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271. Choro sem rumo, sem norte, sem vela

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22.11.2022 | 1 minutos de leitura
Flávio Sousa
Poesia
271. Choro sem rumo, sem norte, sem vela
Há tempos que venho chorando miúdo 
Quase um sussurro
Hoje calhou de que 
As miudezas 
antes despistadas,
Ganhassem a proporção 
De um choro exponencial,
Incontido e desarrumado.
Não é um choro comportado, para o qual sempre cabem as clássicas palavras de consolo.
É um choro errante.
Que resgata silêncios impostos desde a infância
Que repara em tanta gente má, escrava de sua arrogância e colonizadora de narrativas de ódio, de frieza, de tiros, de tirania.
Gente que pode pisar na pele preta, pagando uns pouco reais seu salário.
Gente arauta de falso moralismo, defende a família no mesmo dia que estupra a amante, a menor, a carente. Gente que jamais vai admitir a diversidade, porque sua visão é soberba,
Sua pretensão é de superioridade. 
São machos e são machistas, homens e mulheres.
Não ligam pra fila da fome.
Não ligam sequer se os outros são humanos, porque na verdade deles, não são mesmo. 
Choro, porque isso vai se perpetuar, como vem fazendo nos últimos 500 anos. 
Essa gente colocou-nos 
Grilhões e não consente que avancemos. E se um passo além da corrente a gente consegue dar, eles nos apontam suas armas, as de verdade e as de chantagem.
Choro principalmente porque temos hoje um voto, único expediente da República que possui valor igual entre os da casa grade e da senzala. Não vai mudar o mundo, mas pode ser um passo. E há quem, décadas de senzala, não foram suficientes para se darem conta das correntes. 
O voto de hoje não vai abolir a senzala. Mas poderá, com sorte, dar aos que vierem depois de nós, a convicção de que não é na senzala que devíamos estar.
Sigo chorando.

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