401. REFLEXÃO PARA O 29º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Lc 18,1-8 (Ano C)
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15.10.2022 | 12 minutos de leitura

Evangelho Dominical

A liturgia deste vigésimo nono domingo do tempo comum propõe a leitura de mais um texto exclusivo do Evangelho de Lucas. Trata-se da parábola do juiz iníquo e a viúva insistente – Lc 18,1-8. O contexto literário, obviamente, continua sendo o caminho de Jesus com seus discípulos em direção à cidade de Jerusalém, cujo ápice será a paixão, morte e ressurreição. Com tem sido afirmado ao longo dos últimos domingos, o caminho constitui a seção narrativa mais longa do Evangelho de Lucas, sendo considerada também a mais importante, pois é a seção na qual o evangelista distribuiu seus conteúdos mais originais, tendo em vista a formação dos discípulos e discípulas de todos os tempos. Por isso, é importante recordar que, mais do que um percurso físico, o caminho no Evangelho de Lucas é um programa formativo, um itinerário teológico e catequético, ao mesmo tempo em que funciona como imagem ideal da Igreja: uma comunidade dinâmica, aberta e missionária, disposta a levar o Evangelho do Reino a todos os lugares, mesmo correndo riscos.
É durante o caminho que o evangelista apresenta os principais ensinamentos de Jesus aos discípulos e discípulas, sendo até mesmo repetitivo e insistente, conforme a necessidade e a importância do ensinamento. E a parábola lida hoje apresenta temas que parecem mesmo repetitivos no conjunto da catequese lucana: necessidade da oração contínua, juntamente com a busca pela justiça e a perseverança na fé. Ela está localizada entre um pequeno discurso escatológico (Lc 17,20-37) e a parábola do fariseu e o publicano (Lc 18,9-14). É inegável que esta parábola de hoje possui uma riqueza extraordinária, mas carrega algumas dificuldades de interpretação, por isso ela tem sido pouco considerada nos estudos e reflexões, passando quase despercebida no amplo conjunto das parábolas exclusivas de Lucas. Inclusive, há estudiosos que, equivocadamente, a vêem como mera introdução à conhecida parábola do fariseu e o publicano, que também trata da oração, a qual será lida no próximo domingo. O certo é que a beleza e a clareza dessa última têm contribuído para o quase ofuscamento da parábola de hoje, tão rica de sentido, mas de difícil interpretação. O primeiro passo para compreendê-la bem é considerar o contexto histórico das comunidades do evangelista, as primeiras destinatárias do texto.
Entre os anos 80 e 90 do primeiro século, período da redação do Evangelho segundo Lucas, quando Domiciano era o imperador romano, as perseguições aos cristãos já estavam em plena evidência, o que gerava um clima de desânimo nas comunidades. Daí, a necessidade de uma palavra de encorajamento e estímulo à perseverança diante das hostilidades. Além da violência, os cristãos eram vítimas de preconceitos e marginalização. Rejeitados pela sinagoga e sem espaço oficial de culto, eles se reuniam apenas nas casas, dando ainda mais a impressão de marginalidade. Continuavam sendo tratados como judeus, mas como dissidentes, adeptos de uma nova seita. Por isso, eram vistos com desconfiança e todo o aparato administrativo do império conspirava contra eles; inclusive, nos tribunais as causas sempre eram julgadas e resolvidas em desfavor deles. E tudo isso gerava desânimo nas comunidades. Soma-se a isso, ainda, o fato de grande parte dos membros das comunidades ligadas ao evangelista Lucas serem de origem pagã e, por isso, não tinham hábitos de oração. Em suas práticas religiosas anteriores, a relação com o divino se dava basicamente por meio de ritos e sacrifícios, por isso tinham dificuldade de assimilar a necessidade da oração constante. E esse foi um motivo a mais para o evangelista Lucas insistir tanto com esse tema.
Feita a devida contextualização, olhamos para o texto, cujo primeiro versículo funciona como introdução e síntese, ao mesmo tempo: “Jesus contou aos discípulos uma parábola, para mostrar-lhes a necessidade de rezar sempre, e nunca desistir, dizendo:” (v. 1). Quando o evangelista introduz um ensinamento de Jesus dizendo que é dirigido aos discípulos, é sinal de grande importância e valor; significa que se trata de algo essencial para o discipulado de todos os tempos, como esta parábola de hoje. De fato, a prática da oração contínua, juntamente com a luta por justiça e a perseverança na fé são dimensões que não podem ser esquecidas na comunidade. Obviamente, o evangelista não trata de uma oração ininterrupta com a repetição contínua de uma fórmula, mas de uma oração que caracterize a própria existência. de fato, “rezar sempre” não significa simplesmente dizer orações. É, acima de tudo, um convite para os cristãos ritmarem as suas vidas pela oração, ou seja, pela intimidade com Deus. A oração contínua dos cristãos visa sempre a chegada do Reino (cf. Lc 11,2), que é essencialmente um reino de justiça. Por isso, o convite à oração é completado pela demonstração da sua finalidade: “nunca desistir”, o que poderia ser mais bem traduzido por “não desanimar” ou “não baixar a cabeça”, considerando o significado do verbo empregado no texto original (em grego: ἐγκακέω – enkakêo). Por isso, podemos compreender estas primeiras palavras de Jesus como um convite à oração associado à não resignação diante das injustiças, como vai mostrar a sequência do texto.
Do versículo introdutório, passamos ao conteúdo da parábola, propriamente. Embora o tema anunciado pelo narrador tenha sido apenas a oração, logo se percebe que esse compreende também a busca por justiça. Como se vê, é uma parábola tipicamente lucana, a começar pela construção dos personagens: um juiz injusto e uma viúva insistente. É característica de Lucas apresentar dois personagens em paralelo com grandes diferenças entre si, sobretudo nas parábolas, com o objetivo de levar o leitor a tomar partido por um lado, identificando-se com um dos personagens, como por exemplo: o pobre Lázaro e o rico avarento (cf. Lc 16,19-31), o fariseu e o publicano (cf. Lc 18,9-14), e tantas outras. Eis, portanto, o primeiro personagem: “Numa cidade havia um juiz que não temia a Deus, e não respeitava homem algum” (v. 2). A tradição bíblica, desde o Antigo Testamento, apresenta os magistrados com traços bastante negativos, de modo que essa descrição do juiz da parábola é uma verdadeira síntese: a falta de temor a Deus e de respeito ao próximo; isso representa o máximo de prepotência e injustiça. Ora, toda a Lei, os profetas e até o ensinamento de Jesus visam ajudar cada pessoa a viver bem com Deus e com o próximo; logo, ao ser descrito dessa maneira, esse juiz representa um contraexemplo em todos os sentidos.
A experiência de Israel em sua história mostra a atuação de juízes corruptos e adeptos ao suborno. Por isso, um dos alvos constantes das denúncias dos profetas foi a figura do juiz ou “administrador da justiça” (cf. Is 10,1; Am 5,7; etc). Além de ser uma crítica à magistratura, essa descrição também sintetiza o oposto de como deve ser a pessoa cristã. Temor a Deus não significa medo, mas reverência, é o reconhecimento da sua grandeza e do seu amor; o respeito ao próximo é o reconhecimento da dignidade do outro, do valor que cada um possui por ser imagem e semelhança do Criador, independentemente das características individuais de cada um. Os traços descritivos do juiz, portanto, são de quem não está aberto ao advento do Reino de Deus e, portanto, não pode fazer parte da comunidade cristã, por mais inclusiva que essa comunidade seja.
Paralelo ao juiz, o evangelista apresenta o segundo personagem, com características completamente opostas: “Na mesma cidade havia uma viúva, que vinha à procura do juiz, pedindo: ‘Fazei-me justiça contra o meu adversário!’ (v. 3). Se o primeiro personagem é um homem poderoso e prepotente, um juiz, o segundo é uma mulher indefesa e injustiçada. Daí o paradoxo entre os dois personagens. A imagem da viúva, na tradição bíblica, é uma das expressões de pessoa indefesa, necessitada e vulnerável; por consequência, se torna imagem da pessoa predileta por Deus. Inclusive, a Lei hebraica previa proteção especial às viúvas (cf. Ex 22,21-23), mas nem sempre isso era bem observado. Entre o Antigo e o Novo Testamento, não faltam críticas e lamentos pelos direitos usurpados das viúvas. Do Novo Testamento, Lucas é o autor que mais dá atenção a essa categoria social, inclusive, essa atenção às viúvas contribui para o seu Evangelho ser considerado o “evangelho das mulheres e dos pobres”.
Das 26 vezes em que aparece a palavra viúva (em grego: χήρα – kêra) no Novo Testamento, doze delas está na obra lucana (Lc-At). Em Atos dos Apóstolos, por exemplo, ele apresenta o desprezo pelas viúvas como a primeira causa de divisão e desagregação da comunidade de Jerusalém. Logo, sem atenção à causa das viúvas, como síntese de todas as pessoas vulneráveis, não há vida cristã autêntica. Ora, o estado de viuvez em si já é motivo de cuidados e preocupação, o que exige bastante proteção; tudo isso aumenta ainda mais quando a viúva tem um adversário (em grego: αντίδικος – antídikos) que ameaça constantemente os seus poucos direitos. A cena descrita na parábola retrata bem uma situação muito comum no antigo Israel. Como as mulheres se casavam muito mais novas do que os homens, geralmente os maridos morriam antes; por isso, havia muitas viúvas em Israel. Geralmente, elas tinham suas heranças roubadas e, ao recorrer aos tribunais, tinham sempre o desfecho da causa em seu desfavor. Mesmo que o evangelista não especifique a causa do pleito da viúva, os casos mais comuns tinham a ver com herança.
Como se trata de uma parábola, o que significa uma comparação, o objetivo do evangelista é descrever, de modo comparado, a situação dos cristãos e cristãs da sua época. Assim, o juiz da parábola é a imagem do império romano com todo o seu aparato ideológico e militar que nega vida e dignidade aos mais pobres, mas também os sistemas dominantes de todas as épocas. A viúva, por sua vez, é a imagem das comunidades cristãs da época do evangelista, especialmente, que eram vítimas de injustiças e perseguições, sem nenhum direito reconhecido, sem nenhum amparo, mesmo que tivessem uma Lei favorável a elas. Essa imagem se aplica também às comunidades de todos os tempos, bem como às pessoas pobres e marginalizadas em todas as épocas. Também as constituições modernas garantem direitos aos pobres, como acesso às necessidades básicas, como moradia, saúde, educação, trabalho, mas na prática esses direitos são negados, quase sempre. Por isso, é importante a luta, o “não baixar a cabeça”, “não desanimar”. Para haver transformação é imprescindível a luta perseverante, com a oração, obviamente. O Reino de Deus não será instaurado a partir dos sistemas de poder estabelecidos no mundo, mas a partir da luta insistente dos cristãos e cristãs que rezam e buscam a justiça constantemente.
O desfecho da parábola mostra que vale a pena lutar, mesmo quando tudo parece conspirar contra: “Durante muito tempo, o juiz se recusou. Por fim, ele pensou: ‘Eu não temo a Deus, e não respeito homem algum. Mas esta viúva já me está aborrecendo. Vou fazer-lhe justiça, para que ela não venha a agredir-me!” (vv. 4-5). A insistência da viúva é uma demonstração de que não pode haver espírito de conformismo e nem resignação na comunidade cristã; essa não pode assistir passivamente às injustiças e negação da vida. Porém, não pode recorrer à violência. A construção do Reino exige paciência e coragem para lutar sempre, sem desanimar. As situações adversas não são meras fatalidades do destino, e muito menos vontade de Deus. Tudo o que é injusto deve ser mudado e combatido pelos cristãos e cristãs. Porém, as mudanças não acontecem com a rapidez desejada. Por isso, é necessário perseverança e paciência.
A explicação final que Jesus dá, de acordo com o evangelista, é o que dá margens a interpretações equivocadas da parábola, tornando-a difícil, como alertamos na introdução: “E o Senhor acrescentou: “Escutai o que diz este juiz injusto. E Deus, não fará justiça aos seus escolhidos, que dia e noite gritam por ele? Será que vai fazê-los esperar? Eu vos digo que Deus lhes fará justiça bem depressa.” (v. 6-8a). O equívoco que deve ser evitado é comparar o juiz a Deus. Ora, os atributos do juiz são o oposto de Deus, o qual é descrito por Lucas como um Pai cheio de amor e compaixão pela humanidade (cf. Lc 15). Uma das poucas certezas que podemos ter na vida é a de que Deus é justo e a sua justiça nos é favorável. Porém, essa certeza não deve ser motivo de conformismo, e sim um incentivo para os cristãos lutarem sem cessar, rezando, trabalhando e denunciando, para que os sistemas injustos deste mundo sejam transformados. A palavra mais repetida no texto é justiça: aparece quatro vezes (vv. 3.5.7.8). Assim, Jesus ensina, através do evangelista, que a essência de ser cristão é empenhar-se por justiça.
Na conclusão, temos uma chamada de atenção sobre a necessidade da fé perseverante como algo imprescindível para as comunidades manterem viva a luta por justiça: “Mas o Filho do homem, quando vier, será que ainda vai encontrar fé sobre a terra?” (v. 8). Se trata de uma pergunta retórica que visa chamar a atenção dos discípulos de todos os tempos. A vinda do Filho do Homem é uma referência à parusia, quer dizer, ao final dos tempos, e significa que a fé é necessária durante todo o tempo, durante toda a vida. É necessário que, até lá, os cristãos permaneçam em oração sem cessar, lembrando, contudo, que a oração, para Jesus e para Lucas, não significa dizer palavras, mas estar em comunhão com Deus, fazendo no mundo aquilo que condiz com a sua vontade. E vontade de Deus é sempre o bem da humanidade, que todos vivam como seus filhos e filhas, ou seja, como irmãos e irmãs. A fé, aqui, portanto, é a consciência e a atitude dos cristãs e cristãs em manterem-se constantemente em oração e na busca por justiça.
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