58. “Vamos nós para morrermos com ele” (Jo 11,16)


O evangelho de João pode ser dividido em duas grandes partes: a primeira, chamamo-la de livro dos Sinais e a segunda de Livro da Glória. No Livro dos Sinais, os grandes feitos de Jesus, chamados por João de sinais e não de milagres, apontam para quem ele é. O Livro dos Sinais tem como função desvelar Jesus Cristo como o vinho da alegria e noivo da nova humanidade por ele redimida (Jo 2,10; 3,29), como palavra que faz viver (Jo 4,50), como aquele que nos põe de pé, para além da obediência às autoridades religiosas e nos permite novo êxodo, liberdade (Jo 5,8). Ele é o pão da vida (Jo 6,41.48.51); é o novo Moisés que supera as águas e dá a si mesmo como maná (Jo 6,19); é a luz que nos obre os olhos (Jo 9,6ss) e a ressurreição que vence a morte (Jo 11,25). Essa primeira parte do evangelho compõe a pedagogia da fé joanina, que nos direciona para a glória de Jesus: sua cruz, quando chega finalmente a sua hora e seu amor “até o fim” nos é dado.
O evangelho de João também pode ser visto em sua totalidade como “livro da vida da comunidade”. Essa vida é Jesus, aquele que realiza em tudo a obra do Pai, entregando-se a si mesmo. A comunidade vivificada pelo Espírito de Jesus é chamada a sempre confrontar-se com essa Palavra, para permanecer firme no amor e na fidelidade[1]. O próprio Evangelho termina com essa provocação: tudo o que ali está registrado foi escrito com a finalidade da fé; para que creiam e tenham vida no nome de Jesus (Jo 20,31). A comunidade, entretanto, não só se confronta com a vida de Jesus, mas sua própria experiência pode ser lida nos relatos; uma experiência que se abre para o leitor de todos os tempos.
Sendo assim, deter-nos-emos agora no último dos sinais: a ressurreição de Lázaro. Jesus viaja para Betânia com o peso de já ter recebido duas ameaças de morte (Jo 5,18; Jo 10,31-33), por considerarem-no um blasfemador. Ameaçado de morte, Jesus responderá com o dom da vida. E é lá, a três quilômetros de Jerusalém, em Betânia, a casa da aflição, vilarejo que respira a ideologia dominante da cidade sagrada, que Jesus se mostrará como Vida que se aproxima. A pressão e o medo não o podem desencorajar.
A cena poderia mostrar, então, uma reanimação de cadáver a propósito de revelar Jesus como ressurreição e vida, mas na verdade é mais do que isso. Para além das diferenciações conhecidas entre a ressurreição de Lázaro e a de Jesus, como se a primeira fosse uma reanimação de cadáver e a segunda uma ressurreição para uma vida nova em Deus, a ressurreição de Lázaro é um sinal da própria ressurreição do Cristo. Além disso, Betânia simboliza a comunidade de fé, presa muitas vezes mais à morte do que a vida, mais ao Jesus morto do que ao Cristo que continua presente e que a morte jamais poderá deter. É preciso deixar o morto ir (Jo 11,44), para que o sempre vivo venha. Desamarrando-o, a comunidade também se desamarra do medo da morte e recobra a esperança que estava sepultada nos limites do quarto dia.
A cena é marcante. Jesus grita: “Lázaro, vem para fora” (Jo 11,43). Afinal, para quem aderiu a Jesus Cristo e escutou dele as palavras do bom pastor que conhece as ovelhas pelo nome, quem ouviu também essas palavras; “eu lhes dou a vida eterna” ou, “elas nunca se perderão e ninguém há de arrancá-las da minha mão”, o túmulo é um lugar apropriado? Parece que não.E isso dá todo o peso para a pergunta que só é aparentemente óbvia: “onde o colocaram? ”. Quem crê em Jesus, ainda que morra, viverá (Jo 11,25). A morte não pode sepultar quem vive e crê em Jesus (Jo 11,26). Por isso, quem sai do túmulo não é Lázaro, mas o morto atado e amarrado. Lázaro está vivo na plenitude do amor do Pai. É o morto que precisa ir. “O morto deve ir embora para permitir que Lázaro venha”[2]. E é isso que a comunidade de fé jamais deve perder de vista: a vida triunfa sobre a morte. Logo é preciso cuidar para que, diante do medo e da desesperança, a Palavra do Cristo e sua vida não fiquem presas e amarradas dentro de um túmulo, mas continuem sendo nossa força e coragem.
Agora vamos conduzir nossa lupa para um versículo muito particular do extenso capítulo onze do evangelho. Voltemos para o momento textual em que Jesus anuncia aos discípulos que é preciso ir até Betânia (Jo 11,7). Tomé percebe o perigo que Jesus corre. Acompanhando-o, sabe das acusações que pesam sobre Jesus e da resistência que cresce em oposição a sua missão. Ele toma a palavra e diz aos condiscípulos: “Vamos também nós, para morrermos com ele” (Jo 11,16). É evidente que os discípulos não compreendem que irão testemunhar a vida que supera a morte, mas seguem Jesus mesmo assim, entre a obstinação e o terror.
Mas é curioso que a palavra venha logo de Tomé. Não do discípulo amado, não de Pedro, mas desse discípulo tão mal interpretado, sempre compreendido como um cético que demora a crer. Diferentemente do que se pensa, entretanto, Tomé é um discípulo corajoso, consciente e que, depois da morte de Jesus, não ficará fechado com os outros, por causa do medo dos judeus (Jo 20,19). Essa coragem aparece já aqui, antes do sinal que prefigura a morte e a ressurreição do Cristo, que é a ressurreição de Lázaro. A palavra de Tomé tem, portanto, um primeiro nível: é a coragem do discípulo que quer estar onde está o Senhor.
O segundo nível é que, nessa fala, o Evangelho acaba por insinuar que a morte de Jesus está próxima e que o discípulo deve ser solidário com essa morte, com o destino do mestre. Essa atitude de Tomé está longe de qualquer derrotismo, pois a morte de Jesus é sua doação, seu amor intenso e a entrega da vida. O discípulo deve servir o Cristo na entrega de si, até o fim; deve morrer com o Cristo.
O terceiro nível é o batismal. Morrer com Cristo é uma terminologia batismal muito conhecida (Rm 6,8; 2Cor 5,14). A ressurreição de Lázaro também tem conotações batismais, pois o amigo Lázaro “dorme”, e vai ser “despertado” (Jo 11,11). Dorme o sono da morte e vai ser despertado para a vida (ressuscitado). Assim também o batismo não é outra coisa senão morrer com Cristo, despertar para uma nova vida com ele, ressuscitar. A vida que Jesus dá é uma vida nova que a morte jamais poderá destruir. Em outras palavras, “entre Jesus, Lázaro e os demais discípulos existe uma solidariedade de morte e vida”[3].
Nossa lupa veio, portanto, até Tomé, para dizer que ao invés de ser um representante do ceticismo e da falta de fé, ele é um representante da fé que não abre mão da dúvida e, aqui, nesse capítulo onze, representa a coragem de permanecer com o Senhor, aonde o Senhor for, já vivendo aquilo que será anunciado pelo evangelista: “Se alguém quiser me seguir, siga-me; e onde estou eu, aí também estará meu servo. Se alguém me serve, meu Pai o honrará” (Jo 12, 26). É evidente que permanecer com Cristo, estar aonde ele está não se refere à posição dos corpos, mas a adesão interior e radical de quem, sentindo-se amado por aquele que nos amou primeiro (1Jo 4,19), segue amando, dando a própria vida.
[1] Cf. KONINGS, J. Evangelho segundo João: Amor e fidelidade. Edições Loyola: São Paulo, Brasil, 2005.
[2] MAGGI, A. A loucura de Deus: O Cristo de João. São Paulo: Paulus, 2013, p. 121.
[3] KONNINGS, J. 2005, p. 223.
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