48. Redescobrir o memorial eucarístico: para além do subjetivismo


Na linha do que temos trabalhado já há duas semanas, neste espaço, a respeito dos riscos para a fé, no que diz respeito à absolutalização de realidades relativas, tal qual o Corpo e Sangue de Cristo eucaristizados nalguns contextos bem marcados, é preciso que consideremos, agora, a importância de redescobrirmos a Eucaristia. E, neste momento, no qual os fiéis estão impedidos de celebrá-la, faz-se bastante oportuno que cuidemos desse tempo para um aprofundamento catequético.
Antes de tudo, importa que recordemos que, quando Jesus se reúne com seus discípulos, na iminência de sua morte, para uma ceia de despedida, ele institui um memorial. Esta não é uma palavra qualquer, para o vocabulário cristão. Fazei isto em memória de mim, disse Jesus, tal qual nos reporta os evangelhos sinópticos e, numa tradição ainda mais antiga, a Primeira Carta aos Coríntios (11,24-25), de Paulo.
Costumamos dizer que, nesta derradeira ceia, Jesus tenha instituído a Eucaristia. Vale dizer mais: instituiu o memorial da Eucaristia. Fazer memória, para as compreensões judaica e cristã, é mais que lembrar. Trata-se de reviver o sabor. A ideia é aquela, de que quando estamos passando por algum lugar, e sentimos o cheiro de um bolo assando, por exemplo, e somos remetidos à nossa infância, à casa dos nossos avós, inclusive sentindo o sabor do bolo que nossas avós faziam. Isso é fazer memória: reviver uma experiência. No caso da Eucaristia, como memorial, essa memória se dá por meio dá fé: cremos que, por força do Espírito, somos simbolicamente transportados ao calvário e ao túmulo vazio, cada vez que nos reunimos para celebrar a Eucaristia.
A palavra Eucaristia, por sua vez, precisa igualmente ser revisitada. Como dissemos no primeiro dos nossos artigos a respeito desta temática, passamos a usar esse termo para se referir ao Pão e ao Vinho consagrados. Esse uso não é incorreto. Porém, ele não deve ser reduzido, em sua compreensão, apenas às espécies eucaristizadas. O significado dessa importante palavra é ação de graças. Logo, quando celebramos/fazemos “Eucaristia” estamos dando graças sobre o pão e o vinho, na confiança de que o Espírito Santo atuará sobre esses elementos, transformando-os em Corpo e Sangue de Cristo, a partir daquilo mesmo que Jesus disse que fizéssemos: sua memória, a fim de que nós nos tornemos o seu Corpo Místico.
Damos graças porque, pelo Espírito do Ressuscitado, podemos fazer comunhão, isto é, partilhar nossa vida com a vida do próprio Cristo, crescendo na qualidade de filhos e filhas, pois somos irmanados à filialidade de Jesus. Tudo isso é puro dom salvífico: tanto o é que, em cada Eucaristia, repetimos não sermos dignos de que sejamos morada do Corpo e Sangue de Cristo, mas, que, ainda assim, temos a chance de viver esse momento histórico de salvação. Aqui, temos um ponto fundamental: tornarmo-nos morada do Corpo e Sangue de Cristo eucaristizados não tem fim, no ato próprio de comungar. Vai além: é tornarmo-nos Corpo de Cristo, Igreja, filhos e filhas cada vez mais conformes à vida filial de Jesus. É por isso que não devemos levar nossa oferta (“pão e vinho” a serem eucaristizados) sem a reconciliação com os irmãos e irmãs (cf. Mt 5,24), caso contrário, como é possível que comamos e bebamos da vida do Senhor, que nos associa a si, se não vivemos o amor entre os irmãos que são membros do próprio Corpo?
O memorial no qual fazemos, em unidade com o Cristo, nossa ação de graças ao Pai, clamando ao Espírito que transforme nossa oferta e a nós que dela comungaremos em Corpo de Cristo, é essencialmente comunitário. Isso se esclarece tão logo recordamos que Jesus se deu no Pão e no Vinho, junto à sua comunidade. É preciso chamar a atenção para isso, para que superemos as tentações subjetivistas em relação à Eucaristia, tal como temos visto tão largamente por aí, e que está sendo uma motivação para esta nossa série de artigos.
Recusar as tendências subjetivistas no que diz respeito à relação com o Eucaristia não significa, contudo, que ignoramos ou rechaçamos que ela atue salvificamente também em nossa subjetividade. Sim, ela atua em nossa subjetividade, pois é aí, nesse profundo de nós mesmos, que vamos tomando consciência de nosso lugar filial. Contudo, subjetividade não deve ser confundida com subjetivismo, pois, como já insistimos nos dois artigos anteriores, essa perspectiva é idolátrica e fetichista. Redescobrir a Eucaristia, com sua forma sacramental, é um caminho fundamental para uma religiosidade saudável, com vistas à legítima espiritualidade. Sobre isso, voltaremos a conversar.
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