25. Nada é sagrado


As flores de vários perfumes, de inúmeros formatos, tamanhos e cores, de muitos encantos e enfeites, ornando altares, amenizando dores, restaurando relações, conquistando corações; as que são promessa do futuro casório, as que acompanharam a noiva... Não são sagradas.
Nem as aves, com seus muitos assovios, alegres ou tristes. Nem as mitológicas, nem as mais frágeis. Nem as que nossos antepassados observavam interpretando seus presságios... Ou as que empoleiram gaiolas, as que repousam num braço... Ou aquelas que nas histórias levam e trazem mensagens. Não são também essas sagradas...
Nem o sol ou a lua. Nem quando aquele aquece um corpo nu que à noite tremulou; nem essa quando repousa seus encantos no mar. Nem quando tinge o céu entre roxo e laranja prenunciando o aparecimento da lua, o sol é sagrado. Nem a lua, quando desencontra o sol, proclamando o alvorecer...
Nenhum encanto paisagístico, que o sol e a lua possam compor, não, por mais que encantem os olhos, que falem à alma, que reanimem as forças, que despertem saudades, que coroem encontros, não são sagrados!
Nem animais, que sejam os de estimação, mesmos esses que são a única companhia. Nem os que guiam os cegos, ou os que acham o caminho... Muito menos os ferozes, tão pouco os peçonhentos. Definitivamente, não são sagrados. Nem o homem é sagrado. Por mais que isso ofenda seu narcisismo. Nem os que heroicamente salvaram outros. Nem as vítimas de genocídios, nem crianças abandonadas. Nem os que derramam lágrimas nos nossos ombros, nem os de sorriso largo. Nem os que nos salvam com a palavra, tão pouco os que com ela nos condenam.
Nem os poetas, filósofos, teólogos ou terapeutas. Não são eles sagrados. Não o são, nem seu pai, nem sua mãe, nem sua tia, o amor de sua vida, seu companheiro.
E o beijo? O roubado, que lhe faz sentir-se amado...? O dado na esquina, que lhe faz sentir-se invejável? O de amor, o molhado, o que lhe assombra, o que rouba a voz, o cheio de desejo...? Nada é sagrado.
A lógica não é sagrada, a matemática também não, nem a física, mesmo a quântica, nenhuma ciência ou religião. Nem a bíblia sagrada? Sim, quem sabe tenhamos encontrado finalmente algo sagrado. Mas nem ela, por suposto, como livro, é sagrada. Nem a música, linda, que canta que tudo o que se move é sagrado é, ela mesma, sagrada.
E, por lógica, nem eu que digo que nada é sagrado, sou sagrado. Nem dizer que nada é sagrado é sagrado, em última análise. Nem generalizações, que são falaciosas, escapam da regra.
E de onde vem tamanho desencantamento do mundo? Da eficácia e fortaleza da razão? Ora, mas também ela não é sagrada. Talvez, então, seja porque a física não é mais ptolomaica. Entretanto, nem Ptolomeu, nem Galileu... Bem, vocês sabem... Nada é sagrado!
Sim. Talvez o nada seja sagrado. É claro! Porque Sartre é sagrado e também Nietzsche! Sim, o nada! Quem consegue abarcá-lo, ou pensá-lo sem preenchê-lo? Quem consegue experimentá-lo sem nausear? E é claro que o sagrado é... Nauseante!? Daqui em diante acenderemos nossas velas ao nada, rezando que tudo seja nadificado. Tudo e nada só são facetas da mesma metafísica. E a metafísica não é sagrada.
A vida? Perguntamos receosos... Ansiosos por encontrar algo sagrado, que valha nossa reverência, nosso respeito...Nem ela? Do que ela vale? Mas se a vida fosse sagrada, ninguém a poderia dar, em nome de alguma ideologia. Então, está definido: as ideologias são sagradas. Entretanto, a história já nos mostrou as consequências de tal sacralização. Portanto, a história é sagrada? Nem ela. Pois querendo estabelecer paradas para o tempo, não nota que o tempo tudo mastiga e engole. Nem o tempo é sagrado, pouco menos hoje em dia. Passado e futuro são ilusões de um presente não menos ilusório. Metáforas. E, como tais, não são sagrados.
Pois bem, às favas com tudo! Tudo então é profano! Do Amazonas ao Rio Grande do Sul. Do Ocidente ao Oriente. Do microcosmo ao macro. Das relações profundas às superficiais. Mas o que é profano (pro-fanum), senão estar diante do sagrado? Logo, existe algo sagrado. O sagrado é mistério. E o mistério parece ladear cada coisa, sem sacralizar nada. E parece transparecer em todas as coisas sem fazê-las sacras.
Há mistério no florescer e na beleza sinfônica dos pássaros. O mistério nos aquece que nem sol e nos atrai que nem brilho da lua. É diverso como os animais... Aparece e transparece na face dos homens e das mulheres. Brilha no sorriso, molha-se nas lágrimas que quedam, entremeia-se entre abraços, sofre com as vítimas da dor...
O mistério brinca de pique-esconde com os teólogos e aos filósofos oferece muitos nomes. Aos poetas se dá amorosamente... Aos terapeutas se faz arredio e os diverte. No rosto da mãe, brilha... No do pai, rebrilha. E, se no rosto daqueles se esconde, no de outros, se mostra.
Ah... E no beijo? O mistério sua.
Na lógica, é articulação. Na matemática, problema. Na física, lei. Na quântica, maleabilização da lei. Na religião, sacrifício. No transfundo da bíblia, o mistério é Palavra de Deus.
E o mistério se debruçou sobre Ptolomeu; no colo de Galileu, dormiu... À Sartre e Nietzsche beijou. Com o tudo, é tudo; com o nada, é nada. Com a vida, é vida, mas nunca ideologia, embora nelas se esfarele. Com a história, faz história e come o tempo que tudo devora.
O sagrado se mostra... Contudo, se tomamos por sagrado alguma dessas coisas, ele desaparece.
Se por certo é assim, dizer “nada é sagrado”’ não é razão para a irreverência, o desrespeito ou a indiferença, nem sequer para o descuido ou para a falta de zelo. Nem serve para justificar o desinteresse. Tampouco, para fundamentar interesses espúrios. Porque, se nada é sagrado, tudo é profano e, ao profano, o sagrado tomou pelas mãos fazendo dele seu amado e, desposando-o, não o profanou.
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