405. REFLEXÃO PARA O 33º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Lc 21,5-19 (Ano C)
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12.11.2022 | 1 minutos de leitura

Evangelho Dominical

A reta final do ano litúrgico é sempre marcada pela leitura de textos do gênero literário apocalíptico, como acontece neste domingo, que é o trigésimo terceiro do tempo comum e, portanto, o penúltimo do ano litúrgico corrente. O evangelho proposto para este dia é tirado do discurso escatológico de Jesus em Lucas: Lc 21,5-19. Por tratar-se de um texto bastante longo, não comentaremos versículo por versículo. Procuraremos colher a mensagem central do texto, embora seja necessário destacar e aprofundar alguns versículos específicos, conforme a importância que ocupam no discurso. O discurso escatológico de Jesus está presente nos três evangelhos sinóticos (Mt 24–25; Mc 13,1-37; Lc 23,5-38). A versão de Lucas parece ser a mais sóbria, provavelmente porque ele já tinha antecipado alguns elementos desse discurso na ampla catequese do caminho, principalmente quando mostrava Jesus insistindo com o tema da oração associado ao da vigilância. E a vigilância é um dos temas predominantes do discurso escatológico. O contexto deste discurso é o ministério de Jesus em Jerusalém, após um longo caminho, desde a Galileia até a entrada na grande cidade.
Ainda a nível de contexto, é importante considerar o gênero literário ao qual pertence o evangelho de hoje. Trata-se de um texto “apocalíptico”, adjetivo derivado do substantivo “apocalipse” (em grego: ἀποκάλυψις – apocalýpsis), cujo significado é “revelação”, “manifestação da verdade” ou “tornar conhecido algo que estava escondido”. O gênero apocalíptico é bastante empregado na Bíblia, mas tem sido muito distorcido ao longo da história, passando a ser sinônimo de catástrofes e desastres, causando medo nas pessoas, quando, na verdade, comporta uma linguagem usada pelos autores bíblicos para transmitir mensagens de esperança e resistência às comunidades destinatárias. Logo, ao invés de causar terror e medo, a mensagem do evangelho de hoje deve nos animar, como veremos no decorrer da reflexão. Já o adjetivo “escatológico”, esse deriva da palavra grega “éscaton” (ἔσχατον), que significa fim. Porém, ao falar de fim, os evangelistas pensam em dois sentidos: fim como supressão de tudo o que impede a realização plena do Reino de Deus, e como finalidade da criação, sobretudo do gênero humano, alcançando seu verdadeiro destino.
A mensagem do evangelho de hoje aponta para os dois sentidos: é preciso dar fim a um mundo injusto, tendo como finalidade a surgimento de um mundo novo. Infelizmente, a maioria das interpretações têm estimulado uma concepção de fim enquanto extermínio, marcado por uma sequência de catástrofes, inculcando medo nas pessoas e levando-as a um fundamentalismo extremo. Na verdade, Jesus está anunciando a transição entre os dois reinos ou dois mundos: o mundo vigente, marcado por violência, ódio, injustiças, e o Reino de Deus, no qual prevalecerá o amor e a justiça, com igualdade e vida abundante. Por isso, não se trata de um mundo para o além, mas de criar neste mundo as condições necessárias para o projeto de Deus se realizar já aqui, com justiça, igualdade e fraternidade. Obviamente, pelos contrastes entre os dois mundos ou dois reinos, a transição deverá ser marcada por conflitos inevitáveis, tendo em vista que o advento do Reino de Deus pressupõe a superação de todas as forças e mecanismos que o obstaculizam. Por isso, Jesus previne e encoraja os seus discípulos para a inevitável tensão no período de transição e os consequentes perigos. E os discípulos não devem sossegar enquanto não vivenciarem essa transformação que, mesmo sendo dom de Deus, depende da colaboração de todos os homens e mulheres que derem adesão ao programa de Jesus.
Feitas as devidas considerações sobre o contexto, olhemos então para o complexo texto que nos é proposto. A cena transcorre nas dependências do templo, ambiente de decepção para Jesus, considerando que, de “casa de oração”, foi transformado em “covil de ladrões”, conforme ele denunciou anteriormente (cf. Lc 19,45-46). Em Marcos e Mateus esta cena está situada no monte das Oliveiras (cf. Mc13,3; Mt 24,3). Ao situá-la no próprio templo, Lucas enfatiza ainda mais a oposição de Jesus à instituição religiosa vigente, mostrando que era urgente que ela fosse abolida. Eis o texto: “Algumas pessoas comentavam a respeito do Templo que era enfeitado com belas pedras e com ofertas votivas” (v. 5). O Templo de Jerusalém era uma construção magnífica, uma obra faraônica, considerado uma das maravilhas do mundo na época. Como estava na semana da Páscoa, o templo já estava bastante movimentado, com a presença de muitos peregrinos de diversas partes do mundo. Muitos peregrinos, provavelmente, estavam lá pela primeira vez. Por isso, a admiração de alguns, que poderiam ser alguns discípulos, inclusive. De fato, em Marcos e Mateus são os discípulos mesmos que expressam tal admiração (cf. Mc 13,1; Mt 24,1).
O templo de Jerusalém foi construído, destruído e reconstruído mais de uma vez. Na época de Jesus, estava de pé a construção de Herodes, considerada pelos historiadores como a mais luxuosa de todas, superando até a primeira construção, que tinha sido obra de Salomão. Além de símbolo da identidade de Israel, para os judeus, o templo representava a certeza da presença de Deus no meio deles. Por isso, era o maior motivo do orgulho nacional. Quem passava por Jerusalém se admirava com a beleza e o esplendor do templo, por isso, era muito comuns os elogios como esse dos interlocutores de Jesus. Por sua vez, Jesus via o templo por outra perspectiva. Ele sabia que o principal entrave para o advento do mundo novo que ele almejava – o Reino de Deus – era exatamente a manipulação religiosa com todas as injustiças que dela derivavam, como a conivência e até conluio com o sistema político e econômico. E era isso o que acontecia em Israel. O esplendor do templo era consequência direta da exploração ideológica e econômica. Além dos altos impostos cobrados pelo império romano, o povo era obrigado a pagar taxas também ao templo. “As belas pedras” que o enfeitavam eram consequência de grande exploração, inclusive das pessoas mais necessitadas, como as viúvas (cf. Lc 21,1-4). E, além dos adornos do templo, a exploração e manipulação religiosa mantinha também todos os privilégios das classes dirigentes de Israel, como os sacerdotes. Por isso, o templo de Jerusalém, para Jesus, era a primeira instituição a ser destruída, para aparecerem os primeiros sinais do mundo novo. Daí, a sua resposta objetiva e clara: “não restará pedra sobre pedra” (v. 6b). Com essa expressão, ele externa seu total descontentamento com aquela instituição, dizendo que não há nada a se aproveitar dela: deve ser exterminada o quanto antes. Com certeza, o anúncio da destruição do templo revela a necessidade de uma nova concepção de culto e de relação com Deus.
É claro que o anúncio da destruição do templo causou espanto e desconforto nos interlocutores de Jesus. Para quem usufruía da estrutura, esse anúncio significava ameaça e perda de privilégios; para quem era vítima da estrutura, significava esperança de libertação. Para os judeus mais devotos, era uma grande blasfêmia, pois, sendo o templo a morada de Deus na terra, sua destruição significava o distanciamento de Deus. Para Jesus, pode ter sido uma causa a mais para a sua iminente condenação à morte na cruz. Por isso, os questionamentos dos seus interlocutores são compreensíveis e inevitáveis: “Quando acontecerá isso? Qual o sinal de que estas coisas estão para acontecer?” (v. 7). A perguntas desse gênero, Jesus responde com muita cautela e precisão, embora não diga quando, pois não é competência sua, nem se trata de algo relevante. O que ele pede, na verdade, é que seus discípulos não se apavorem com os acontecimentos que refletem os antigos sinais do fim dos tempos, preditos ao longo da história de Israel pelos profetas: guerras, revoluções e catástrofes naturais, como terremotos e pestes (vv. 9, 10, 11). A estes fenômenos e acontecimentos, ele aponta outro perigo, mais grave, até: a manipulação de seu nome por falsos pregadores e espertalhões que predizem, sem fundamentação alguma, o final dos tempos e apresentam-se como conhecedores das realidades futuras (v. 8b). Ele pede para a comunidade não se deixar enganar por esse tipo de gente (v. 8a), que continua presente na atualidade. Na verdade, é a primeira advertência de Jesus: é preciso ter cuidado com as pessoas que usam o seu nome! As pessoas mais perigosas, para Jesus, são aquelas que provocam medo nas pessoas em seu nome, são aquelas que se apresentam como seus representantes, para fazer o mal, para explorar os outros e distorcer sua mensagem.
Na sequência, Jesus chama ainda mais a atenção dos seus discípulos para as consequências da fidelidade ao seu projeto de construção de um mundo novo: uma sociedade alternativa baseada em novos valores e princípios. Obviamente, o advento de um mundo novo requer a superação de um mundo antigo, o que exige a substituição dos valores tradicionais cultivados pela sociedade e a religião do tempo de Jesus, pelos valores que compõem o seu Evangelho. Eis porque os conflitos se tornam inevitáveis: quem aceitar o Evangelho com seus valores, rejeitará os princípios da antiga ordem estabelecida, mantida pela aparelhagem ideológica da religião e do estado. Tais consequências culminam com as perseguições nos mais diversos âmbitos: religioso, político e até familiar. Quanto às perseguições, que muitos viam como o fim dos tempos, Jesus as apresenta como meios que conduzirão o mundo ao seu verdadeiro fim (finalidade): são sinais de que o Reino de Deus se aproxima. De fato, a fidelidade de seus discípulos será medida pela reação de três instituições a eles: a religião, o poder político e a família. Por isso, Jesus diz que os seguidores do seu Evangelho serão perseguidos e entregues às sinagogas (v. 12), prova de que sua mensagem desmascarava a religião institucional de seu tempo; serão conduzidos diante de reis e governadores (v. 12), sinal da oposição radical entre o Reino de Deus e os poderes políticos vigentes; e serão entregues e mortos até mesmo pelos próprios familiares (v. 16), o sinal de que até mesmo a instituição familiar é abalada pela mensagem renovadora e libertadora de Jesus.
Diante de uma proposta tão exigente e ousada, Jesus faz um forte apelo à fidelidade e perseverança dos seus discípulos, encorajando-os a não desanimarem diante das adversidades. Antes de tudo, Ele garante que, quando estas coisas começarem a acontecer, os discípulos terão a oportunidade de dar testemunho da fé nele (v. 13). Ora, testemunho, em grego “martyrion” (μαρτύριον), significa testemunhar e assumir as consequências desse testemunho, dando a vida se for preciso, como Jesus mesmo prevê (v. 16b). Jesus aconselha os discípulos também a confiar plenamente nele, sem preocupações com o que dizer e o jeito de se defenderem diante das perseguições (vv. 14-15). Basta confiar e testemunhar. E é inevitável que, testemunhando Jesus, os discípulos estarão alimentando o ódio daqueles que querem permanecer ligados às antigas instituições e fechados à novidade do Evangelho. Porém, Jesus garante que o mais importante – a vida – será preservada em sua plenitude: “não perdereis um só fio de cabelo de vossa cabeça” (v. 18). Ora, o fio de cabelo significava a menor parte da vida de uma pessoa na mentalidade hebraica; assim, Jesus diz que a vida do discípulo e discípula que perseverar no testemunho corajoso do seu Evangelho, será ganha em sua totalidade e abundância. Por isso, a palavra-chave de todo o texto é “perseverança”, embora a tradução litúrgica a tenha substituído pela expressão “permanecendo firmes” (v. 19). Mas, “perseverança” (em grego: ὑπομονῇ - hipomonê), além de traduzir mais adequadamente o termo grego, expressa melhor a atitude que Jesus espera dos discípulos: uma espera com esperança e luta, que não comporta comodismo, nem desânimo; uma espera com disposição e esforço, transformando a pessoa que espera em agente de transformação e libertação.
É, portanto, urgente e necessário conceber a adesão ao ensinamento de Jesus como ruptura com as estruturas e instituições tradicionais para, de fato, testemunhar, de modo livre e novo, os valores presentes em seu Evangelho. É urgente que abracemos um mundo novo, caracterizado por novas relações em todos os âmbitos da vida, motivadas única e exclusivamente pelo amor, deixando para trás todas as experiências ultrapassadas, mesmo que usem o nome de Deus, como usava o esplêndido templo de Jerusalém, o qual não merecia outro destino, senão a destruição completa. Por isso, temos a certeza de que Jesus pregava o fim de um mundo antigo insustentável, tendo como finalidade a construção de um mundo novo baseado nos valores do seu Evangelho. E, recordando a jornada mundial dos pobres, instituída pelo Papa Francisco, é importante que o primeiro fruto da transformação desejada por Jesus seja um mundo inclusivo, justo e fraterno.
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