92. Igrejas (fechadas) e a pandemia
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15.04.2021 | 5 minutos de leitura

Diversos

A decisão do STF sobre o fechamento das igrejas e templos durante a pandemia e a não permissão para realização de cultos e missas neste período, proferida no dia 08 de abril de 2021, foi acertada e os argumentos contrários que insistem nesta abertura não se sustentam. Constitucionalmente, estes argumentos se tornaram fracos e teologicamente carecem de um entendimento mais apurado. É de se lamentar o fato de que um tema como este tenha que ser discutido nesta instância, em meio a tantas urgências de um país em crise e em meio a tantas mortes; um genocídio, pois a responsabilidade do governo para cada morte é enorme. Um pouco de bom senso, de responsabilidade e de cuidado para com os nossos semelhantes já nos daria o tom a ser seguido. Não digo com isso que o culto, missas, celebrações e os espaços em que se realizam tais práticas não sejam importantes, eles são, de fato, mas a vida humana e a sua integridade valem mais. Estamos num momento em que se deve pesar com mais força a nossa responsabilidade para com o outro que sofre e que está sob nosso cuidado. A atenção espiritual, a oração e a celebração podem, momentaneamente, encontrar outros caminhos e meios de se realizar.
Olhando teologicamente, a compreensão sobre a Igreja está além do que se apresenta fisicamente como igreja. A assembleia dos fiéis e os lugares de culto não se limitam aos espaços que existem, o que nos convida, neste tempo pandêmico, a pensar e buscar ser Igreja de outras formas, com outras expressões e dimensões. Depois, o culto, o aspecto litúrgico, é uma parte da prática da fé, mas não é a totalidade. Entra aí, com força, o exercício da caridade, a partilha e o serviço aos demais, isto é, a nossa atitude de martiria, de diaconia, que sem elas ficam esvaziados os conteúdos da koinonia e da liturgia. Ainda nesta linha, estamos num momento de favorecer a Igreja doméstica ou outras formas de viver a espiritualidade que não se tornem dependentes de certas estruturas que hoje, em vista do bem comum e do amor ao próximo, não são possíveis. A Igreja também se faz nas ações de solidariedade, no atendimento a pessoas que necessitam. A Igreja também está presente nos profissionais de saúde que doam a sua vida aos outros e passam a ser para os pacientes o único elo visível e sensível do mundo exterior, um sacramento, por assim dizer. Se a nossa prática eclesial não favorece a vida, ela se afasta totalmente dos ensinamentos evangélicos. Assim, o argumento dado pelo AGU é vergonhoso, pois o martírio dos cristãos se dá pela entrega e pela vida doada à causa do Reino, não a um tipo de suicídio coletivo, com interesses diversos e talvez não tão cristãos. Isso em nada tem a ver com a liberdade de culto e com o modo como uma pessoa decide viver a sua fé, isso tem a ver com um bem maior, que é a vida, que é a nossa responsabilidade pelo coletivo e pelas pessoas que nos cercam, de quem nos tornamos próximos.
Desta maneira, a decisão de não abrir templos e igrejas para missas e cultos é acertada. Eu sei que muitos cristãos só sabem viver a fé desta maneira, mas, neste momento, a nossa atitude deve ser para o despertar da consciência e não para aumentar a dependência. Esta petição para a abertura dos templos e igrejas para cultos e missas foi apresentada por um grupo evangélico, e sei que não se pode generalizar neste ponto, até porque muitos dos representantes na petição são ou estão associados ao Malafaia, ao Macedo, ao Feliciano e a uma bancada evangélica que tem interesses políticos e não de uma boa política, em vista do bem comum. Este fato também se soma a uma bancada católica do congresso, que é altamente conservadora e aliada a este governo de morte, pois não seguem, enquanto católicos, as orientações da CNBB e são totalmente afastados do que se vê com o Papa Francisco. No lado católico, muitas dioceses do Brasil fecharam as suas igrejas, mas não deixaram de ser Igrejas. Isso nos leva a discutir a questão da laicidade e o espaço da religião em nosso tempo e sociedade.
Contudo, o que gostaria de frisar é que a vida humana vale mais e que a experiência que nos faz ser cristãos é a do seguimento de um homem que não estava nos templos, nem mesmo nas sinagogas. A estrutura religiosa de seu tempo o levou à morte, e morte de cruz. Este Jesus nos mostrou que se pode seguir o Reino e experimentar a Deus em outros espaços, na vida concreta, no cotidiano, em especial, na vida que sofre. Hoje, a vida sofre e é em atenção a esta vida que se deve pautar o nosso ser Igreja.
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