8. Deus não é um guerreiro, nem um general de exército
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16.12.2021 | 9 minutos de leitura

Novena de Natal

Solange Maria do Carmo
Tânia da Silva Mayer
Ambientação: Em local apropriado para a oração, disponha uma toalha bonita, alguns elementos do presépio, a bíblia, a coroa do advento ou uma vela, algumas ramagens ou flores, as fotos de sua família...
Abertura
Dirigente: Queridos irmãos e irmãs, caminhamos para o encerramento da nossa Novena de Natal 2021. Para bem acolhermos o Deus que vem ao nosso encontro, nada melhor que redescobrirmos o rosto desse mesmo Deus, a fim de que nossas portas estejam abertas ao Príncipe da Paz.
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Que a paz e o amor de Cristo estejam em nossas casas e em nossas famílias.
Grupo: Jesus Cristo nos reúne e nos convoca a construirmos um mundo de paz!
Que tal começar cantando a música Mais uma vez, n. 1?
Oração Inicial
Dirigente: Ó Deus da Vida, tu nos enviaste Jesus e ele passou pelo mundo fazendo o bem, ajudando-nos a perceber tua bondade e ternura. Faze-nos, por teu Espírito, pessoas corajosas para construir outro mundo possível, no qual prevaleça o bem e a concórdia.
Grupo: Maranata, Vem Senhor Jesus trazer-nos a verdadeira Paz. Amém.
Leitura da bíblia
Cantar a música n. 2, Vamos receber a Palavra de Deus. Na bíblia, uma pessoa faz a leitura do texto: Mt 5,1-12 Conversa e Partilha da Palavra
O que o texto diz? Que bem aventurança você acha mais bonita? Por quê? Qual mensagem soou mais fortemente para você ao ouvir esse texto? Vamos conversar.
Aprofundamento
As bem-aventuranças do Evangelho de Mateus são uma espécie de estatuto do cristão. Por meio delas, Jesus nos ensina o modo de viver dos discípulos e nos adverte contra toda perversão religiosa.
Muitas vezes, a religião é utilizada para justificar algumas atitudes nada cristãs, tais como procurar o próprio bem e não o bem de todos, se dar bem na vida mesmo que isso prejudique a outros, ser violento para defender os próprios interesses etc.
Nas bem-aventuranças, Mateus corrige isso. Nelas encontramos a identidade cristã muito bem definida. O verdadeiro cristão não é aquele que tem sucesso, reza muito, fala de Deus a toda hora ou se enriqueceu por meio do discurso religioso. O verdadeiro cristão é aquele que chora diante da injustiça e sente empatia pelos sofredores. É aquele que é manso e não o valentão, comprador de brigacom uma arma na mão. É o que luta pela justiça, mesmo que essa justiça não diga respeito a ele no primeiro momento. É aquele que é misericordioso e bondoso, e não os legalistas e puristas de plantão, que vivem colocando o dedo em riste para os que consideram pecadores. O verdadeiro cristão é puro de coração e não malicioso e maledicente, que espalha fake news e fala mal de todo mundo. Os verdadeiros cristãos são os perseguidos e não os perseguidores.
Por que são esses os verdadeiros cristãos? Por que eles seguem os passos de Jesus, o Mestre de Nazaré, que foi pobre, manso, pacífico, misericordioso etc. Em nenhum texto do Evangelho, vemos Jesus portando armas ou incentivando a violência. Há apenas um raro texto de Lucas (22,36), no qual Jesus – anunciando as dificuldades que virão, referentes a seu julgamento injusto e criminoso – diz metaforicamente para os discípulos venderem a capa e comprarem espadas. Ou melhor, devem estar prontos para as tribulações que se aproximam. Certamente não é um texto para ser lido ao pé da letra, até porque uma capa não comprava uma espada, certamente bem mais cara que um manto dos pobres, como é o caso dos discípulos.
Pessoas maliciosas e sem conhecimento bíblico têm instrumentalizado esse texto para falar que os cristãos devem apoiar o armamento, mas isso é um equívoco. Quando os discípulos falam que tem duas espadas com eles, Jesus diz “basta”, no singular, ou melhor “chega, vocês não entenderam nada!” e não “bastam” duas espadas, no plural, pois o que seriam duas espadas frente à guarda do sinédrio e ao exército romano?
Para reforçar suas teorias de armamento, muitos alegam que Deus é o senhor dos exércitos. Tem até cantos religiosos que dizem isso e há grupos cristãos que marcham feito soldados de Cristo em defesa da fé. Uma coisa patética e fora de contexto. As imagens de Deus como senhor bélico está presente no Antigo Testamento, mas Jesus corrigiu essa imagem. Ele próprio não portou arma, não reagiu quando foi injustamente preso e condenado. A arma de Jesus sempre foi o amor, e seu escudo sempre foi a consciência tranquila de quem luta pelo bem de todos. Não há bandido ou força policial capaz de derrotar o amor e a fidelidade.
O Deus de Jesus não é o senhor dos exércitos; ele não tem soldados, ele não é miliciano. Ele não aceita que as pessoas se armem umas contra as outras. As armas do cristão contra a violência devem ser as armas do bem-viver: amor a todos, tolerância ao diferente, educação para todos e reconhecimento da dignidade humana. Bem-aventurados os mansos; bem-aventurados os pacíficos. É isso que Jesus nos ensinou.
Cantar a música n. 8, Um coração cheio de paz, ou outra.
Causo da Vida
Uma pessoa do grupo faz a leitura do causo da vida. Ao final, o grupo pode conversar sobre a narrativa e enriquecê-la com outros exemplos do cotidiano.
Armando tinha dezoito anos quando se filiou a um grupo de atiradores e colecionadores de armas. Com um revólver na mão, ele se sentia potente e forte, sem medo de nada. “Do jeito que o mundo anda violento”, dizia ele, “era preciso aprender a atirar e a se defender dos bandidos e do comunismo”. Foi assim que se filou a um grupo de católicos extremistas que, em nome de Deus, fazia a defesa da pena de morte, da punição mais severa para bandidos, do armamento da população e da diminuição da maioridade penal.
De vez em quando, como era muito católico, batia uma dúvida se aquilo era certo, mas logo se justificava baseado nos textos do Antigo Testamento que falam de guerras santas e extermínios de inimigos. No Novo testamento, aferrava-se a um texto do Evangelho de Lucas, que, no seu entender, Jesus mandava os discípulos comprar espadas. Para ele, Deus era o senhor dos exércitos, um justiceiro que acerta as contas com os maus. Assim aliviava sua consciência atormentada pela culpa e continuava se achando o mais católico de todos.
Seus amigos de grupo de jovens falavam que Deus é amor, ele não ouvia. O padre ensinava que ele estava interpretando de forma equivocada a bíblia, ele não acolhia o ensinamento. A CNBB advertia quanto ao perigo do armamento da população, ele ignorava e enfrentava a Conferência dos Bispos. Sua velha mãe implorava em nome de Jesus, ele se fazia de surdo. Estava certo de que Deus é um general e que era preciso usar armas de fogo para implantar o governo de Deus contra os bandidos. Seguiu então seu caminho, casado com uma mulher submissa e subserviente que concordou em deixar que seus filhos aprendessem a atirar logo cedo. Na casa tinha armas para todo lado e os três filhos atiravam como o pai. Seus nomes já diziam de sua força: Sansão, Débora e Judite.
Tudo ia aparentemente bem com a família de Armando até o dia em que houve um incidente. Mesmo em plena pandemia, Armando viajara para Brasília para participar de uma manifestação a favor do armamento e pela volta da ditadura militar. Seu filho mais velho apaixonara-se por um rapaz e saía furtivamente à noite, escondido da família para seus encontros clandestinos. Não havia espaço na família para admitir sua orientação sexual. Ser gay era coisa de fracos e o pai criara Sansão para ser um machão. Todos dormiam quando um barulho foi ouvido no quintal. Débora, a filha do meio, treinada para se defender, acordou apavorada com a o alarme da casa tocando. Foi logo pegando a arma pensando que eram assaltantes. Viu um vulto no quintal e disparou em sua direção. Um corpo caiu no gramado do jardim e era o jovem Sansão. Foi a maior comoção. Mãe e filhas choravam desesperadamente sem saber o que fazer. A menina que atirara tinha apenas 15 anos, logo Armando e sua mulher foram responsabilizados pelo incidente. Débora nunca se recuperou do trauma e vivia deprimida pelos cantos com olhar vago e cabeça baixa, numa depressão sem fim. A mulher culpou o marido e pela primeira vez se fez ouvir: pediu o divórcio. A outra filha, Judite, cansada de tudo isso, tornou-se monja budista e escondeu-se num convento onde armas não existem. Armando, tendo acertado as contas com a justiça, terminou seus dias sozinho, cercado de armas e munição.
Oração
Dirigente: Irmãs e irmãs, reunidos, rezemos a Deus, que é pacífico e manso, e não um general de um exército ou um Deus bélico.
Grupo: Não há lugar entre nós para o Deus bélico e vingador, armamentista e violento.
Dirigente: Deus nos convoca a promover entre nós relações de amizade e paz. A poesia nos ajuda a rezar. Em dois coros, recitemos o poema Santos armados de Solange do Carmo e Eduardo Calil.
Você consegue imaginar São José com uma escopeta na mão
jogando fora seu lírio, lutando contra a corrupção?
Você consegue imaginar Maria com uma arma empunhada
para vingar a dor de seu Filho e sua alma transpassada?
Consegue imaginar João, o evangelista do amor,
armado com um fuzil para vingar sua dor?
Consegue imaginar Pedro, o discípulo da traição,
pilotando um tanque de guerra para compensar sua negação?
Consegue imaginar Terezinha, a santinha do Carmelo, ameaçando os inimigos trocando as rosas por um flagelo?
Já imaginou João da Cruz, o santo da noite escura,
Torturado por suas dores aprovando a tortura?
Ou São Francisco de Assis, ao encontrar o leproso,
negando-lhe amor, chamando-o de preguiçoso?
Já imaginou São Judas Tadeu, deixando seu livro de lado
e simplesmente com toda força ameaçando com seu machado?
Imaginou o pobre Agostinho, com tão condenável passado, merecer viver excluído, pelos moralistas acusado?
E o que dizer do soldado Sebastião, que ao invés de trespassado
lançasse os dardos contra os perversos, seria ele santificado?
Imagine Maria trabalhando e São José muito ocupado
o menino Jesus brincando, há uma arma ao seu lado...
Grupo:
De repente ouve-se um estalido José olha assustado,
Maria vê estarrecida o menino ensanguentado.
Dirigente: Façamos um momento de silêncio rezando pela paz.
Compromisso cristão
Os cristãos e cristãs que se colocam na esteira do seguimento de Jesus jamais apoiarão ideologias e práticas que promovem a violência, a distribuição de armas, a prisão precoce de jovens infratores, entre outros. Quem espera no Natal o Menino Jesus, aquele que mais tarde irá morrer assassinado numa cruz, luta em favor da paz, que é fruto da justa justiça e do amor e não da violência. Que desarmemos nossos corações, nossas mentes e nossas casas para aguardarmos o Menininho- salvador?
Despedir do grupo, marcando o próximo encontro. Cantar a música n. 10, Venceremos, ou outra do gosto do grupo.