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191. Reflexão para o 4º Domingo do Advento – Lc 1,26-38 (Ano B)

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19.12.2020 | 13 minutos de leitura
Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues
Evangelho Dominical
191. Reflexão para o 4º Domingo do Advento – Lc 1,26-38 (Ano B)
A liturgia deste quarto e último domingo do advento constitui o ápice da preparação para o Natal do Senhor. Assim como nos dois últimos domingos (segundo e terceiro) fomos ajudados pelo testemunho de João Batista, hoje é a figura de Maria que nos é apresentada como testemunha exemplar de acolhida aos desígnios de Deus em sua vida. Por isso, a liturgia recorre ao Evangelho segundo Lucas, e nos oferece o texto da anunciação: Lc 1,26-38, uma vez que o evangelho predominante no ano litúrgico corrente – Marcos – não faz qualquer menção a este acontecimento. Esta última etapa litúrgica de preparação para o Natal tem a função de nos introduzir diretamente no mistério da encarnação, mostrando como Deus intervém na história, vindo ao encontro da humanidade de maneira extraordinária e, ao mesmo tempo, simples. A Palavra de Deus irrompe no cotidiano interagindo surpreendentemente com o ser humano através do diálogo, propondo ao invés de impor, escolhendo os pequenos e marginalizados ao invés dos poderosos e ricos, fazendo morada na periferia ao invés dos grandes centros. Essas pequenas observações constituem uma breve introdução síntese do evangelho de hoje, objeto da nossa reflexão.

A anunciação do nascimento de Jesus pelo anjo Gabriel a Maria não é um episódio no terceiro evangelho: é precedido pelo anúncio do nascimento de João a Zacarias (cf. Lc 1,5-25). Ambos seguem um modelo bíblico consolidado de anúncios de nascimentos extraordinários, com a intervenção direta de Deus: de Isaac (cf. Gn 17–18), de Sansão (cf. Jz 13), de Samuel (cf. 1Sm 1). Porém, é com o anúncio do nascimento de João que o de Jesus mais se relaciona. O narrador conta as duas histórias paralelas, com um esquema comum, mas com muitas diferenças internas, para ajudar a comunidade leitora a perceber a novidade de Jesus. Inclusive, para compreender melhor o anúncio a Maria, é necessário recordar alguns elementos do anúncio a Zacarias, como: o ambiente urbano e solene do templo de Jerusalém, um sacerdote como destinatário, a idade avançada dos personagens (Zacarias e Isabel), a incredulidade. Esses elementos são importantes para as intenções teológicas de Lucas, o qual convida o ouvinte/leitor a perceber que no anúncio a Maria acontece praticamente o contrário, apesar do esquema comum, como sinal de que, em Jesus, começa uma nova história, escrita a partir dos pequenos, com uma verdadeira revolução de valores e relações.

Mais uma vez, a versão litúrgica do texto traz um prejuízo logo no primeiro versículo, ao trocar o indicativo temporal “No sexto mês”, como consta no texto bíblico, pela fórmula genérica e vaga “naquele tempo”. Assim é o primeiro versículo: “No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré” (v. 28). O sexto mês tem como referência o anúncio feito a Zacarias; seis meses após, o anjo Gabriel foi enviado a Nazaré. Aqui começa a novidade. Ora, a Galileia era uma terra desprezada, considerada semipagã; embora fossem judeus de origem, seus habitantes eram vistos com desconfiança pelos líderes religiosos e políticos de Jerusalém. Nazaré era uma pequena aldeia, na qual viviam aproximadamente quinhentas pessoas. Era uma população extremamente conservadora, como a da maioria dos povoados; por isso, ficará escandalizada ao ver Jesus interpretando a Escritura de maneira crítica e inovadora, na sinagoga (cf. Lc 4,16-30). O Antigo Testamento não faz uma única menção a Nazaré, o que atesta a sua pouca importância. Aqui, Lucas a apresenta como símbolo máximo do desprezo e do anonimato, sinal das surpresas de Deus. Para onde a religião só dispensava desprezo e discriminação, Deus envia o seu mensageiro para dar uma Boa Notícia!

Além do lugar desprezível, Deus surpreende também na escolha da destinatária da sua mensagem: “uma virgem, prometida em casamento, a um homem chamado José. Ele era descendente de Davi, e o nome da virgem era Maria” (vv. 27-28). Embora a tradição cristã tenha transformado a virgindade em virtude, para a mentalidade semita a mulher virgem tinha uma conotação bastante negativa; ser virgem significava não ter capacidade de atrair os desejos e olhares de um homem, e numa cultura ultra machista de completo desprezo pela mulher, isso era lamentável, sinônimo de desgraça. No caso de Maria, ainda bem que já estava “prometida em casamento”. É importante recordar como se dava o casamento judaico. Esse acontecia em duas fases: a primeira, chamada de “etapa da promessa”, durava cerca de um ano; nessa fase, já eram considerados casados, mas ainda não mantinham relações, e a noiva continuava morando na casa de seus pais. Um ano após a “promessa”, acontecia a celebração das bodas, dando início à segunda fase; após cerca de uma semana de festa, os cônjuges passavam a viver juntos. O casamento era consumado na primeira noite das bodas, por isso a noiva permanecia virgem durante toda a fase da promessa.

Do versículo 28 em diante, o texto se desenvolve em forma de um surpreendente diálogo entre o enviado de Deus e Maria. É importante perceber que, no diálogo, será evidenciada a identidade de Jesus, o que demonstra que o enfoque do evangelista é cristológico, e não mariológico. Eis o início: “O anjo entrou onde ela estava e disse: ‘Alegra-te cheia de graça, o Senhor está contigo!” (v. 28). Ao dizer que o anjo entrou, o evangelista dá a entender que o anúncio foi dado dentro de casa, contrapondo ao anúncio solene a Zacarias no templo de Jerusalém. Através de seu mensageiro, Deus rompe todas as barreiras de classe e cultura, dialogando com uma mulher jovem na casa de uma aldeia sem importância. Com isso, o evangelista já traça as primeiras linhas do modelo ideal de comunidade-igreja: a casa, como ambiente familiar onde todos se conhecem e se entendem. A casa é, portanto, o espaço do diálogo, das relações fraternas e sinceras, como deve ser a comunidade cristã. O imperativo “alegra-te” (em grego: χαῖρε – kaire) que abre o diálogo sinaliza para um novo tempo; é um convite a uma grande alegria, pois coisas boas estão para acontecer, uma nova história virá. É também uma demonstração de que Deus não se deixa condicionar pelos esquemas da religião e da cultura, substituindo a tradicional fórmula de saudação hebraica “shalom”. Por isso, “alegra-te” não significa apenas uma saudação, mas um convite para participar de uma nova história.

A sequência da saudação é muito importante, e muitas vezes distorcida: “cheia de graça, o Senhor está contigo”. Algumas práticas devocionais mais exageradas tendem a supervalorizar os méritos de Maria, afirmando que Deus a premiou por isso, escolhendo-a para mãe de seu Filho; essa concepção distorce a gratuidade do amor e da benevolência de Deus que, historicamente, se dirige com predileção aos pequenos e fracos, que não têm capacidade de retribuir os dons recebidos. Logo, a saudação do anjo não é um atestado das virtudes de Maria, mas o anúncio de uma promessa maravilhosa. Inclusive, a tradução mais justa seria: “O Senhor está contigo, te enchendo de amor gratuitamente”. O anjo está garantindo que Deus não vai abandoná-la na missão que está lhe confiando, que lhe trará muitos riscos. A escolha de Maria, portanto, é uma demonstração da gratuidade do amor de Deus e sua predileção pelos pequenos e marginalizados, e não um prêmio por suas virtudes, que são indiscutíveis, mas não a causa da escolha de Deus. Inclusive, no Magnificat ela mesma reconhecerá que foi a sua pequenez que atraiu o olhar benévolo de Deus (cf. Lc 1,48).

Assim como Zacarias, também Maria fica perturbada e reflexiva sobre o significado da saudação, o que é bastante compreensível, tendo em vista a novidade do acontecimento (v. 29), chegando, inclusive, a ter medo (v. 30). Como a iniciativa foi de Deus, é Ele mesmo, através de seu mensageiro, quem explica qual será a missão de Maria na nova história: “Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi. Ele reinará para sempre sobre os descendentes de Jacó, e o seu reino não terá fim” (vv. 31-33). A missão de Maria é de uma mulher autônoma, emancipada: conceber, dar à luz, pôr o nome. Pela tradição, quem dava o nome à criança era o pai, principalmente se o filho fosse varão. No limiar de um novo tempo, a história toma um novo rumo com o protagonismo da mulher.

Simultânea à missão de Maria, também vem explicada a missão e a identidade do filho, começando pelo nome Jesus, o qual significa “Deus salva”; aqui está o sentido de todos estes acontecimentos. A ação salvífica de Deus, até então bloqueada pela religião, de agora em diante se estenderá a todas as gerações e a todos os lugares. Sendo “Filho do Altíssimo”, ninguém terá poder sobre Ele. Ocupará de uma vez por todas o trono de Davi; não terá sucessores, como acontecera no passado, inaugurando um reino novo, na certeza de que esse não cairá nas mesmas contradições que ocorreram no antigo reino de Israel. Assim, cumprem-se as promessas do Antigo Testamento, mas não conforme as expectativas. “Deus salva” a partir dos pequenos e das margens; será essa a principal característica do Reino que está prestes a ser inaugurado.

A interação de Maria com o anjo revela uma nova concepção de Deus. O Deus soberano e distante é coisa do passado. O Deus do diálogo entra em cena: vindo ao encontro da humanidade, escolhendo o lado mais fraco da história, permite ser questionado por uma jovem mulher. Maria antecipa um jeito novo de relacionar-se com Deus, quebrando protocolos, abandonando rituais, interagindo diretamente: “Como acontecerá isso, se eu não conheço homem algum?” (v. 34). Ela compreende que é possível dialogar com Deus e até questioná-lo, afinal, Ele quis ser um de nós! Mais do que percepção e cognição, o verbo conhecer (em grego: γινώσκω – guinôsko) na tradição bíblica significa intimidade, e até mesmo relação sexual; é nesse sentido que Lucas o emprega aqui. De fato, embora já fossem considerados marido e mulher, na primeira etapa do casamento não era permitido ter relação sexual. Na pergunta de Maria, Lucas antecipa o modelo ideal de discipulado: crente, confiante, perspicaz e questionador. A fé autêntica não está imune a questionamentos, pelo contrário. Com a crescente mercantilização do sagrado, o exemplo questionador de Maria se torna cada vez mais necessário no discipulado de Jesus; isso vale para todos os tempos.

À nova humanidade questionadora, prefigurada por Maria, Deus não responde com castigo, como muitos ainda hoje insistem. A resposta de Deus, através do anjo, é de quem acredita no ser humano e tem paciência com ele: “O Espírito virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra. Por isso, o menino que vai nascer será chamado Santo, Filho de Deus” (v. 35). Além da capacidade de Deus agir de modo completamente novo, extraordinário e surpreendente, a concepção divina de Jesus, dispensando a intervenção masculina, marca também um rompimento com a tradição familiar patriarcal. A figura masculina deixa de ser o centro da família e da sociedade, preconizando um mundo novo marcado pela igualdade nas relações. Com a promessa da vinda do Espírito sobre Maria, Lucas introduz um dos temas mais importantes da sua teologia, mostrando que é o Espírito Santo quem anima e conduz a vida da comunidade cristã, o que ficará mais claro no segundo volume da sua obra, o livro dos Atos dos Apóstolos.

Ainda em resposta ao questionamento de Maria, o mensageiro de Deus cita, como sinal, o exemplo de Isabel, uma anciã considerada estéril, porém fecundada graças à intervenção divina. Os dois casos, uma anciã estéril e uma jovem virgem grávidas, ressaltam a grandeza e a bondade de Deus; mostram que para Ele nada é impossível (v. 37). Como é a partir das dúvidas que a fé se torna sólida, Maria chega à conclusão da veracidade do anúncio e se prontifica a colaborar decisivamente com o projeto de Deus para a construção de um mundo novo e de uma humanidade renovada: “Eis aqui a serva do Senhor” (v. 37a). Mais do que uma prova de humildade, a resposta de Maria é uma profissão de fé, amor e confiança. Com a expressão “a serva do Senhor”, Maria não dá uma simples declaração de humildade, mas se apresenta como colaboradora de Deus. Ora, no Antigo Testamento, “servo do Senhor” era um título de honra, aplicado apenas a figuras masculinas, tanto individuais quanto corporativas. O servo é aquele que participa da obra. Aplicando a si, Maria diz que também as mulheres podem ser colaboradoras de Deus e de seu plano salvífico.

O consentimento livre e espontâneo, depois de um diálogo franco e sincero, demonstra a autonomia e a confiança de Maria: “faça-se em mim segundo a tua palavra!” (v. 37b). Naquelas circunstâncias históricas, a mulher não tinha nenhum poder de decisão; só o pai ou o marido poderiam decidir por ela. Ao ser consultada e responder sozinha, sem pedir permissão a nenhum homem, Maria rompe completamente com os condicionamentos culturais da época, tirando a mulher da humilhante situação de submissão. O seu sim é um ato de fé, de confiança em Deus, mas também de coragem e subversão. Assim, ela afirma a dignidade da mulher, e reivindica o primado da Palavra na vida da Igreja, da qual ela é modelo. Abrindo-se com disponibilidade para o cumprimento da palavra, ela se torna exemplo de discípula, sendo a primeira a compreender o programa de Jesus, cujas relações são definidas mais pela escuta da Palavra do que pelos laços sanguíneos (cf. Lc 8,19-21).

Neste contexto de preparação para a acolhida do Senhor, é indispensável olhar para o exemplo de Maria. Com seu testemunho de fé no Senhor, com o espírito questionador, com sua autonomia e coragem, ela se torna modelo e exemplo para o discipulado de todos os tempos. Tudo isso porque deixou a Palavra “fazer-se” em sua vida. E para sentir os sinais da sua vinda/presença, o Senhor nos convida, através do exemplo de Maria, a olhar para as margens, ouvir os silenciados de sempre e, assim, construir uma nova história. Isso é fazer acontecer conforme a Palavra.
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