6. Escatologia e Catequese


Escatologia é a parte da teologia que se dedica a refletir sobre a esperança cristã. O termo escatologia vem do grego eskhaton, que pode ser entendido como “o futuro absoluto” ou a “realidade definitiva”. Portanto, escatologia é a reflexão teológica sobre a plenitude de vida prometida por Deus como um dom para a humanidade e para toda a criação. Falar de escatologia significa afirmar que a nossa história não termina com a morte ou com a aniquilação do mundo. O futuro preparado por Deus para nós é o pleno cumprimento da sua promessa de conceder a todos a vida em plenitude (cf. Jo 10,10).
Uma autêntica escatologia cristã, evidentemente, não foge de temas difíceis como a morte ou o escândalo causado pela presença do mal no mundo. Todavia sua reflexão, conforme a teologia atual, não mais se restringe aos antigos novíssimos (morte, juízo, inferno e paraíso), mas amplia imensamente o seu horizonte ao abordar a esperança cristã que ilumina cada existência humana (escatologia da pessoa), o sentido esperançoso conferido à história (escatologia da história) e à toda criação (escatologia do mundo).
O ponto de partida da escatologia é aquela abertura para o futuro que existe em toda pessoa humana, como elemento constitutivo do seu ser. Essa abertura se manifesta radicalmente como esperança que é “a última que morre e a primeira que ressuscita” (Pedro Casaldáliga). Destituído de esperança, o ser humano se desumaniza e perde a capacidade de se situar criativamente na história.
O centro da escatologia, a sua luz maior, é o mistério pascal de Cristo. A totalidade da vida de Jesus - mas principalmente a sua morte e ressurreição –é o que dá sentido e dinamismo à esperança cristã. A força da vida divina que ressuscitou Jesus dentre os mortos não é uma espécie de privilégio exclusivo dele. Através de Jesus ressuscitado, essa força de Vida fluirá para a criação inteira, resgatando-a das trevas da morte e convertendo-a em Reino de Deus.
A beleza da salvação é um movimento harmonioso e misterioso que percorre toda a história e penetra todas as dimensões da vida. Na verdade, esse “movimento” é a ação da própria Trindade que envolve amorosamente toda a criação e suavemente vai conduzindo cada existência rumo àquela plenitude para a qual foi criada. Essa força da Vida em movimento procede gratuitamente do Pai, é comunicada a nós pelo Filho (com o qual nos unimos mediante o seguimento na fé) e atua livremente na história e no cosmos através do Espírito Santo. É uma força inquieta que não tolera ver nenhuma criatura submetida ao domínio do mal e da morte. Assim, a força salvífica da ressurreição de Jesus vai crescendo ao longo dos tempos e, por fim, abraçará toda a criação “para que Deus seja tudo em todos” (1 cor 15,28). É sobre a beleza desse movimento trinitário que a escatologia se dispõe a contemplar e refletir. Fará isso desposando a esperança como sua companheira nessa viagem teológica.
Quando se liberta a escatologia da sua redução aos “novíssimos do homem” (morte, juízo, inferno e paraíso) fica evidente a sua vinculação com a totalidade da catequese. Praticamente não há nenhum elemento do itinerário catequético que não possa receber novas luzes e enfoques a partir da escatologia. Por sua vez, uma escatologia renovada e centrada no mistério pascal de Cristo tem na catequese uma interlocutora formidável, capaz de tornar acessível o anúncio integral da esperança cristã a um número imenso de pessoas
O Diretório Geral para a Catequese (nº 117) elenca no rol dos grandes temas da catequese a escatologia. Todavia, o que mais frequentemente encontramos é um incômodo silêncio escatológico na catequese contemporânea. Em boa parte das publicações catequéticas a temática escatológica ou é omitida ou abordada de forma rápida, superficial e incompleta. A maior parte dos catequistas nunca teve acesso a uma formação atualizada e aprofundada sobre a escatologia. Como “ninguém pode dar o que nunca recebeu”, o silêncio escatológico é repassado aos catequizandos que, imersos num mundo marcado pelo pluralismo religioso, podem buscar respostas para sua sede de esperanças maiores em outros caminhos religiosos tal como o espiritismo ou as várias correntes da New Age. Urge um novo anúncio da esperança cristã que apresente a sua novidade, amplitude e beleza. Dessa tarefa a catequese não pode ser dispensada.
Para refletir: A ausência da escatologia mutila e desfigura a identidade da fé cristã. Que espaço a escatologia, a proclamação e o testemunho da esperança cristã ocupam em sua atividade catequética? O que pode ser feito para superar o silêncio escatológico?
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