402. REFLEXÃO PARA O 30º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Lc 18,9-14 (Ano C)
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22.10.2022 | 1 minutos de leitura

Evangelho Dominical

Neste trigésimo domingo do tempo comum, a liturgia propõe a leitura de mais uma parábola exclusiva do Evangelho de Lucas, que é também uma das mais conhecidas de todo o Novo Testamento: a parábola do fariseu e o publicano – Lc 18,9-14. O contexto deste texto continua sendo o caminho de Jesus com seus discípulos para Jerusalém, cuja chegada já se aproxima. Como temos recordado sempre, o caminho possui uma importância ímpar no Evangelho de Lucas, ocupando dez capítulos (Lc 9,51–19,27), constituindo, assim, a seção narrativa mais longa de toda a obra. Mais do que um percurso físico e geográfico, para Lucas o caminho é imagem da catequese e da identidade missionária da Igreja; é um verdadeiro programa formativo, um itinerário pedagógico no qual ele distribuiu os principais ensinamentos de Jesus, tendo em vista a formação do discipulado de todos os tempos.
No ano litúrgico corrente, este é o penúltimo domingo em que o evangelho é tirado da seção do caminho. Isso quer dizer que o texto lido neste dia já pertence à parte final da respectiva seção narrativa e faz parte dos ensinamentos conclusivos. Logo, possui muita importância para a comunidade, além de grande riqueza teológica e estética, apesar de ser uma parábola simples, do ponto de vista narrativo. O tema desta parábola chega a dividir opiniões entre os exegetas. Alguns afirmam categoricamente que a temática tratada é a oração, simplesmente. Outros a vêem sob uma perspectiva mais ampla, identificando nela uma diversidade de temas além da oração, tais como: a justificação; a relação entre judeus e pagãos; a relação com Deus, com o próximo e consigo mesmo na vida cristã; a ética cristã; a humildade e o orgulho, etc. A segunda posição parece mais convincente. A parábola trata de praticamente todas as dimensões da vida cristã, dentre as quais está a oração, obviamente. Ao recordá-la, o evangelista visava corrigir problemas da sua comunidade e prevenir comunidades futuras sobre o comportamento cristão.
O texto possui dois versículos introdutórios (vv. 9-10), que reproduzem falas do narrador e de Jesus, respectivamente. Da compreensão dos dois depende a compreensão do inteiro texto. Eis o primeiro versículo: “Jesus contou esta parábola para alguns que confiavam na sua própria justiça e desprezavam os outros:” (v. 9). Esse versículo é extremamente importante, sobretudo no que diz respeito aos destinatários da parábola. Ora, é muito comum lermos nos evangelhos, incluindo o de Lucas, fórmulas introdutórias aos ensinamentos de Jesus como “Jesus contou aos discípulos”, “Jesus disse às multidões”, “Jesus contou aos fariseus”, etc. A maneira como Lucas introduz a parábola de hoje chega a ser surpreendente pela abrangência, sobretudo. Ela não é dirigida a um grupo específico, mas a todas as pessoas que se comportam da maneira descrita, ou seja, “a quem confia na própria justiça e despreza os outros”, independentemente do grupo religioso e da condição social de pertença. Isso indica também a perenidade do ensinamento: aplica-se a todas as épocas.
Confiar na própria justiça e desprezar os outros são duas atitudes incompatíveis com o seguimento de Jesus, por isso, inaceitáveis na comunidade cristã. São atitudes que devem ser combatidas e denunciadas. O evangelista se preocupa com o presente das suas comunidades e o futuro de todo o cristianismo. Mais do que o desânimo, consequência das perseguições externas, tendência combatida pelo evangelista com a parábola do juiz injusto e a viúva insistente (Lc 18,1-8), evangelho do domingo passado, o que mais ameaçava a vida interna das comunidades era a arrogância de alguns membros que se consideravam justos e irrepreensíveis, pessoas que se achavam perfeitas e santas. E a primeira tendência de quem se considera perfeito é desprezar quem não se comporta da mesma maneira. O desprezo pelos outros, portanto, é consequência do sentir-se justo e, obviamente, de uma imagem errada de Deus. Com certeza, ainda hoje, há muitas pessoas nas comunidades e movimentos cristãos com essa tendência, e é exatamente isso que faz desta parábola uma das mais atuais de todo o Novo Testamento.
O segundo versículo introdutório também é muito importante, pois já nos insere no conteúdo mesmo da parábola, com a apresentação dos personagens e do cenário: “Dois homens subiram ao Templo para rezar: um era fariseu, o outro cobrador de impostos” (v. 10). Considerando a primeira parte do versículo, não vemos nada de surpreendente: sendo o templo a casa de oração, por excelência, era normal que dois homens fossem até lá para rezar. Aqui, o verbo subir (em grego: άναβαίνω – anabaíno) tem o mesmo sentido que dirigir-se ou entrar; é o verbo que os judeus empregavam com orgulho para expressar a ida ou a entrada, tanto no Templo quanto na cidade de Jerusalém. Ora, estando Deus nos céus, ou seja, nas alturas, como imaginavam os judeus, o encontro com ele exigia do ser humano um movimento para cima, e a localização elevada da cidade de Jerusalém e do templo, sobretudo, favoreciam esse movimento. A surpresa surge na apresentação dos personagens. Um fariseu e um cobrador de impostos constituíam os dois polos opostos da sociedade palestinense da época de Jesus, principalmente no âmbito religioso. É típico de Lucas apresentar dois personagens juntos, mas com características diferentes e até antagônicas, fazendo uso da técnica retórica do paralelismo antitético. Ele faz isso tanto com personagens reais quanto fictícios. Eis alguns exemplos: Zacarias e Maria (1,5-38), Marta e Maria (10,38-42), o filho mais novo e o filho mais velho (15,11-32), Lázaro e o rico avarento (16,19-31), a viúva insistente e o juiz injusto (18,1-8), e o fariseu e o cobrador de impostos.
Os fariseus eram símbolo de religiosidade e vida impecável. Embora os evangelhos apresentem eles com traços bastante negativos, a ponto de os associarem de imediato à hipocrisia, na verdade eles constituíam a classe das pessoas mais respeitadas na época. Pela observância minuciosa da Lei e pelas boas obras que cumpriam, eles gozavam da simpatia popular, principalmente pela vida exemplar que levavam. Já os cobradores de impostos, pelo contrário, gozavam de péssima reputação. Conhecidos também como publicanos, eles eram colaboradores diretos do poder opressor, o império romano. Além das altas taxas exigidas pelo império, eles ainda cobravam grandes proporções a mais, enriquecendo ilicitamente às custas do povo mais pobre, principalmente; além do salário, ainda retinham para si o que cobravam em excesso. Por isso, eram odiados pelo povo e totalmente excluídos da religião, pois a condição de servidores do poder dominante não permitia que observassem a Lei. A oração do fariseu, no versículo seguinte, deixa bastante clara a má reputação do cobrador de impostos: é o último dos últimos, em termos de prestígio social e religioso, considerado pior do que “os ladrões, desonestos e adúlteros” (v. 11), apesar de abastados economicamente. Portanto, Jesus escolheu, aqui, um personagem símbolo de religiosidade (o fariseu) e outro símbolo de degradação moral (o cobrador de impostos) para contrapô-los e alertar os seus discípulos de todos os tempos sobre o perigo da soberba, orgulho e prepotência, sobretudo quando estas posturas são motivadas pela religião.
A parábola não se limita a dizer que os dois homens foram ao templo para rezar, mas mostra também o conteúdo da oração de cada um. E é esse conteúdo o que vai determinar o desfecho da história. Primeiro, é descrita a oração do fariseu: “O fariseu, de pé, rezava assim em seu íntimo: ‘Ó Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homens, ladrões, desonestos, adúlteros, nem como este cobrador de impostos” (v. 11). Como se vê, a oração do fariseu é toda voltada a si mesmo; ele não agradece pelo que Deus faz em sua vida, mas pelo que ele mesmo é e faz, considerando-se superior e demonstrando total desprezo pelas demais pessoas. Sua oração é um louvor a si próprio. Ao invés de confrontar sua vida com o projeto de Deus, ele a compara à vida dos outros. Na verdade, ele considera Deus um mero contador, a quem apresenta as boas obras e, por isso, deve receber créditos em troca. Para provar que era um homem “acima da média”, ele elenca suas vantagens: “Eu jejuo duas vezes por semana, e dou o dízimo de toda a minha renda” (v. 12). Ora, a Lei exigia o jejum apenas uma vez ao ano, no chamado “dia da expiação” (cf. Lv 16,29); os judeus mais devotos, no entanto, como muitos fariseus, jejuavam duas vezes por semana, nas segundas e quintas-feiras, em alusão à subida e à descida de Moisés ao monte para receber a Lei, imaginando que com esta prática teriam mais vantagens diante de Deus. Quanto ao dízimo, a Lei exigia apenas dos produtos principais: do trigo, do vinho, do azeite e das primeiras crias do rebanho (cf. Dt 14,22-27), enquanto este fariseu dava o dízimo de tudo. Em suma, a oração do fariseu não passa de uma prestação de contas a Deus.
Já a descrição da oração do cobrador de impostos revela a postura de uma pessoa sincera, que tem consciência da sua condição de pecador: “O cobrador de impostos, porém, ficou à distância e nem se atrevia a levantar os olhos para o céu; mas batia no peito dizendo: ‘Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador!’ (v. 13). Antes de tudo, vale ressaltar a coragem deste cobrador de impostos; ora, como pecador público, ele foi ousado ao entrar no templo, pois sabia que seria observado pelas pessoas e até julgado e escarnecido, como foi pelo fariseu em sua oração: “não sou como este cobrador de impostos” (v. 11). O reconhecimento da condição de pecador é evidenciado pela postura e as palavras do cobrador de impostos. El ficou à distância e sem coragem de levantar os olhos para o céu, e batia no peito, em sinal de penitência e arrependimento; suas as palavras expressam a oração dos humildes de Deus – ‘Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador!’ –, uma fórmula bastante repetida nos salmos penitenciais (cf. Sl 25,11; 51,13; etc). Somente quem é humilde reconhece a necessidade de Deus em sua vida. Ao reconhecer essa necessidade, o publicano abre espaço para Deus agir em sua e vida e faz experiência da sua misericórdia.
A parábola é concluída com uma declaração solene e surpreendente de Jesus: “Eu vos digo: este último voltou para casa justificado, o outro não. Pois quem se eleva será humilhado, e que se humilha será elevado” (v. 14). A fórmula solene “eu vos digo” (em grego: λέγω ύμιν – lêgô himin) antecede sempre um ensinamento importante e definitivo, algo irrevogável, como é o desfecho desta parábola. Isso significa que se trata de algo essencial para a comunidade cristã. A surpresa é que o cobrador de impostos foi justificado e o fariseu não. Ser justificado significa ser reconciliado por Deus e admitido à sua convivência, ao seu Reino e à salvação; e isso não se dá por méritos pessoais, mas pela gratuidade do amor de Deus. Voltado para si e para os seus próprios méritos, o fariseu não se abriu à misericórdia de Deus. O cobrador de impostos, pelo contrário, reconhecendo sua condição de pecador, suplicou o perdão de Deus e recebeu justiça. E a justiça de Deus, que não é retributiva, está à disposição de quem necessita e a busca de coração sincero. A frase final é um provérbio, já usado por Lucas em outras duas ocasiões (cf. Lc 14,11; 18,14), que revela a lógica contraditória do Reino e do Evangelho; expressa uma visão de mundo tratada por Lucas desde o início do seu evangelho, ainda no Magnificat: “dispersou os orgulhosos, aos humildes exaltou” (Lc 1,51b.52b). É a lógica do Reino de Deus, que prevê uma reviravolta na história.
Para concluir, é importante recordar alguns elementos. Jesus não declarou que o fariseu é uma má pessoa, tampouco reprovou sua fidelidade à Lei; porém, condenou sua postura egoísta, a sua autossuficiência e o seu desprezo pelos demais como consequência de uma visão distorcida de Deus. Sendo o fariseu a imagem mais expressiva de uma pessoa religiosa na época, Jesus quis alertar os seus seguidores, de outrora e de sempre, que as pessoas religiosas demais são as que mais tendem a distorcer a imagem de Deus. E a distorção da imagem de Deus pode levar as pessoas ao autoritarismo fundamentalista, sentindo-se autorizadas até a praticarem violência em nome de Deus. Jesus também não apresentou o cobrador de impostos como um exemplo de comportamento para os seus discípulos imitarem; não resta dúvidas, inclusive, de que Jesus condenava a exploração dos cobradores de impostos e a contribuição que davam ao sistema opressor, o império romano; Jesus apenas mostrou que a sua atitude humilde, reconhecendo seus limites e sua condição de pecador, foi determinante para ele receber a justiça de Deus.
O ensinamento geral da parábola, portanto, é uma denúncia clara a qualquer pessoa que se sente justa e despreza os demais. Há pessoas prepotentes em todos os lugares; porém, o lugar mais inadequado para estas pessoas estarem é a comunidade cristã. Enfim, o texto ensina que o excesso de religião pode fazer mal. A situação atual do Brasil demonstra isso.
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