189. Reflexão para o 2º Domingo do Avento – Mc 1,1-8 (Ano B)
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05.12.2020 | 11 minutos de leitura

Evangelho Dominical

Todos os anos, a liturgia do segundo e do terceiro domingos do advento destaca a figura de João, o Batista, como o profeta que antecede, de modo imediato, à missão de Jesus. Neste ano, por ocasião do Ciclo litúrgico B, o texto evangélico proposto para o segundo domingo é Mc 1,1-8. Como o Evangelho de Marcos é menos extenso do que os demais, também o seu relato sobre a missão do Batista é mais abreviado. Por isso, no próximo domingo – o terceiro – a liturgia utilizará um texto do Evangelho segundo João para falar do testemunho do Batista. Sendo o advento o tempo por excelência de preparação para o Natal do Senhor, é importante voltarmos o olhar para o princípio do evangelho, reconhecendo o papel dos personagens que estiveram em tal princípio, como hoje recordamos a figura de João, o Batista. O texto lido hoje contém os primeiros versículos do Evangelho de Marcos, o que lhe confere uma grande importância, pois, além de descrever os elementos essenciais da missão de João, funciona também como introdução geral à toda a obra.
De maneira única no Novo Testamento, o Evangelho de Marcos começa com um título programático: “Início do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” (v. 1). A palavra evangelho (em grego: εὐαγγελίον – euanguélion) significa boa notícia, boa nova, notícia agradável. Essa era uma palavra mais utilizada no campo político do que no religioso. No império romano, usava-se a palavra “euanguélion” para anunciar os acontecimentos relativos à vida imperial, como o nascimento de um filho do imperador, as vitórias em uma guerra e a construção de grandes obras, como aquedutos e estradas. De modo subversivo, os primeiros cristãos passaram a empregá-la em referência a Jesus, tanto à sua vida, quanto à sua mensagem. A palavra só passou a ser utilizada como títulos dos livros sobre a Jesus na segunda metade do século segundo. Já no século dezenove, com o avanço da exegese, a palavra evangelho foi reconhecida também como um gênero literário particular, do qual fazem parte todos os relatos sobre a vida de Jesus.
Ao utilizar a palavra “euanguélion” para referir-se à vida e à missão de Jesus, Marcos se assume como um autor altamente revolucionário e subversivo, afirmando que boa notícia não é o que sai de Roma, através de decretos imperiais, mas o que saiu de Nazaré, na vida de um homem simples, corajoso e cheio de amor: Jesus. Ora, se Marcos se assume subversivo politicamente, aplicando a palavra “euanguélion” a Jesus, é nítida também a sua subversão religiosa, ao abrir a “história” de Jesus com a mesma palavra com a qual se abre o primeiro livro da Bíblia (Gn 1,1), para falar do início da criação: início ou princípio (em grego: Ἀρχὴ – arkê). Assim, o evangelista está afirmando que a vida e a história têm, em Jesus, um novo princípio, um novo fundamento, desafiando a religião oficial da época, até então, controladora do nome de Deus.
O homem do qual o evangelista irá falar ao longo da sua obra, Jesus, é o Cristo, ou seja, o messias e, ao mesmo tempo, Filho de Deus. Nestes dois títulos aplicados a Jesus – Cristo e Filho de Deus – está a síntese de toda obra de Marcos, e é assim que ele responde à pergunta “Quem é Jesus?”, objetivo do seu Evangelho. O termo Cristo (em grego: Χριστὸς – Cristós) significa messias ou ungido; aquele que, sendo ungido, está habilitado para cumprir uma missão; aplicando-o a Jesus, um judeu, o evangelista está afirmando que o tão esperado messias libertador de Israel chegou, mas não como tinha ensinado a religião, ou seja, ele não veio como rei, guerreiro e vencedor, mas simples e pobre. Ao afirmar que Jesus é também Filho de Deus, Marcos desafia, ao mesmo tempo, tanto o império quanto a religião da época. Ora, o judaísmo esperava um messias filho de Davi, o qual viria para proteger e libertar somente o povo de Israel; ao denominar Jesus como Filho de Deus, Marcos diz que Jesus veio para a humanidade toda, e não para um povo exclusivo, ao mesmo tempo em que desmascara a religião imperial que cultuava o imperador romano como o filho de Deus. Portanto, de modo simples, mas ao mesmo tempo profundo, com o seu escrito, Marcos enfrenta dois poderes fortes e organizados: o império romano e a religião oficial judaica.
Até aqui, refletimos apenas sobre o primeiro versículo, o qual funciona como título e introdução geral a todo o Evangelho segundo Marcos. Na continuidade, do segundo versículo em diante, o evangelista apresenta a figura de João, o Batista, e sua missão profética de precursor de Jesus. Para introduzir a missão de João, Marcos recorre à tradição profética: “Está escrito no livro do profeta Isaías: ‘Eis que envio o meu mensageiro à tua frente, para preparar o teu caminho. Esta é a voz daquele que grita no deserto: ‘preparai o caminho do Senhor, endireitai suas estradas!” (vv. 2-3). Aqui, embora mencione somente Isaías, a citação é, na verdade, uma junção de trechos de Isaías e Malaquias (Ml 3,1; Is 40,3). Como o livro de Isaías era mais utilizado nas liturgias, tanto no judaísmo quanto no cristianismo, muitas vezes atribuía-se a ele qualquer citação profética, como aqui. Com essa citação, o evangelista está afirmando que a missão de João continua e atualiza o profetismo bíblico tradicional, do qual Jesus é o seu verdadeiro cumprimento. A missão de João é clara: preparar o caminho do Senhor. Na linguagem bíblica, sobretudo nos profetas, a palavra caminho indica a dimensão ética da fé. Significa a proposta de vida que Deus oferece à humanidade, marcada pela justiça e o amor. Por isso, na sequência vem apresentado o convite à conversão.
Após a fundamentação bíblico-profética, o evangelista descreve a missão de João e os seus efeitos, dizendo que ele “apareceu no deserto, pregando um batismo de conversão para a remissão dos pecados” (v. 4). Mais do que uma indicação espacial, a palavra deserto possui um profundo significado teológico na Bíblia. Ora, o deserto (em grego: ἐρήμος – erémos) é o lugar clássico do encontro com Deus; representa uma etapa importante no processo de libertação, como aconteceu no primeiro êxodo. Ao longo da história, quando o povo demonstrava infidelidade, os profetas apresentavam a necessidade de retornar ao deserto para voltar a viver o ideal da aliança (Os 2,14; 9,10; 13,5; Am 2,10; 5,25). Assim, a presença de João no deserto é um convite para Israel romper com as estruturas vigentes de injustiça e opressão, e retornar às suas origens. O batismo de conversão serve como chamada de atenção: todos tem um certo grau de culpa na situação de degradação do povo; há culpas coletivas e pessoais. É necessário que cada um tome consciência de sua responsabilidade na construção de um mundo novo, através da conversão simbolizada pelo batismo.
A pregação de João, como proposta de libertação, atraía “toda a região da Judeia e todos os moradores de Jerusalém iam ao seu encontro” (v. 5a). Certamente, o evangelista exagera ao dizer que “todo mundo” ia ao encontro do Batista, mas faz parte de suas intenções teológicas. Com isso, ele está propondo que um novo êxodo estava para acontecer, iniciando com a pregação do Batista e se completando com a missão de Jesus. A antiga terra prometida, principalmente a cidade de Jerusalém, tinha se transformado em terra de escravidão. Dessa vez, não era um faraó o algoz, mas a própria casta sacerdotal do templo em conluio com o poder imperial romano. Foi dessa gente que controlava a vida do povo e explorava em nome de Deus que Jesus veio libertar, em primeiro lugar. A religião institucionalizada era sinal de exploração e abuso de poder. E, de todas as formas de exploração, a pior é aquela que usa o nome de Deus, ou seja, a exploração religiosa. Nessa passagem, especialmente, a tradução litúrgica não expressa o real significado do texto: ao invés de afirmar que “as pessoas iam da Judeia e de Jerusalém ao encontro de João”, a tradução correta seria “toda a região da Judeia e todos os moradores de Jerusalém, saíam ao encontro”. Ora, essa saída significa que há um novo êxodo em curso. As pessoas saíam de onde estavam sendo exploradas em busca da libertação, cujo processo é iniciado com a pregação de João e realizado plenamente por Jesus.
As pessoas que saíam das antigas estruturas de escravidão e injustiça, e “confessavam os seus pecados e João as batizava no rio Jordão” (v. 5b). A confissão aqui, não é um rito sacramental, mas um reconhecimento do pecado e arrependimento, conforme reza o salmista: “Confessei a ti o meu pecado, e minha iniquidade não te encobri; eu disse: ‘Vou ao Senhor, confessar a minha iniquidade!” (Sl 32,4); é a decisão de aceitar trilhar o caminho do Senhor, enquanto prática concreta de justiça e amor. Ser batizado no Jordão quer dizer atravessá-lo, passar por ele, como passou o povo do primeiro êxodo; de fato, a travessia do Jordão foi a última etapa da longa caminhada do povo de Deus antes de entrar na terra prometida, já sob a liderança de Josué, após a morte de Moisés (Js 1,2). Assim, a proposta de João é um convite a um novo êxodo, ou seja, uma nova libertação que se aproxima, e só pode participar quem faz a experiência do deserto e da travessia, ou seja, quem passa de uma mentalidade antiga para uma nova.
Além das anteriores citações de Isaías e Malaquias, a descrição que o evangelista faz de João também reforça suas credenciais de profeta: “João se vestia com uma pele de camelo e comia gafanhotos e mel do campo” (v. 7). De fato, A descrição do vestuário e da dieta de João revelam seu estilo de vida; é típico dos profetas (Zc 13,4; 2Rs 1,8). É mais uma prova de que o verdadeiro profeta é aquele que anuncia com palavras, ações e, principalmente, com o testemunho. O estilo de vida simples de João comprova esse testemunho e ainda serve de contraposição à vida opulenta da elite religiosa e política de Jerusalém. Essa descrição funciona como um apelo do evangelista para a comunidade cristã configurar-se como religião profética, combatendo as primeiras tendências de institucionalização do cristianismo.
Até aqui, a pregação de João, como convite à conversão, fora apenas mencionada, mas nenhuma palavra sua fora ainda citada. Eis, então, a sua pregação: “Depois de mim, virá alguém mais forte do que eu. Eu nem sou digno de me abaixar para desamarrar suas sandálias. Eu vos batizei com água, mas ele vos batizará com o Espírito Santo” (vv. 7-8). Certamente, muitas pessoas confundiam João com o messias, por isso, ele esclarece. Como verdadeiro profeta, sabe que seu papel na história da salvação é de instrumento de Deus, Aquele que é maior! A referência ao gesto de desamarrar as sandálias pode ter duas interpretações; no Evangelho de Marcos e nos demais Sinóticos, certamente, significa o reconhecimento da inferioridade de João em relação a Jesus. Desamarrar as sandálias fazia parte dos serviços cotidianos dos escravos em relação aos patrões. O evangelista apresenta esse reconhecimento como um gesto de humildade do Batista. A outra explicação, que vê nestas palavras uma referência à lei do levirato (Rt 3,5-11), aplica-se à passagem correspondente do Evangelho de João, o qual recorre à imagem do matrimônio para descrever a vida e a missão de Jesus.
João administrava apenas um rito: o batismo com água, o qual era somente um sinal do batismo por excelência: com o Espírito Santo. Esse batismo é definitivo, é o cumprimento de profecias e condição para o povo de Israel voltar à condição de povo de Deus (Ez 36,24-28) e, ao mesmo tempo, sinal da universalização da salvação: o Espírito Santo, como superação e substituição da Lei, dará condições, ao ser acolhido, para que todos os povos sejam contemplados com a libertação inaugurada por Jesus. Somos, então, neste segundo domingo do advento, convidados a rever nossa prática religiosa, e tomar uma decisão, fazendo um êxodo pessoal: abraçar a religião profética, abandonando todas as práticas das antigas estruturas, renovando a maneira de conceber a Deus e abrindo-se ao Espírito Santo, dom de Jesus, o batizador por excelência.
De maneira única no Novo Testamento, o Evangelho de Marcos começa com um título programático: “Início do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” (v. 1). A palavra evangelho (em grego: εὐαγγελίον – euanguélion) significa boa notícia, boa nova, notícia agradável. Essa era uma palavra mais utilizada no campo político do que no religioso. No império romano, usava-se a palavra “euanguélion” para anunciar os acontecimentos relativos à vida imperial, como o nascimento de um filho do imperador, as vitórias em uma guerra e a construção de grandes obras, como aquedutos e estradas. De modo subversivo, os primeiros cristãos passaram a empregá-la em referência a Jesus, tanto à sua vida, quanto à sua mensagem. A palavra só passou a ser utilizada como títulos dos livros sobre a Jesus na segunda metade do século segundo. Já no século dezenove, com o avanço da exegese, a palavra evangelho foi reconhecida também como um gênero literário particular, do qual fazem parte todos os relatos sobre a vida de Jesus.
Ao utilizar a palavra “euanguélion” para referir-se à vida e à missão de Jesus, Marcos se assume como um autor altamente revolucionário e subversivo, afirmando que boa notícia não é o que sai de Roma, através de decretos imperiais, mas o que saiu de Nazaré, na vida de um homem simples, corajoso e cheio de amor: Jesus. Ora, se Marcos se assume subversivo politicamente, aplicando a palavra “euanguélion” a Jesus, é nítida também a sua subversão religiosa, ao abrir a “história” de Jesus com a mesma palavra com a qual se abre o primeiro livro da Bíblia (Gn 1,1), para falar do início da criação: início ou princípio (em grego: Ἀρχὴ – arkê). Assim, o evangelista está afirmando que a vida e a história têm, em Jesus, um novo princípio, um novo fundamento, desafiando a religião oficial da época, até então, controladora do nome de Deus.
O homem do qual o evangelista irá falar ao longo da sua obra, Jesus, é o Cristo, ou seja, o messias e, ao mesmo tempo, Filho de Deus. Nestes dois títulos aplicados a Jesus – Cristo e Filho de Deus – está a síntese de toda obra de Marcos, e é assim que ele responde à pergunta “Quem é Jesus?”, objetivo do seu Evangelho. O termo Cristo (em grego: Χριστὸς – Cristós) significa messias ou ungido; aquele que, sendo ungido, está habilitado para cumprir uma missão; aplicando-o a Jesus, um judeu, o evangelista está afirmando que o tão esperado messias libertador de Israel chegou, mas não como tinha ensinado a religião, ou seja, ele não veio como rei, guerreiro e vencedor, mas simples e pobre. Ao afirmar que Jesus é também Filho de Deus, Marcos desafia, ao mesmo tempo, tanto o império quanto a religião da época. Ora, o judaísmo esperava um messias filho de Davi, o qual viria para proteger e libertar somente o povo de Israel; ao denominar Jesus como Filho de Deus, Marcos diz que Jesus veio para a humanidade toda, e não para um povo exclusivo, ao mesmo tempo em que desmascara a religião imperial que cultuava o imperador romano como o filho de Deus. Portanto, de modo simples, mas ao mesmo tempo profundo, com o seu escrito, Marcos enfrenta dois poderes fortes e organizados: o império romano e a religião oficial judaica.
Até aqui, refletimos apenas sobre o primeiro versículo, o qual funciona como título e introdução geral a todo o Evangelho segundo Marcos. Na continuidade, do segundo versículo em diante, o evangelista apresenta a figura de João, o Batista, e sua missão profética de precursor de Jesus. Para introduzir a missão de João, Marcos recorre à tradição profética: “Está escrito no livro do profeta Isaías: ‘Eis que envio o meu mensageiro à tua frente, para preparar o teu caminho. Esta é a voz daquele que grita no deserto: ‘preparai o caminho do Senhor, endireitai suas estradas!” (vv. 2-3). Aqui, embora mencione somente Isaías, a citação é, na verdade, uma junção de trechos de Isaías e Malaquias (Ml 3,1; Is 40,3). Como o livro de Isaías era mais utilizado nas liturgias, tanto no judaísmo quanto no cristianismo, muitas vezes atribuía-se a ele qualquer citação profética, como aqui. Com essa citação, o evangelista está afirmando que a missão de João continua e atualiza o profetismo bíblico tradicional, do qual Jesus é o seu verdadeiro cumprimento. A missão de João é clara: preparar o caminho do Senhor. Na linguagem bíblica, sobretudo nos profetas, a palavra caminho indica a dimensão ética da fé. Significa a proposta de vida que Deus oferece à humanidade, marcada pela justiça e o amor. Por isso, na sequência vem apresentado o convite à conversão.
Após a fundamentação bíblico-profética, o evangelista descreve a missão de João e os seus efeitos, dizendo que ele “apareceu no deserto, pregando um batismo de conversão para a remissão dos pecados” (v. 4). Mais do que uma indicação espacial, a palavra deserto possui um profundo significado teológico na Bíblia. Ora, o deserto (em grego: ἐρήμος – erémos) é o lugar clássico do encontro com Deus; representa uma etapa importante no processo de libertação, como aconteceu no primeiro êxodo. Ao longo da história, quando o povo demonstrava infidelidade, os profetas apresentavam a necessidade de retornar ao deserto para voltar a viver o ideal da aliança (Os 2,14; 9,10; 13,5; Am 2,10; 5,25). Assim, a presença de João no deserto é um convite para Israel romper com as estruturas vigentes de injustiça e opressão, e retornar às suas origens. O batismo de conversão serve como chamada de atenção: todos tem um certo grau de culpa na situação de degradação do povo; há culpas coletivas e pessoais. É necessário que cada um tome consciência de sua responsabilidade na construção de um mundo novo, através da conversão simbolizada pelo batismo.
A pregação de João, como proposta de libertação, atraía “toda a região da Judeia e todos os moradores de Jerusalém iam ao seu encontro” (v. 5a). Certamente, o evangelista exagera ao dizer que “todo mundo” ia ao encontro do Batista, mas faz parte de suas intenções teológicas. Com isso, ele está propondo que um novo êxodo estava para acontecer, iniciando com a pregação do Batista e se completando com a missão de Jesus. A antiga terra prometida, principalmente a cidade de Jerusalém, tinha se transformado em terra de escravidão. Dessa vez, não era um faraó o algoz, mas a própria casta sacerdotal do templo em conluio com o poder imperial romano. Foi dessa gente que controlava a vida do povo e explorava em nome de Deus que Jesus veio libertar, em primeiro lugar. A religião institucionalizada era sinal de exploração e abuso de poder. E, de todas as formas de exploração, a pior é aquela que usa o nome de Deus, ou seja, a exploração religiosa. Nessa passagem, especialmente, a tradução litúrgica não expressa o real significado do texto: ao invés de afirmar que “as pessoas iam da Judeia e de Jerusalém ao encontro de João”, a tradução correta seria “toda a região da Judeia e todos os moradores de Jerusalém, saíam ao encontro”. Ora, essa saída significa que há um novo êxodo em curso. As pessoas saíam de onde estavam sendo exploradas em busca da libertação, cujo processo é iniciado com a pregação de João e realizado plenamente por Jesus.
As pessoas que saíam das antigas estruturas de escravidão e injustiça, e “confessavam os seus pecados e João as batizava no rio Jordão” (v. 5b). A confissão aqui, não é um rito sacramental, mas um reconhecimento do pecado e arrependimento, conforme reza o salmista: “Confessei a ti o meu pecado, e minha iniquidade não te encobri; eu disse: ‘Vou ao Senhor, confessar a minha iniquidade!” (Sl 32,4); é a decisão de aceitar trilhar o caminho do Senhor, enquanto prática concreta de justiça e amor. Ser batizado no Jordão quer dizer atravessá-lo, passar por ele, como passou o povo do primeiro êxodo; de fato, a travessia do Jordão foi a última etapa da longa caminhada do povo de Deus antes de entrar na terra prometida, já sob a liderança de Josué, após a morte de Moisés (Js 1,2). Assim, a proposta de João é um convite a um novo êxodo, ou seja, uma nova libertação que se aproxima, e só pode participar quem faz a experiência do deserto e da travessia, ou seja, quem passa de uma mentalidade antiga para uma nova.
Além das anteriores citações de Isaías e Malaquias, a descrição que o evangelista faz de João também reforça suas credenciais de profeta: “João se vestia com uma pele de camelo e comia gafanhotos e mel do campo” (v. 7). De fato, A descrição do vestuário e da dieta de João revelam seu estilo de vida; é típico dos profetas (Zc 13,4; 2Rs 1,8). É mais uma prova de que o verdadeiro profeta é aquele que anuncia com palavras, ações e, principalmente, com o testemunho. O estilo de vida simples de João comprova esse testemunho e ainda serve de contraposição à vida opulenta da elite religiosa e política de Jerusalém. Essa descrição funciona como um apelo do evangelista para a comunidade cristã configurar-se como religião profética, combatendo as primeiras tendências de institucionalização do cristianismo.
Até aqui, a pregação de João, como convite à conversão, fora apenas mencionada, mas nenhuma palavra sua fora ainda citada. Eis, então, a sua pregação: “Depois de mim, virá alguém mais forte do que eu. Eu nem sou digno de me abaixar para desamarrar suas sandálias. Eu vos batizei com água, mas ele vos batizará com o Espírito Santo” (vv. 7-8). Certamente, muitas pessoas confundiam João com o messias, por isso, ele esclarece. Como verdadeiro profeta, sabe que seu papel na história da salvação é de instrumento de Deus, Aquele que é maior! A referência ao gesto de desamarrar as sandálias pode ter duas interpretações; no Evangelho de Marcos e nos demais Sinóticos, certamente, significa o reconhecimento da inferioridade de João em relação a Jesus. Desamarrar as sandálias fazia parte dos serviços cotidianos dos escravos em relação aos patrões. O evangelista apresenta esse reconhecimento como um gesto de humildade do Batista. A outra explicação, que vê nestas palavras uma referência à lei do levirato (Rt 3,5-11), aplica-se à passagem correspondente do Evangelho de João, o qual recorre à imagem do matrimônio para descrever a vida e a missão de Jesus.
João administrava apenas um rito: o batismo com água, o qual era somente um sinal do batismo por excelência: com o Espírito Santo. Esse batismo é definitivo, é o cumprimento de profecias e condição para o povo de Israel voltar à condição de povo de Deus (Ez 36,24-28) e, ao mesmo tempo, sinal da universalização da salvação: o Espírito Santo, como superação e substituição da Lei, dará condições, ao ser acolhido, para que todos os povos sejam contemplados com a libertação inaugurada por Jesus. Somos, então, neste segundo domingo do advento, convidados a rever nossa prática religiosa, e tomar uma decisão, fazendo um êxodo pessoal: abraçar a religião profética, abandonando todas as práticas das antigas estruturas, renovando a maneira de conceber a Deus e abrindo-se ao Espírito Santo, dom de Jesus, o batizador por excelência.
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