84. Igreja apóstata
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21.01.2021 | 6 minutos de leitura

Diversos

A ascensão ao poder de muitos ditadores, ou aspirantes a ditadores, não poderia ter ocorrido sem o apoio e a aprovação, muitas vezes entusiástica, de importantes expoentes da Igreja. Se sempre houve, e sempre haverá, padres corajosos que pagarão com a marginalização, a perseguição e até com vida a denúncia da prostituição da Igreja aos poderosos de plantão, é inegável que grande parte da hierarquia eclesiástica ficou sem qualquer constrangimento de braços dados com ditadores e sempre abençoou e olhou com aprovação aqueles políticos que garantem a salvaguarda da tríade Deus-Pátria-Família. E não importa, se para fazer isso, eles manipularão e pisotearão a mensagem de Jesus e limitarão ou sufocarão toda liberdade.
Para esses eclesiásticos, partidários dos prepotentes, o evangelho é apenas um livro a ser aspergido com incenso nas liturgias, assim como para os poderosos é uma mera distração a ser sacudida nos comícios, como um titereiro com seus fantoches, sem que a mensagem de Jesus tenha minimamente influído em suas vidas, ou que enxerguem uma contradição entre os valores que eles enfaticamente defendem e sua conduta.
É triste e constrangedor ter de admitir que, na trágica história do catolicismo, a Igreja foi conivente, ou até mesmo cúmplice de toda ditadura e, só para nos ater à história mais recente, basta recordar aquela de Mussolini, "o homem da Providência" , aquela do catolicíssimo Franco, "Caudillo de España por la gracia de Dios", e do devoto, porém feroz, Salazar, ex-seminarista português, fervoroso defensor de Nossa Senhora de Fátima, até os atuais esquálidos replicantes, cínicos defensores a todo custo da tradição e dos sadios valores do passado.
Qual é a razão da irresistível atração da Igreja por todas as formas de ditadura? Por que a Igreja, que deveria ser a expressão de uma comunidade profética animada pelo Espírito e a sentinela da sociedade, primeira a lançar alarmes sobre o nascimento de novos ditadores, em vez disso prefere mimá-los, apoiá-los e protegê-los?
A hierarquia religiosa, consciente da fragilidade e incoerência da doutrina que quer impor aos fiéis, faz com que, para compensar a sua fragilidade, sinta a necessidade de se aliar aos detentores do poder, recorrendo muitas vezes ao homem forte, ao homem de soluções rápidas e linguagem tosca. Para obrigar os fiéis a obedecerem à vontade divina, muitas pessoas da hierarquia estão dispostas a apoiar aberta ou veladamente aquelas forças políticas que se apresentam como salvadoras da Pátria, da Família e da Religião, numa espécie de tácito pacto diabólico, onde o poder religioso sustenta e, ao mesmo tempo, precisa ser sustentado pelo poder político.
Mas esse comportamento perverso, tão antigo como trágico, tem um nome que, paradoxalmente, nasceu justamente na Igreja: apostasia, o repúdio da própria fé, a traição do próprio credo que se transforma em engano enquanto esses eclesiásticos, apesar de apóstatas, conservam intacto todo o seu aparato exterior, tornando-se simulacros vazios, manequins de vestimentas reluzentes que escondem o nada, senão algo pior, "sepulcros caiados" de evangélica memória, dos quais Jesus nos convidava a manter distância, pois "por fora parecem belos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e de toda podridão” (Mt 23,27).
Como é possível que justamente os representantes da religião, aqueles que afirmam ser investidos por um mandato divino, sejam os primeiros a trair seu Senhor para se venderem ao senhorio de plantão? Nos Evangelhos há páginas tão dramáticas quanto atuais sobre a apostasia, que nasce do confronto entre dois poderes, aquele político, representado por Pilatos, e aquele religioso, representada pelos sumos sacerdotes (Jo 19; Mt 27). Eles devem decidir o destino daquele que ambos sabem ser um inocente, Jesus. Pilatos já está decidido a libertá-lo, não vê nele nenhum perigo para o Império e entende que a acusação que os líderes religiosos fazem a Jesus, de ser um malfeitor que pretende se tornar rei, é apenas um pretexto. Até os sumos sacerdotes sabem que não era verdade o motivo da periculosidade de uma realeza de Jesus. O perigo para a instituição religiosa, por eles sustentada e representada, é que com Jesus Deus comunica e se manifesta diretamente no homem, sem nenhuma necessidade das mediações criadas pela instituição religiosa, do templo ao culto, do sacerdócio à Lei ...
Diante do procurador romano, os líderes religiosos, para ter sucesso em sua intenção de eliminar Jesus, jogam sua última cartada, a da chantagem. Eles sabem que Pilatos é um homem frustrado. Sonhava alguma grande carreira em Roma e, em vez disso, acabou na longínqua e perdida Judeia com o único título de "Cavaleiro": "Se soltas este, não és amigo de César! Qualquer que se faz rei é contra César” (Jo 19,12).
"Amigo do César" [Amicus Cesaris] não era um simples certificado de amizade com o imperador, mas um cobiçado título honorífico concedido por Tibério ao restrito círculo de seus íntimos e era o que lhe permitiu angariar seus favores. Pilatos, chamado a escolher entre a vida de um inocente e a própria carreira, faz uma última tentativa, perguntando aos líderes religiosos se deveria crucificar seu rei (Jo 19,15).
Os sumos sacerdotes, chamados a escolher entre Jesus e o fim do sistema religioso ameaçado pela sua pregação, fazem sua escolha sem hesitar, afirmando que não têm “outro rei senão César” (Jo 19,15). Os líderes religiosos preferem o rei romano ao rei dos judeus, o governante ao libertador. Para os detentores do poder religioso, é melhor um domínio opressor que, no entanto, lhes permite justificar sua opressão sobre o povo, do que o Deus libertador. Aqueles que pretendiam ser os únicos representantes de Deus são, na verdade, aqueles que o traem. E Pilatos cede e o entrega a eles "para ser crucificado" (Jo 19,16).
No Evangelho de Mateus, os líderes religiosos dirigem-se a Pilatos chamando-o de Senhor (Gr. Kyrie): não reconhecendo em Jesus, "Deus conosco" (Mt 1,23), o Senhor, são forçados a dirigir com esse nome ao governante romano. A apostasia está consumada: Jesus é um impostor e Pilatos seu Senhor.
A denúncia dos evangelistas é muito severa: esses líderes religiosos não são servos de Deus, mas do poder, ao qual se submetem, reconhecendo seu poderio, para manter intactos seus privilégios e interesses.
Uma linha muito clara emerge dos Evangelhos: a Igreja, aquela que nasce da boa nova de Jesus, nunca deve alinhar-se com os poderosos e muito menos ser sua cúmplice, nunca deve calar-se para sua própria conveniência, mas denunciar seus crimes. Só assim terá a garantia de ser fiel ao Deus que derruba governantes de seus tronos (Lc 1,52).
Para esses eclesiásticos, partidários dos prepotentes, o evangelho é apenas um livro a ser aspergido com incenso nas liturgias, assim como para os poderosos é uma mera distração a ser sacudida nos comícios, como um titereiro com seus fantoches, sem que a mensagem de Jesus tenha minimamente influído em suas vidas, ou que enxerguem uma contradição entre os valores que eles enfaticamente defendem e sua conduta.
É triste e constrangedor ter de admitir que, na trágica história do catolicismo, a Igreja foi conivente, ou até mesmo cúmplice de toda ditadura e, só para nos ater à história mais recente, basta recordar aquela de Mussolini, "o homem da Providência" , aquela do catolicíssimo Franco, "Caudillo de España por la gracia de Dios", e do devoto, porém feroz, Salazar, ex-seminarista português, fervoroso defensor de Nossa Senhora de Fátima, até os atuais esquálidos replicantes, cínicos defensores a todo custo da tradição e dos sadios valores do passado.
Qual é a razão da irresistível atração da Igreja por todas as formas de ditadura? Por que a Igreja, que deveria ser a expressão de uma comunidade profética animada pelo Espírito e a sentinela da sociedade, primeira a lançar alarmes sobre o nascimento de novos ditadores, em vez disso prefere mimá-los, apoiá-los e protegê-los?
A hierarquia religiosa, consciente da fragilidade e incoerência da doutrina que quer impor aos fiéis, faz com que, para compensar a sua fragilidade, sinta a necessidade de se aliar aos detentores do poder, recorrendo muitas vezes ao homem forte, ao homem de soluções rápidas e linguagem tosca. Para obrigar os fiéis a obedecerem à vontade divina, muitas pessoas da hierarquia estão dispostas a apoiar aberta ou veladamente aquelas forças políticas que se apresentam como salvadoras da Pátria, da Família e da Religião, numa espécie de tácito pacto diabólico, onde o poder religioso sustenta e, ao mesmo tempo, precisa ser sustentado pelo poder político.
Mas esse comportamento perverso, tão antigo como trágico, tem um nome que, paradoxalmente, nasceu justamente na Igreja: apostasia, o repúdio da própria fé, a traição do próprio credo que se transforma em engano enquanto esses eclesiásticos, apesar de apóstatas, conservam intacto todo o seu aparato exterior, tornando-se simulacros vazios, manequins de vestimentas reluzentes que escondem o nada, senão algo pior, "sepulcros caiados" de evangélica memória, dos quais Jesus nos convidava a manter distância, pois "por fora parecem belos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e de toda podridão” (Mt 23,27).
Como é possível que justamente os representantes da religião, aqueles que afirmam ser investidos por um mandato divino, sejam os primeiros a trair seu Senhor para se venderem ao senhorio de plantão? Nos Evangelhos há páginas tão dramáticas quanto atuais sobre a apostasia, que nasce do confronto entre dois poderes, aquele político, representado por Pilatos, e aquele religioso, representada pelos sumos sacerdotes (Jo 19; Mt 27). Eles devem decidir o destino daquele que ambos sabem ser um inocente, Jesus. Pilatos já está decidido a libertá-lo, não vê nele nenhum perigo para o Império e entende que a acusação que os líderes religiosos fazem a Jesus, de ser um malfeitor que pretende se tornar rei, é apenas um pretexto. Até os sumos sacerdotes sabem que não era verdade o motivo da periculosidade de uma realeza de Jesus. O perigo para a instituição religiosa, por eles sustentada e representada, é que com Jesus Deus comunica e se manifesta diretamente no homem, sem nenhuma necessidade das mediações criadas pela instituição religiosa, do templo ao culto, do sacerdócio à Lei ...
Diante do procurador romano, os líderes religiosos, para ter sucesso em sua intenção de eliminar Jesus, jogam sua última cartada, a da chantagem. Eles sabem que Pilatos é um homem frustrado. Sonhava alguma grande carreira em Roma e, em vez disso, acabou na longínqua e perdida Judeia com o único título de "Cavaleiro": "Se soltas este, não és amigo de César! Qualquer que se faz rei é contra César” (Jo 19,12).
"Amigo do César" [Amicus Cesaris] não era um simples certificado de amizade com o imperador, mas um cobiçado título honorífico concedido por Tibério ao restrito círculo de seus íntimos e era o que lhe permitiu angariar seus favores. Pilatos, chamado a escolher entre a vida de um inocente e a própria carreira, faz uma última tentativa, perguntando aos líderes religiosos se deveria crucificar seu rei (Jo 19,15).
Os sumos sacerdotes, chamados a escolher entre Jesus e o fim do sistema religioso ameaçado pela sua pregação, fazem sua escolha sem hesitar, afirmando que não têm “outro rei senão César” (Jo 19,15). Os líderes religiosos preferem o rei romano ao rei dos judeus, o governante ao libertador. Para os detentores do poder religioso, é melhor um domínio opressor que, no entanto, lhes permite justificar sua opressão sobre o povo, do que o Deus libertador. Aqueles que pretendiam ser os únicos representantes de Deus são, na verdade, aqueles que o traem. E Pilatos cede e o entrega a eles "para ser crucificado" (Jo 19,16).
No Evangelho de Mateus, os líderes religiosos dirigem-se a Pilatos chamando-o de Senhor (Gr. Kyrie): não reconhecendo em Jesus, "Deus conosco" (Mt 1,23), o Senhor, são forçados a dirigir com esse nome ao governante romano. A apostasia está consumada: Jesus é um impostor e Pilatos seu Senhor.
A denúncia dos evangelistas é muito severa: esses líderes religiosos não são servos de Deus, mas do poder, ao qual se submetem, reconhecendo seu poderio, para manter intactos seus privilégios e interesses.
Uma linha muito clara emerge dos Evangelhos: a Igreja, aquela que nasce da boa nova de Jesus, nunca deve alinhar-se com os poderosos e muito menos ser sua cúmplice, nunca deve calar-se para sua própria conveniência, mas denunciar seus crimes. Só assim terá a garantia de ser fiel ao Deus que derruba governantes de seus tronos (Lc 1,52).
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