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317. livros

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27.09.2023 | 2 minutos de leitura
Pe. Eduardo César Rodrigues Calil
Poesia
317. livros
os livros me olham perguntando-me se os comprei como artigos de decoração. um livro não folheado se irrita, outro chora, outro ainda lamenta. tenho em minha frente uma profusão de lamúrias. minha bíblia é toda feita de lamentações. 
a poesia irrecitada, aguardando a hora de arrebentar-se na boca, sua delícia e seu fel. a crônica – toda crônica é invenção – querendo contar sua história que se quer fidedigna, aguardando o levantar da voz. e as filosofias e teologias e psicologias empoeiradas, choram como neném, o grito esganiçado de terem sido esquecidas pela mãe, de peitos cheios, mas estirada e doente sobre a cama. 
os livros me olham e calam seu choro diante do meu. silenciam-se como diante do absurdo. os que tudo sabem não choram, mas eu nada sei... silenciam-se amargando o dissabor de contemplar o corpo magro, deitado na cama, à espera da noite e suas adagas. o que podem as letras diante do corpo de carne? 
os livros e seu cheiro, os livros e sua pele de papel, rugosa ou lisa, brilhosa ou fosca. a textura encontrando a ponta de meus dedos. a impressão digital contra os contornos sinuosos das vogais e consoantes que se levantam do papel como pequenos relevos. o som saindo como morango comido, intensamente, por uma boca carnuda. mastigo palavras. 
tenho livros sufocados. mortos sob o plástico. liberto-os como um cristo. abro-os, cheiro-os, o papel me inebria. tenho uma relação de amor com o livro, mas sofro a tentação no deserto. nem só de livros viverá o homem. guardo-os. e sou de novo a carne cheia de palavras. 
o corpo que escreveram. o livro que alguns poucos leem. eu faço parte das escrituras sagradas.

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