32. Canções intimistas


Quando, animados e piedosos, os cantores de nossas liturgias entoam músicas com teor mais intimista, não falta quem faça alguma careta. Para aqueles que foram formados no paradigma da modernidade, cuja teologia antropológica valorizou a razão crítica que disseca a fé ou investe forças no engajamento social, soa absurda e narcisista qualquer música que insista na interioridade e na relação pessoal com Deus.
De fato, os cantos entoados em nossas igrejas mudaram muito. As músicas das últimas décadas – acredite se quiser, ainda presentes na maioria dos hinários atuais – faziam quase sempre memória ao Reino de Deus, à necessária luta para construí-lo e aos compromissos sociais exigidos para tal. Quem cantou “seu nome é Jesus Cristo e passa fome” ou “Irá chegar um novo dia” não se solta com facilidade em arroubos de espontaneidade cantando “Eu navegarei no oceano do Espírito” ou “Senhor, eu sei que tu me sondas”. A primeira pessoa do singular assumiu o protagonismo da cena, deixando na coadjuvância todos os outros atores. É só ter ouvidos minimamente sensíveis para perceber essa mudança.
Há quem diga que tal mudança, reveladora do individualismo e do narcisismo do tempo presente, deveria ser banida de nossas igrejas. Assustados com as características da sociedade hodierna, alguns se arvoram em juízes de nosso tempo, condenando-o como mal e perverso, capaz de perverter até a religião. Esquecem-se de que o tempo atual é capaz de Deus como qualquer outro momento da história, que o evangelho de Jesus não está atrelado a uma cultura específica, como a cultura moderna, e que a fé cristã tem algo a dizer também aos tempos atuais. Sem negar, é claro, todo o bem que o ideal utópico da modernidade e sua valorização da história trouxeram para a evangelização no passado, já é hora de assumir que a fé cristã ganhou novas feições e que estas não são contrárias à proposta do evangelho. A subjetivação da fé – realçada pela pós-modernidade e observada nas canções religiosas – tem raízes nas Escrituras, que não se cansam em insistir na importância da relação pessoal com Deus. Desde muito cantamos: “O Senhor é meu pastor nada me faltará!” (Sl 23,1), assim mesmo no singular e não no plural. Então por que afirmar que tais canções intimistas são uma perversão da fé? Se o são, tal perversão não é de hoje. Mesmo em tempos de Cristandade, não foi sem veemência que cantamos: “Eu quisera, Jesus adorado...”, também no singular, lembrando a relação pessoal da fé. Certo é que cantar na liturgia cristã na primeira pessoa do singular é tão antigo quanto a própria fé cristã.
Não ignoramos, porém, que as canções mudaram... e muito! Já não se canta na primeira pessoa como antes. Não se canta apenas ao Deus escondido no íntimo do coração que fora redescoberto pela pós-modernidade. Não se canta apenas a intimidade da relação pessoal com Deus, revalorizada na personalização da fé exigida pelos tempos atuais. Canta-se também a neo-pentecostalização da fé; canta-se a teologia da retribuição difundida largamente em nosso meio eclesial; canta-se ao deus do impossível, ao deus dos milagres, ao deus mágico que traz soluções imediatas e fáceis para todos os problemas pessoais. Todos notamos isso e admitimos que há excessos, como excessos havia nos hinos modernos que, em nome da encarnação do Verbo, nos fez cantar “penerei fubá”, eliminando o mistério pascal do universo litúrgico, transformando a fé cristã num humanismo cristão.
Nosso povo se cansou não só desse humanismo cristão, mas do mau gosto musical imposto pelos hinários populares, como se, para cantar a encarnação, só pudéssemos cantar marchinhas e baiões que falam de trabalho, suor, pelejas e lutas. As canções intimistas de grupos católicos marginais caíram no gosto popular, porque são melodiosas, têm belos arranjos, mexem com a emoção e o coração, falam da existência, da relação com Deus. Nossa gente não se identifica mais com a pobreza musical e teológica de nossos hinários; tais canções não respondem mais às necessidades e ao gosto musical do momento.
Seria bom a gente perceber o real problema das músicas de nossas liturgias. Não é porque elas dão voz ao “eu” que se tornam pouco apropriadas para a celebração. Mas porque difundem teologias inaceitáveis, tais como teologia mágico-pentecostal, teologia da retribuição, do medo; teologia centrada em pontos periféricos da fé, tais como anjos, etc. Ou porque não favorecem o encontro com o Deus de Jesus Cristo, mas com uma imagem de Deus que não corresponde ao Deus dos cristãos, estimulando uma fé infantil. Que ninguém se escandalize, mas não vejo problemas no caráter intimista da fé. A fé, apesar de ser eclesial e não individual, sempre foi professada na primeira pessoa “Creio em Deus...”. Fica a dica: na hora de escolher as músicas, o mais importante não é se as letras dizem “eu” ou “nós”, se falam dos problemas dos pobres ou dos meus, se se referem a questões sociais ou a questões particulares, mas a teologia que dá sustentação a todos esses pontos. Implicar com músicas que nossa gente canta nas liturgias, apelando para argumentações periféricas, não vai resolver nossos problemas litúrgicos, aliás bem mais complicados do que isso.
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