202. Reflexão para o 2º Domingo da Quaresma – Mc 9,2-10 (Ano B)
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27.02.2021 | 12 minutos de leitura

Evangelho Dominical

Todos os anos, a liturgia do segundo domingo da quaresma utiliza um dos relatos da “Transfiguração do Senhor”. Trata-se de um episódio narrado pelos três evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), o que possibilita à liturgia oferecer um texto para cada ciclo litúrgico (A, B e C), sem ter que repetir a cada ano, uma vez que, apesar de tratar-se do mesmo episódio, cada evangelista o narra à sua maneira, conforme as suas intenções teológicas, suas habilidades literárias e, sobretudo, respondendo às necessidades de suas respectivas comunidades. Isso faz com que os três relatos se diferenciem entre si, embora sejam muito semelhantes. Por estarmos vivenciando o ciclo litúrgico B, o texto lido neste ano é o relato de Marcos 9,2-10.
É um texto muito rico em teologia e carregado de elementos simbólicos. Para compreendê-lo adequadamente é indispensável contextualizá-lo, mesmo que brevemente. Esse episódio é a sequência imediata dos acontecimentos da região de Cesareia de Filipe, que compreendem a confissão de Pedro (Mc 8,27-30); o primeiro anúncio da paixão (Mc 8,31-32); a repreensão de Jesus a Pedro (Mc 8,33), e a declaração das exigências para o discipulado (Mc 9,34-38). Se trata de uma sequência narrativa reveladora da identidade e do destino de Jesus, cujo ápice é exatamente o episódio da transfiguração. Ora, o primeiro anúncio da paixão deixou os discípulos assustados, pois a concepção de messias que eles tinham em mente não era compatível com o sofrimento e a cruz, como Jesus havia predito.
Os discípulos esperavam um messias glorioso, valente e guerreiro, enquanto Jesus anunciou a doação da vida, comportando sofrimento e cruz, se necessário, para alcançar a glória e a vida plena. Inclusive, impôs a disposição para carregar a cruz e doar a própria vida como condição para fazer parte do seu discipulado. A transfiguração é, portanto, a resposta de Jesus à incompreensão dos discípulos acerca da sua identidade, e uma demonstração de que cruz e glória fazem parte de um mesmo caminho: o destino do ser humano é a glória, quer dizer, a realização plena, mas essa passa pelo sofrimento, cuja expressão máxima é a cruz. Trata-se, portanto, de um texto catequético e teológico, e não de uma crônica. Inclusive, um número relevante de estudiosos defende que a cena foi construída a partir de um relato de aparição do Ressuscitado, que Marcos adaptou às necessidades catequéticas da sua comunidade, sendo posteriormente seguido pelos outros sinóticos (Mt; Lc).
Comecemos, então, a olhar para o texto: “Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e os levou a um lugar à parte, sobre uma alta montanha” (v. 2). A versão litúrgica do texto nos priva de uma expressão muito importante: o indicativo cronológico “Seis dias depois”, presente no texto original, substituído no texto litúrgico pela genérica expressão “Naquele tempo”. O indicativo “seis dias depois” faz referência aos últimos acontecimentos narrados: começando pela confissão de Pedro, conforme recordamos acima na contextualização. Ora, Pedro professou sua fé em Jesus como Messias, mas ao mesmo tempo não aceitou o caminho doloroso da cruz, fazendo Jesus repreendê-lo duramente, chamando-o de satanás, por tornar-se um empecilho à realização do projeto de Deus. Portanto, “seis dias depois” de ter anunciado a sua morte, Jesus mostra aos discípulos a vida em plenitude; o sexto dia é o dia da criação do ser humano (Gn 1,26-31), e é nesse dia que Jesus manifesta o ser humano em sua máxima dignidade e realização.
Diz o texto que Jesus tomou consigo três discípulos: Pedro, Tiago e João. À primeira vista, parece tratar-se de um privilégio: Jesus escolhe os mais próximos e íntimos, hierarquizando o grupo dos Doze. Porém, uma leitura mais atenta mostra o contrário: Jesus não escolheu os melhores, mas os discípulos que tinham mais dificuldade de assimilar os seus ensinamentos; são os mais trabalhosos e, portanto, mais necessitados de catequese. Pedro é sinônimo de dureza e fechamento, a ponto de ser o único dos Doze a quem Jesus chamou explicitamente de satanás, por colocar-se como pedra de tropeço em seu caminho (Mc 8,33); Tiago e João eram ambiciosos, ambos queriam lugares de honra ao lado de Jesus (Mc 10,35-40), e eram conhecidos pelo temperamento difícil, a ponto de serem chamados de “filhos do trovão” (Mc 2,17). Portanto, esses três são os discípulos que tinham mais dificuldade em aceitar um messias sofredor e, por isso, os mais necessitados de catequese.
O indicativo espacial também é de grande importância: “e os levou sozinhos, a um lugar à parte, sobre uma alta montanha” (v. 2b). Na tradição hebraica, a montanha é, por excelência, o lugar do encontro do ser humano com Deus. Tanto em Israel quanto nas culturas circunvizinhas, imaginava-se que para comunicar-se com a divindade, o ser humano precisava escalar um monte. Assim, a montanha funcionava como um espaço intermediário e necessário: o ser humano era incapaz de subir aos céus, e Deus grande demais para descer até a terra; daí a necessidade de um lugar intermediário para os dois se comunicarem. Por isso, a montanha tornou-se o lugar da revelação no Antigo Testamento (Ex 19,16; 24,15). Embora a tradição tenha identificado essa montanha com o monte Tabor, esse dado não possui fundamento nos evangelhos. Essa denominação começou com Cirilo de Jerusalém e foi consolidada por São Jerônimo, mas hoje é considerada. No entanto, é melhor mantê-la anônima, como optaram os evangelistas, porque não se trata de um dado geográfico, mas teológico; toda ocasião de encontro e intimidade com Deus é uma subida à montanha.
No alto da montanha, Jesus “transfigurou-se diante deles” (v. 2c), quer dizer que passou por uma transformação no seu aspecto, uma metamorfose. É esse o significado do verbo empregado pelo evangelista (μεταμορφόομαι – metamorfóomai). Diante da incredulidade e resistência dos discípulos em aceitar a morte, Jesus antecipa para eles o resultado da paixão: a manifestação gloriosa do Filho do Homem e, portanto, de Deus nele. Não apenas o rosto brilhou, mas todo o seu ser, inclusive suas vestes: “Suas roupas ficaram brilhantes e tão brancas, como nenhuma lavadeira sobre a terra poderia alvejar” (v. 3). As mesmas imagens e cores da glória de Deus ao longo da história são reveladas em Jesus; o brilho é também sinal do que é novo: à medida em que o Reino de Deus vai sendo implantado, o universo todo se renova. Somente Marcos faz referência ao fato de nenhuma lavadeira ser capaz de deixar uma veste tão alva como ficaram as vestes de Jesus. Duas intenções estão por trás desse detalhe: apresentar uma atividade do lar, reforçando a ideia e a importância da comunidade como casa, o espaço embrionário do Reino, e mostrar que a vida em plenitude (condição gloriosa) almejada pelo ser humano não pode ser conquistada por esforço próprio, mas somente por graça de Deus, ou seja, tem coisas que só Deus pode fazer. As vestes brancas são sinais da identidade divina e da pertença ao mundo de Deus e dos ressuscitados.
Os personagens do Antigo Testamento mais venerados na tradição judaica entram em cena: “Apareceram-lhe Elias e Moisés e estavam conversando com Jesus” (v. 4); obviamente, representam os profetas e a Lei, respectivamente. É mais uma iniciativa divina para conscientizar os discípulos de que o ensinamento de Jesus está em consonância com tudo o que a Lei e os profetas tinham afirmado a respeito do Messias. Embora o programa de Jesus seja repleto de novidades, não contradiz as Escrituras; é o seu pleno cumprimento. Os discípulos contemplam, mas somente Jesus conversa com Moisés e Elias. A comunidade cristã, representada no episódio pelos três discípulos, não depende mais do Antigo Testamento; em Jesus, a Lei e os profetas encerram-se, terminam enquanto cumprimento e plenitude. Jesus é o critério de interpretação da Escritura: o Antigo Testamento só tem sentido se passar por Ele. Por isso, Moisés e Elias nada tem a dizer para a comunidade cristã senão através de Jesus.
Pedro, teimoso como sempre, tomou a palavra e, mais uma vez, disse coisas absurdas: “Mestre, é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias” (v. 5). Três elementos são reprováveis na fala de Pedro: o primeiro, é a nova tentação sugerida a Jesus através do comodismo; permanecer na montanha é ignorar o mundo real com seus problemas e contradições, é mostrar-se indiferente às situações desafiadoras e fechar os olhos às injustiças que assolam o mundo. Mais uma vez, Pedro procura uma maneira de tirar a cruz do caminho de Jesus; na primeira vez, foi Jesus quem o repreendeu, agora será o próprio Pai, ao interrompê-lo. O segundo elemento reprovável na fala de Pedro é o seu apego à tradição e o não reconhecimento de Jesus como o centro da vida: “uma para ti, uma para Moisés, e outra para Elias”; infelizmente, Jesus ainda não ocupava o centro na vida de Pedro, mas sim Moisés. Para a tradição hebraica, o personagem mais importante é aquele que é citado em posição central; Pedro insiste com a antiga tradição: está seguindo Jesus, mas ainda coloca Moisés e a Lei no centro da vida; resiste em aceitar Jesus e o seu Evangelho como centro. O terceiro ponto inaceitável na fala de Pedro é o não reconhecimento de Jesus como a verdadeira tenda. Ora, no Antigo Testamento, sobretudo no contexto do êxodo, a tenda é a o lugar do encontro com Deus, o que agora é a pessoa de Jesus. A ideia de fazer tendas revela incompreensão e não aceitação de Jesus como o revelador de Deus por excelência.
A falta de sentido nas palavras de Pedro tem uma explicação: “Pedro não sabia o que dizer, pois todos estavam com muito medo” (v. 6). O medo é o grande obstáculo para a comunidade, sobretudo, o medo do que é novo e inesperado. O medo gera incompreensão e insegurança. A comunidade marcada pelo medo não sabe o que diz, diz o que não sabe, diz coisas erradas. O medo bloqueia a sobriedade do anúncio. Onde o medo reside, o anúncio sai distorcido. As palavras de Pedro são tão absurdas que o próprio Deus o interrompe: “Então desceu uma nuvem e os encobriu com sua sombra. E da nuvem saiu uma voz: Este é o meu filho amado. Escutai o que ele diz” (v. 7). Diante da incompreensão de Pedro, o Pai se manifesta, chamando a sua atenção. A nuvem é sinal da manifestação e da presença de Deus, desde o Antigo Testamento. As palavras que saem da nuvem são praticamente as mesmas do episódio do batismo, à exceção do imperativo “escutai”: “Este é o meu Filho amado. Escutai o que ele diz” (cf. Mc 1,11), sendo que ali somente Jesus ouviu, enquanto aqui na transfiguração também os discípulos ouvem e ainda são exortados a escutá-lo. O imperativo “escutai-o”, é dirigido principalmente a Pedro, ainda propenso a escutar mais a Moisés do que a Jesus. Escutar Jesus é um imperativo para a comunidade cristã. Quem não lhe escuta, não pode segui-lo nem testemunhar.
Moisés e Elias, ou seja, a Lei e os profetas, já disseram o que tinham a dizer. De agora em diante, só o Evangelho deve falar à comunidade cristã. Ouvir Jesus é compreender sua Palavra e viver as consequências de uma adesão radical a ela, o que Pedro e seus companheiros tentavam constantemente evitar, por medo da cruz. “E, de repente, olhando em volta, não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus com eles” (v. 8). Ora, Moisés e Elias foram embora, pois cumpriram as suas respectivas missões; a comunidade cristã já não precisa mais deles, mas somente de Jesus. Já não sai mais nenhuma voz de Deus pela nuvem, porque quem vê Jesus, vê o Pai (Jo 14,9) e, portanto, quem o escuta, escuta também ao Pai! A comunidade precisa sempre olhar em volta de si mesma e perceber que seu único referencial é Jesus Cristo com seu Evangelho.
Não vendo mais ninguém como referencial além de Jesus, a comunidade renovada é convidada a descer da montanha e novamente encarar a realidade, continuar o caminho com seus percalços e desafios até enfrentar o maior deles: a cruz! A ideia do comodismo não combina com a comunidade cristã, como soou absurda para Deus a sugestão das tendas por Pedro. Jesus pede que não contem nada a ninguém daquilo que experimentaram (v. 9), por respeito aos propósitos do Pai, pois deveriam esperar a Ressurreição, e porque se a notícia daquela experiência se espalhasse, novamente grandes multidões emotivas e curiosas se aproximariam dele em busca de sinais e milagres, quando na verdade o verdadeiro sinal estava se aproximando: a cruz e a ressurreição.
A ressurreição não pode ser compreendida sem antes ser experimentada e celebrada. De fato, compreender o significado de “ressuscitar dos mortos” para quem tem dificuldade de conviver com a morte e a dor é um grande desafio. De todo modo, mesmo ainda marcados pela incompreensão, é salutar a discussão sobre a ressurreição: “comentavam entre si o que queria dizer “ressuscitar dos mortos” (v. 10). O grande debate das comunidades primitivas era sobre o significado da ressurreição e as implicações concretas que a fé nela representava no cotidiano. Aqui está um direcionamento para as comunidades cristãs de todos os tempos: as discussões e reflexões só são válidas quanto são voltadas para a vida, e a vida em plenitude, cujo expressão máxima é a ressurreição. É a fé na ressurreição que faz os cristãos e cristãs sonharem com um mundo novo e, por conseguinte, lutarem para construí-lo.
É um texto muito rico em teologia e carregado de elementos simbólicos. Para compreendê-lo adequadamente é indispensável contextualizá-lo, mesmo que brevemente. Esse episódio é a sequência imediata dos acontecimentos da região de Cesareia de Filipe, que compreendem a confissão de Pedro (Mc 8,27-30); o primeiro anúncio da paixão (Mc 8,31-32); a repreensão de Jesus a Pedro (Mc 8,33), e a declaração das exigências para o discipulado (Mc 9,34-38). Se trata de uma sequência narrativa reveladora da identidade e do destino de Jesus, cujo ápice é exatamente o episódio da transfiguração. Ora, o primeiro anúncio da paixão deixou os discípulos assustados, pois a concepção de messias que eles tinham em mente não era compatível com o sofrimento e a cruz, como Jesus havia predito.
Os discípulos esperavam um messias glorioso, valente e guerreiro, enquanto Jesus anunciou a doação da vida, comportando sofrimento e cruz, se necessário, para alcançar a glória e a vida plena. Inclusive, impôs a disposição para carregar a cruz e doar a própria vida como condição para fazer parte do seu discipulado. A transfiguração é, portanto, a resposta de Jesus à incompreensão dos discípulos acerca da sua identidade, e uma demonstração de que cruz e glória fazem parte de um mesmo caminho: o destino do ser humano é a glória, quer dizer, a realização plena, mas essa passa pelo sofrimento, cuja expressão máxima é a cruz. Trata-se, portanto, de um texto catequético e teológico, e não de uma crônica. Inclusive, um número relevante de estudiosos defende que a cena foi construída a partir de um relato de aparição do Ressuscitado, que Marcos adaptou às necessidades catequéticas da sua comunidade, sendo posteriormente seguido pelos outros sinóticos (Mt; Lc).
Comecemos, então, a olhar para o texto: “Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e os levou a um lugar à parte, sobre uma alta montanha” (v. 2). A versão litúrgica do texto nos priva de uma expressão muito importante: o indicativo cronológico “Seis dias depois”, presente no texto original, substituído no texto litúrgico pela genérica expressão “Naquele tempo”. O indicativo “seis dias depois” faz referência aos últimos acontecimentos narrados: começando pela confissão de Pedro, conforme recordamos acima na contextualização. Ora, Pedro professou sua fé em Jesus como Messias, mas ao mesmo tempo não aceitou o caminho doloroso da cruz, fazendo Jesus repreendê-lo duramente, chamando-o de satanás, por tornar-se um empecilho à realização do projeto de Deus. Portanto, “seis dias depois” de ter anunciado a sua morte, Jesus mostra aos discípulos a vida em plenitude; o sexto dia é o dia da criação do ser humano (Gn 1,26-31), e é nesse dia que Jesus manifesta o ser humano em sua máxima dignidade e realização.
Diz o texto que Jesus tomou consigo três discípulos: Pedro, Tiago e João. À primeira vista, parece tratar-se de um privilégio: Jesus escolhe os mais próximos e íntimos, hierarquizando o grupo dos Doze. Porém, uma leitura mais atenta mostra o contrário: Jesus não escolheu os melhores, mas os discípulos que tinham mais dificuldade de assimilar os seus ensinamentos; são os mais trabalhosos e, portanto, mais necessitados de catequese. Pedro é sinônimo de dureza e fechamento, a ponto de ser o único dos Doze a quem Jesus chamou explicitamente de satanás, por colocar-se como pedra de tropeço em seu caminho (Mc 8,33); Tiago e João eram ambiciosos, ambos queriam lugares de honra ao lado de Jesus (Mc 10,35-40), e eram conhecidos pelo temperamento difícil, a ponto de serem chamados de “filhos do trovão” (Mc 2,17). Portanto, esses três são os discípulos que tinham mais dificuldade em aceitar um messias sofredor e, por isso, os mais necessitados de catequese.
O indicativo espacial também é de grande importância: “e os levou sozinhos, a um lugar à parte, sobre uma alta montanha” (v. 2b). Na tradição hebraica, a montanha é, por excelência, o lugar do encontro do ser humano com Deus. Tanto em Israel quanto nas culturas circunvizinhas, imaginava-se que para comunicar-se com a divindade, o ser humano precisava escalar um monte. Assim, a montanha funcionava como um espaço intermediário e necessário: o ser humano era incapaz de subir aos céus, e Deus grande demais para descer até a terra; daí a necessidade de um lugar intermediário para os dois se comunicarem. Por isso, a montanha tornou-se o lugar da revelação no Antigo Testamento (Ex 19,16; 24,15). Embora a tradição tenha identificado essa montanha com o monte Tabor, esse dado não possui fundamento nos evangelhos. Essa denominação começou com Cirilo de Jerusalém e foi consolidada por São Jerônimo, mas hoje é considerada. No entanto, é melhor mantê-la anônima, como optaram os evangelistas, porque não se trata de um dado geográfico, mas teológico; toda ocasião de encontro e intimidade com Deus é uma subida à montanha.
No alto da montanha, Jesus “transfigurou-se diante deles” (v. 2c), quer dizer que passou por uma transformação no seu aspecto, uma metamorfose. É esse o significado do verbo empregado pelo evangelista (μεταμορφόομαι – metamorfóomai). Diante da incredulidade e resistência dos discípulos em aceitar a morte, Jesus antecipa para eles o resultado da paixão: a manifestação gloriosa do Filho do Homem e, portanto, de Deus nele. Não apenas o rosto brilhou, mas todo o seu ser, inclusive suas vestes: “Suas roupas ficaram brilhantes e tão brancas, como nenhuma lavadeira sobre a terra poderia alvejar” (v. 3). As mesmas imagens e cores da glória de Deus ao longo da história são reveladas em Jesus; o brilho é também sinal do que é novo: à medida em que o Reino de Deus vai sendo implantado, o universo todo se renova. Somente Marcos faz referência ao fato de nenhuma lavadeira ser capaz de deixar uma veste tão alva como ficaram as vestes de Jesus. Duas intenções estão por trás desse detalhe: apresentar uma atividade do lar, reforçando a ideia e a importância da comunidade como casa, o espaço embrionário do Reino, e mostrar que a vida em plenitude (condição gloriosa) almejada pelo ser humano não pode ser conquistada por esforço próprio, mas somente por graça de Deus, ou seja, tem coisas que só Deus pode fazer. As vestes brancas são sinais da identidade divina e da pertença ao mundo de Deus e dos ressuscitados.
Os personagens do Antigo Testamento mais venerados na tradição judaica entram em cena: “Apareceram-lhe Elias e Moisés e estavam conversando com Jesus” (v. 4); obviamente, representam os profetas e a Lei, respectivamente. É mais uma iniciativa divina para conscientizar os discípulos de que o ensinamento de Jesus está em consonância com tudo o que a Lei e os profetas tinham afirmado a respeito do Messias. Embora o programa de Jesus seja repleto de novidades, não contradiz as Escrituras; é o seu pleno cumprimento. Os discípulos contemplam, mas somente Jesus conversa com Moisés e Elias. A comunidade cristã, representada no episódio pelos três discípulos, não depende mais do Antigo Testamento; em Jesus, a Lei e os profetas encerram-se, terminam enquanto cumprimento e plenitude. Jesus é o critério de interpretação da Escritura: o Antigo Testamento só tem sentido se passar por Ele. Por isso, Moisés e Elias nada tem a dizer para a comunidade cristã senão através de Jesus.
Pedro, teimoso como sempre, tomou a palavra e, mais uma vez, disse coisas absurdas: “Mestre, é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias” (v. 5). Três elementos são reprováveis na fala de Pedro: o primeiro, é a nova tentação sugerida a Jesus através do comodismo; permanecer na montanha é ignorar o mundo real com seus problemas e contradições, é mostrar-se indiferente às situações desafiadoras e fechar os olhos às injustiças que assolam o mundo. Mais uma vez, Pedro procura uma maneira de tirar a cruz do caminho de Jesus; na primeira vez, foi Jesus quem o repreendeu, agora será o próprio Pai, ao interrompê-lo. O segundo elemento reprovável na fala de Pedro é o seu apego à tradição e o não reconhecimento de Jesus como o centro da vida: “uma para ti, uma para Moisés, e outra para Elias”; infelizmente, Jesus ainda não ocupava o centro na vida de Pedro, mas sim Moisés. Para a tradição hebraica, o personagem mais importante é aquele que é citado em posição central; Pedro insiste com a antiga tradição: está seguindo Jesus, mas ainda coloca Moisés e a Lei no centro da vida; resiste em aceitar Jesus e o seu Evangelho como centro. O terceiro ponto inaceitável na fala de Pedro é o não reconhecimento de Jesus como a verdadeira tenda. Ora, no Antigo Testamento, sobretudo no contexto do êxodo, a tenda é a o lugar do encontro com Deus, o que agora é a pessoa de Jesus. A ideia de fazer tendas revela incompreensão e não aceitação de Jesus como o revelador de Deus por excelência.
A falta de sentido nas palavras de Pedro tem uma explicação: “Pedro não sabia o que dizer, pois todos estavam com muito medo” (v. 6). O medo é o grande obstáculo para a comunidade, sobretudo, o medo do que é novo e inesperado. O medo gera incompreensão e insegurança. A comunidade marcada pelo medo não sabe o que diz, diz o que não sabe, diz coisas erradas. O medo bloqueia a sobriedade do anúncio. Onde o medo reside, o anúncio sai distorcido. As palavras de Pedro são tão absurdas que o próprio Deus o interrompe: “Então desceu uma nuvem e os encobriu com sua sombra. E da nuvem saiu uma voz: Este é o meu filho amado. Escutai o que ele diz” (v. 7). Diante da incompreensão de Pedro, o Pai se manifesta, chamando a sua atenção. A nuvem é sinal da manifestação e da presença de Deus, desde o Antigo Testamento. As palavras que saem da nuvem são praticamente as mesmas do episódio do batismo, à exceção do imperativo “escutai”: “Este é o meu Filho amado. Escutai o que ele diz” (cf. Mc 1,11), sendo que ali somente Jesus ouviu, enquanto aqui na transfiguração também os discípulos ouvem e ainda são exortados a escutá-lo. O imperativo “escutai-o”, é dirigido principalmente a Pedro, ainda propenso a escutar mais a Moisés do que a Jesus. Escutar Jesus é um imperativo para a comunidade cristã. Quem não lhe escuta, não pode segui-lo nem testemunhar.
Moisés e Elias, ou seja, a Lei e os profetas, já disseram o que tinham a dizer. De agora em diante, só o Evangelho deve falar à comunidade cristã. Ouvir Jesus é compreender sua Palavra e viver as consequências de uma adesão radical a ela, o que Pedro e seus companheiros tentavam constantemente evitar, por medo da cruz. “E, de repente, olhando em volta, não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus com eles” (v. 8). Ora, Moisés e Elias foram embora, pois cumpriram as suas respectivas missões; a comunidade cristã já não precisa mais deles, mas somente de Jesus. Já não sai mais nenhuma voz de Deus pela nuvem, porque quem vê Jesus, vê o Pai (Jo 14,9) e, portanto, quem o escuta, escuta também ao Pai! A comunidade precisa sempre olhar em volta de si mesma e perceber que seu único referencial é Jesus Cristo com seu Evangelho.
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