7. Advento: esperar a vinda de Cristo com alegria


Na dinâmica do ano litúrgico, o Advento é o tempo que mais explicitamente proclama a esperança cristã. Todavia, essa riqueza é por muitos desconhecida pois o Advento foi transformado em mera preparação de um Natal reduzido à recordação do nascimento do menino Jesus. Ora, tanto o Advento quanto o Natal são muito mais do que isso.
A liturgia da Igreja compreende o Advento a partir de uma dupla característica. Em primeiro lugar é verdadeiramente um período de preparação para a solenidade do Natal, onde se celebra a primeira vinda do Filho de Deus ao mundo, mas é também um tempo no qual, por meio desta memória, os corações se voltam para a expectativa da segunda vinda de Cristo[1] na consumação dos tempos. É isso que – sob a forma de oração - proclama o prefácio[2] do Advento I: “revestido de nossa fragilidade ele veio a primeira vez para realizar o seu eterno plano de amor e abrir-nos o caminho da salvação. Revestido de sua glória ele virá uma segunda vez para conceder-nos em plenitude os bens prometidos que vigilantes esperamos”.
É próprio da espiritualidade do Advento promover essa expectativa em relação ao Cristo que vem. Entretanto, é justamente a espera pela sua “segunda vinda” a realidade mais frequentemente esquecida, apesar da grande ênfase que os textos bíblicos e litúrgicos lhe dão. O resultado é uma vivência do Advento lamentavelmente empobrecida.
A notável dificuldade para se falar da nova vinda de Cristo talvez se prenda aos numerosos equívocos cometidos ao longo da história do cristianismo. Muitas vezes, certa “pedagogia do medo” fez pregadores e catequistas descreverem a parusia de forma aterrorizante. O objetivo era impactar emocionalmente, converter os grandes pecadores e reavivar o fervor religioso das comunidades cristãs. A parusia seria o momento do grande ajuste de contas entre o Deus indignado e a humanidade prevaricadora, o dia não só da justiça, mas da tremenda ira divina.
O resultado foi desastroso. A vinda do Senhor deixou de ser jubilosamente aguardada como libertação e início de novos tempos e passou a ser temida como uma inescapável punição. Outro complicador se encontra nas múltiplas predições sobre o dia exato da manifestação do Senhor e o respectivo “fim do mundo”. Tais profecias sempre fracassaram e seus anunciadores caíram no ridículo, projetando uma sombra de descrédito sobre o tema da segunda vinda de Jesus, visto mais como assunto de gente fanática ou alienada, do que como tema teológico de relevância para os que creem.
A liturgia do Advento pode ser assumida como uma oportunidade excelente de recuperação dessa tão esquecida e deturpada dimensão da esperança cristã. Em primeiro lugar, é necessário compreender a parusia do Senhor não como a volta de um “ilustre ausente”, mas como a plena manifestação do Deus que nunca nos abandonou. Sua presença, ao longo dos tempos, se configurou como presença velada, isto é, presença coberta pelo véu da história. Dessa forma, a parusia será desvelamento total da face misericordiosa de Deus e o início de nossa plena participação na sua vida e no seu amor.
A partir dessa perspectiva, celebrar o Advento nos permite olhar para o futuro com grande esperança e ânimo renovado. Num mundo marcado por tantasdesesperanças, vale a pena proclamar que “passará o mundo presente e surgirá novo céu e nova terra” (prefácio do Advento I-A), e isso se fará não pela fúria de um Deus irado, mas pelo cuidado amoroso de um Pai que curará os males e as feridas da sua criação. Por esta razão, a nota dominante que a liturgia do Advento quer imprimir à espera da vida de Cristo é a da alegria: “dai-nos a alegria do advento do vosso Filho que vem para nos salvar” (oração da quinta-feira da 3ª semana do Advento). A alegria que espera o que de melhor Deus preparou para nós.
Para refletir: Em sua experiência pessoal e comunitária você consegue perceber se o medo da “segunda vinda de Cristo” ainda persiste? E a reação oposta, que é a de rejeição e incredulidade, também existe em seu ambiente? Faça a experiência de acompanhar com maior atenção os textos litúrgicos do Advento. Note neles a ênfase mais positiva, dada pela reforma litúrgica promovida depois do Concílio Vaticano II, às celebrações litúrgicas do Advento.
[1] A segunda vinda de Cristo também é chamada de parusia, palavra grega que designa vinda, visitação.
[2]Prefácio é a primeira parte da principal oração da Missa: a oração eucarística. Sua função é proclamar o louvor de Deus a partir de algum aspecto de sua ação salvífica.
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