13. A fé em xeque diante do mistério do sofrimento e da morte


“Saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu”
(Chico Buarque de Holanda)
Um dos grandes mistérios que a humanidade enfrenta – se não o maior deles – é a questão do sofrimento e da morte. Todos os dias, a humanidade se angustia com o peso da vida que lhe é próprio. A mãe chora o filho que perdeu. A esposa chora o marido que adoece. O filho chora os pais que o abandonaram. O desempregado chora a incerteza do amanhã.
O sofrimento e a morte visitam a cada um em tempos e lugares inesperados e, com suas consequências inevitáveis, são alvo de constantes definições teológicas. Desde os mais remotos tempos, a teologia preocupou-se com o sofrimento da humanidade e quis conceituar essas questões. Falou do valor salvífico do sofrimento, da miséria humana, da vontade de Deus ou de sua permissão em relação aos atropelos da vida, dos castigos divinos e das severas correções que merecem os pecadores. Discursou sobre a morte em estado de graça ou pecado, e sobre o juízo de Deus. Prometeu recompensas: céu, inferno, purgatório. E parece que nem por isso a humanidade se sentiu mais tranquila e mais em paz para enfrentar o inevitável sofrimento que a vida encerra e a morte que beija a todos algum dia.
A teologia católica descreveu, explicou, concatenou dados, deduziu, sistematizou e fez enciclopédias. Mas a D. Maria não as leu. Mal mal ouviu uma pregação surrada de um padre já cansado e sofrido, esperando a morte chegar. E – mesmo que tivesse lido! – continuou se apavorando com a chegada inevitável da velhice e com o peso da vida que curva a todo homem e toda mulher, a cada dia que passa.
Basta uma rápida olhada pelo panorama da humanidade para que aquele que quer fazer teologia tenha um prato cheio de apetitosas ou indigestas questões para sua fome de saber teológico. Uma ventania de pensamentos agita a paz sepulcral de quem se propõe a essas questões. E elas vêm como uma avalanche que traz algo mais em cada volta que dá: “Será que a teologia tem algo novo a dizer sobre isso? Será que D. Maria está satisfeita com a doutrina que recebeu e com as palavras de consolo que recebeu ao ver seu filho morto? Será que serve de consolo o argumento da “vontade de Deus, da hora certa para que cada coisa aconteça, da permissão de Deus que não quer o mal mas que deixa que ele aconteça, de Deus que quer também gente boa no céu, de que seu filho cumpriu sua missão aqui na terra?”. Terá ela a paz necessária para continuar enfrentando a vida de frente, preparando-se ela mesma para o confronto com a irmã morte? E a teologia? Terá ela, de fato, uma luz para a questão do sofrimento e da morte?”
O que se percebe no momento é que a teologia – pelo menos a que chegou ao povo – não é tão sólida quanto a morte, tão firme quanto o sofrimento, tão certa e tão dolorosa quanto a experiência existencial da humanidade. D. Maria, mesmo com toda sua fé, ainda não entendeu os fatos. Sabe que Deus é amor, mas não compreende o sofrimento da vida.
Paralelamente à experiência de D Maria, crescem o ateísmo prático e o agnosticismo. Seu Joaquim, que não se identifica com essa teologia anunciada pela Igreja, faz seu próprio caminho – se diz ateu – e vive sem comunidade eclesial, mas na paz daquele que encontrou seu centro. E abraça a morte que lhe vem visitar, sem medo de ter perdido tempo aqui na Terra ou de ser punido na outra vida. Morre em paz, descansa em paz! E a teologia fica devendo uma resposta a tantas Marias que colocaram na fé da Igreja a sua esperança. Enquanto isso, a teologia faz discursos, tematiza dogmas, elabora esquemas. E o povo continua sofrendo e morrendo na contra mão da fé, atrapalhando o tráfego.
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