nos tornamos" monoteístas, ignorando séculos de história e sem explicar quem é o “nós” da afirmação. Outra vociferou contra o Gênesis se perguntando ironicamente se Eva tinha que ser o problema, a culpada pela queda de Adão, numa crítica feminista infundada sobre um texto mítico. Para essa professora, o fruto do Gênesis ainda é uma maçã, interpretação totalmente alheia à teologia bíblica. Outra mestra disse que não gostava de Platão, só para tomar outro exemplo, agora fora do universo religioso. Sua justificativa: achava-o mal-amado. E assim vai... Os exemplos são muitos. Outra professora disse que o conflito entre o demônio e Deus equivale à briga de poder entre essas "forças", fazendo uma leitura fundamentalista da Escritura que nem de longe equivale à compreensão da teologia católica da figura do demônio.


Ora, não me incomoda que sejam feitas críticas dentro do universo religioso e teológico;o que traz desconforto é que elas são equivocadas e arrogam para si ares de absoluta verdade. Nem falemos das críticas "de Discovery Channel" à Inquisição e à Idade Média, a tida“idade das trevas”! Essas então são um horror!


Críticas são bem-vindas sim, mas que sejam bem fundadas: a ironia de Dawkins, a elasticidade de Michel Onfray, a clarividência de Feuerbach e de Sartre, a fineza intelectual de Nietzsche ou as implicações filosófico-literárias de Dostóievski. Melhor: críticas sim, de quem quer que seja, à Igreja e a certas imagens de Deus, mas que sejam ao menos o que a própria palavra indica: criticar, ou seja, saber separar, julgar, selecionar, discriminar (krinein, Krisis, Krei). De resto, se não for assim, as críticas podem entrar num ouvido e sair pelo outro... 






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