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399. REFLEXÃO PARA O 27º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Lc 17,5-10 (Ano C)

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01.10.2022 | 1 minutos de leitura
Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues
Evangelho Dominical
399. REFLEXÃO PARA O 27º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Lc 17,5-10 (Ano C)
O evangelho deste vigésimo sétimo domingo do Tempo Comum continua a nos situar no contexto do caminho de Jesus para Jerusalém, com os seus discípulos. É certo que nesse longo caminho muitos obstáculos são encontrados, enfrentados e superados. Como esse caminho é, sobretudo, um itinerário formativo para o discipulado de todos os tempos, os obstáculos se estendem também aos leitores e leitoras do Evangelho de Lucas ao longo da história, tanto no que diz respeito às exigências para o seguimento de Jesus, quanto à compreensão daquilo que o texto quer dizer. E o texto lido hoje – Lc 17,5-10 – pode ser considerado um destes obstáculos, tendo em vista as dificuldades de interpretação que o mesmo apresenta. Embora curto, pode ser divido claramente em duas partes: um ensinamento sobre a necessidade e importância da fé (vv. 5-6); e a parábola do servo ‘inútil’ (vv. 7-10).

Como sempre, a melhor maneira de começar a superar as dificuldades de compreensão de um texto é considerar o seu contexto. Ora, o capítulo dezessete de Lucas apresenta a retomada do ensinamento de Jesus sobre as exigências para o seu seguimento. Isso significa que os discípulos são os destinatários principais deste ensinamento. O caminho está se afunilando e, à medida em que avança e se aproxima de Jerusalém, Jesus vai deixando cada vez mais claro o que é necessário para os discípulos continuarem com ele. Muitas exigências já tinham sido apresentadas até então, como a renúncia a todos os bens (cf. Lc 14,33), a coragem para enfrentar a cruz como consequência do discipulado (cf. 14,27) e até mesmo a ruptura nas relações familiares (cf. Lc 14,26). Até então, parece que a fé dos discípulos estava sendo suficiente para suportar estas exigências. Pelo menos, eles não tinham reclamado ainda, embora nem tudo fosse claro para eles. Porém, surge uma nova fase com obstáculos mais difíceis.

A situação parece se complicar mais quando Jesus exige dos discípulos a disponibilidade para perdoar constantemente e ilimitadamente a um irmão que tiver ofendido (cf. 17,3-4). Portanto, para compreendermos bem o evangelho de hoje, é necessário partirmos do seu contexto imediato, recordando a mensagem apresentada nos versículos iniciais deste capítulo dezessete (vv. 1-4). A primeira recomendação feita por Jesus foi o cuidado com o “escândalo” (cf. Lc 17,1-2), recomendando que seus discípulos não escandalizassem a nenhum dos pequeninos, os destinatários principais do Reino de Deus (os pobres; as mulheres; as pessoas marginalizadas de modo geral). É importante ressaltar que “escândalo” (em grego: σκάνδαλον – skandalon), na linguagem do Novo Testamento, não significa propriamente um comportamento moral inadequado, e sim um obstáculo para o Reino; tudo o que for capaz de atrapalhar uma adesão completa a Jesus ou que sirva de obstáculo a um encontro com ele, como o apego aos bens materiais, o orgulho, a inveja, injustiça, a incapacidade de perdoar, a falta de amor, e tantos outros. Neste sentido, pode-se dizer que as omissões são mais escandalosas do que mesmo certas ações, na perspectiva do Evangelho.

No conjunto das advertências sobre os “escândalos”, Jesus apresentou aos discípulos a maior de todas as exigências até então: a necessidade e a disponibilidade para perdoar de modo ilimitado, até sete vezes num único dia – sinal de totalidade – ao irmão que tiver ofendido (vv. 3-4). Foi essa exigência que deixou os apóstolos em crise, a ponto de perceberem que não tinham, ainda, uma fé suficiente para tal. Deixar a família, abrir mão dos bens, abraçar a cruz e romper com tantos laços tradicionais parecia mais fácil do que perdoar ilimitadamente. E, para Jesus, um dos maiores escândalos que pode existir entre os seus seguidores é a falta de perdão. Sem dúvidas, essa foi a maior exigência feita até aqui, para a mentalidade dos discípulos. Portanto, Jesus tinha acabado de apresentar exigências consideradas insuportáveis e inaceitáveis pelos discípulos, como a necessidade do perdão ilimitado e incondicional. É partindo deste fato que devemos ler o texto de hoje.

Desconcertados pela exigência de perdoar ilimitadamente, os discípulos se sentiram impotentes, incapazes de continuar no seguimento. Por isso, diz o evangelista que “Os apóstolos disseram ao Senhor: ‘Aumenta a nossa fé!’” (v. 5). O emprego do termo “apóstolos” aqui, ao invés de “discípulos” reflete a necessidade do evangelista mostrar às suas comunidades que até mesmo o grupo dos primeiros seguidores de Jesus tiveram a sinceridade de se reconhecerem necessitados da ajuda de Jesus, ou seja, não foram autossuficientes. O pedido dos discípulos é uma reação ao que lhes fora anteriormente exigido: o perdão ilimitado e incondicional. Ora, na época da redação do evangelho já não havia mais nenhum dos apóstolos vivos e, por terem convivido pessoalmente com Jesus, o que o evangelista transmitisse como palavras deles tinha muito peso para as comunidades. Portanto, mostrá-los carentes de fé ou com fé impotente seria um importante convite à humildade e à permanente conversão. Ao pedido dos apóstolos, Jesus responde até de modo irônico, dizendo, antes de tudo, que a fé não se mede quantitativamente. Os apóstolos consideravam que já tinham fé, mas não em quantidade suficiente para abraçarem a exigência do perdão. Porém, essa exigência não era tão nova, pois já estava contida no Pai-nosso: “Perdoa os nossos pecados como também nós perdoamos aos nossos devedores” (cf. Lc 11,4); assim, a oração ensinada por Jesus, também em resposta a um pedido deles – “Senhor, ensina-nos a orar” (cf. Lc 11,1-4) – parecia não estar sendo levada tão a sério. Por isso, a resposta de Jesus soa irônica e provocativa.

Se os apóstolos concebiam a fé como algo mensurável quantitativamente, imaginavam que já a possuíam em pequena quantidade e, portanto, necessitavam de algumas “porções” a mais. Daí a ironia de Jesus com o exemplo parabólico do grão de mostarda: “O Senhor respondeu: ‘Se vós tivésseis fé, mesmo pequena como um grão de mostarda, poderíeis dizer a esta amoreira: ‘Arranca-te daqui e planta-te no mar’, e ela vos obedeceria” (v. 6). Em outras palavras Jesus disse que ou se tem fé ou simplesmente não se tem, ou seja, basta que seja autêntica, que seja qualitativa e não quantitativa. O grão de mostarda era considerado o menor dos grãos conhecidos na época; nada poderia ser menor do que ele. Inclusive, já tinha sido utilizado pela tradição sinótica em uma parábola sobre o Reino de Deus (cf. Mt 13,31-32; Mc 4,30-32; Lc 13,18-19). Para deixar os apóstolos ainda mais desconcertados, Jesus usa um exemplo oposto ao grão de mostarda, em termos de tamanho: a amoreira, a árvore conhecida na sua época como a possuidora das raízes mais profundas e de maior tempo de sobrevivência e, portanto, a mais difícil de ser arrancada. Ao invés de amoreira, algumas traduções trazem o sicômoro, que também era uma árvore de raízes bem profundas. Se o simples fato de uma amoreira ser arrancada já parecia impossível para a mentalidade da época, menos possível ainda seria a sua sobrevivência no mar. Por isso, a imagem é surpreendente e fortemente contrastante com o grão de mostarda.

É importante também recordar aqui a criatividade de Lucas, o qual modifica e enriquece a tradição recebida: em Mateus e Marcos essa demonstração da força da fé é feita com a imagem do mover-se de uma montanha (cf. Mt 17,20; Mc 11,23), enquanto Lucas a substitui por uma árvore. A resposta é simbólica e irônica. Jesus não promete dar algumas porções a mais de fé aos apóstolos. A fé é a resposta incondicional ao seu amor, é a adesão plena ao Reino, e isso é pessoal. O exemplo da fé com poder de fazer uma árvore arrancar-se sozinha e plantar-se no mar é apenas um modo de dizer que a fé transforma realidades, quando autêntica. Não significa que os discípulos serão capazes de cumprir obras mirabolantes ou fazer milagres. Na verdade, nem mesmo Jesus usou seu poder para fazer espetáculos; os seus milagres não tinham outro objetivo senão o bem das pessoas.

O evangelista está apenas ensinando que é pela força da fé dos discípulos que Jesus espera que o mundo seja transformado, de realidade injusta no Reino de Deus. Mais do que poder, a fé deve imprimir convicção e coragem transformadora. No caso específico dos apóstolos, e posteriormente dos membros da comunidade de Lucas, era a mentalidade deles que necessitava de uma transformação. Aqui, portanto, Jesus não está prometendo o poder de fazer e ver milagres extraordinários a quem tem fé. Na verdade, ele está pedindo uma transformação interior e radical em cada pessoa, a começar pela vivência do perdão sem medidas. O grande milagre da fé é arrancar pela raiz tudo o que obstaculiza o advento pleno do Reino de Deus: o egoísmo, a injustiça, a falta de amor e de solidariedade, o apego aos bens materiais, a dureza de coração; é tudo isso que, movidos pela fé, os cristãos devem “jogar no mar”, recordando que na mentalidade bíblica o ‘mar’ tem um sentido muito negativo, pois era considerado também o lugar onde habitavam as forças do mal. Inclusive, no início do capítulo em questão, como destino de quem escandalizar um pequenino, Jesus sugere “ser jogado no mar” (cf. Lc 17,1-2).

Na continuação, Jesus conta uma pequena parábola aos discípulos (vv. 7-10), aparentemente sem nexo com a discussão sobre a fé, porém intrinsecamente relacionada: “Se algum de vós tem um empregado que trabalha a terra ou cuida dos animais, por acaso vai dizer-lhe, quando ele volta do campo: ‘Vem depressa para a mesa?’ Pelo contrário, não vai dizer ao empregado: ‘Prepara-me o jantar, cinge-te e serve-me, enquanto eu como e bebo; depois disso tu poderás comer e bebe?’. Será que vai agradecer ao empregado, porque fez o que lhe havia mandado?” (vv. 7-9). Trata-se de mais uma parábola exclusiva de Lucas. Com ela, Jesus quer mostrar aos discípulos a melhor maneira de cultivar e viver uma fé autêntica e verdadeira: colocando-se como servidores, completamente disponíveis e despretensiosos. Ora, vigorava na época, sobretudo em ambientes farisaicos, uma mentalidade religiosa bastante retributiva e meritocrática.

Os fariseus observavam minuciosamente a Torá pensando na retribuição, vivendo uma relação contratual com Deus. Por causa do cumprimento detalhado dos preceitos da Lei, se consideravam pessoas mais justas e, por isso, se achavam mais merecedores dos favores de Deus. Infelizmente, essa mentalidade contaminava também os discípulos de Jesus e as comunidades de Lucas. Havia uma reivindicação de privilégios entre as lideranças das comunidades; por isso, ele quis mostrar que o verdadeiro discípulo é aquele que, movido por uma fé autêntica, não reivindica direitos nem privilégios para si, mas serve de modo livre e gratuito, porque o serviço desinteressado é uma das condições indispensáveis para a instauração do Reino. Tudo o que se faz deve ser voltado para a edificação do Reino, até porque, desde o início Jesus deixou muito claro o seu projeto, exigindo dos discípulos que fossem capazes de “renunciar a si mesmo” (cf. Lc 9,23). Logo, era completamente descabida a tendência à exigência de reconhecimento da parte deles. Portanto, ou serve ou não é servo.

Obviamente, Jesus não pretende estabelecer uma relação servil na comunidade, nem na relação com as lideranças e nem mesmo com Deus. A imagem de Deus como pai, tão bem trabalhada por Lucas, impede que se pense nele como um patrão. O objetivo deste ensinamento, com as imagens do patrão e do servo é apenas imprimir na comunidade uma mentalidade de serviço, não de escravo. Quem serve, não deve servir imaginando Deus como um patrão, mas deve servir porque o serviço dá sentido à vida e é condição para a instauração do Reino. No último versículo, há um exagero na tradução. A expressão mais adequada, ao invés de “servos inúteis” seria “simples servos” ou “apenas servos”, pois o servo não é inútil, pelo contrário, é necessário para a edificação do Reino, embora isso não seja motivo para reivindicar privilégios. De fato, se não fossem úteis, Jesus não teria chamado discípulos para o seu seguimento. Porém, é necessário que o servo não esqueça a sua condição e, portanto, tudo o que venha fazer pelo Reino não pode ser motivo de mérito nem de reconhecimento, pois é essa a sua missão: servir de modo incondicional e movido pela fé.

Podemos dizer, então, que o Evangelho de hoje nos convida a viver e cultivar uma fé autêntica, que nos leve a cortar pela raiz tudo o que dentro de nós se opõe ao Reino, de modo incondicional e livre, e a assumirmos a nossa condição de simples servos, porque nossa missão é servir sempre!
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