281. REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DA ASCENSÃO DO SENHOR – Lc 24,46-53 – Ano C
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28.05.2022 | 1 minutos de leitura

Evangelho Dominical

O evangelho da solenidade da ascensão do Senhor, no ano litúrgico C, é Lc 24,46-53. Esse texto corresponde aos últimos versículos do Evangelho de Lucas. Por isso, contém as últimas palavras dirigidas por Jesus aos seus discípulos, conforme a dinâmica narrativa do Terceiro Evangelho, funcionando como uma espécie de testamento. Dos pontos de vista litúrgico e teológico, pode-se dizer que a ascensão é a consumação da ressurreição, a plenitude da Páscoa: o Ressuscitado penetra no mundo do Pai e confere à sua comunidade de seguidores e seguidoras a missão de continuar a sua presença no mundo, com a assistência do Espírito Santo. Embora se trate de uma despedida, a cena descrita por Lucas é marcada pela alegria, pois aquele que parte, o Ressuscitado, não se ausenta dos seus; a sua partida é a garantia de uma presença ainda mais efetiva, não mais condicionada às circunstâncias de tempo e espaço, como foi o seu curto ministério de aproximadamente três anos, apenas.
Neste ano temos a oportunidade de ler dois relatos da ascensão: na primeira leitura (At 1,1-11), como em todos os anos, e no evangelho, por estarmos vivenciando o “ano C” da liturgia. E os dois relatos lidos na liturgia deste domingo foram construídos pelo mesmo autor. Por sinal, Lucas é o único evangelista que narra a ascensão; Marcos faz apenas um pequeno aceno (cf. Mc 16,19), enquanto Mateus e João não fazem nenhuma referência. Contudo, mesmo se tratando do mesmo acontecimento, Lucas não conta as duas vezes do mesmo jeito. Há detalhes que diferenciam os dois relatos, pois cada livro tem uma finalidade específica. No Evangelho, a ascensão tem a função de marcar a conclusão da missão de Jesus entre os discípulos; já em Atos, a função do relato da ascensão é preparar a missão da Igreja e mostrar a continuidade entre essa e Jesus.
Ainda a nível de contexto, é importante recordar que, de acordo com o Evangelho de Lucas, a ascensão acontece no mesmo dia da ressurreição, e não após um período de quarenta dias como em Atos (cf. At 1,3). De fato, o evento narrado no evangelho de hoje é a sequência do episódio dos discípulos de Emaús: após se manifestar aos dois que retornavam desiludidos de Jerusalém (cf. Lc 24,13-35) e a Simão (cf. Lc 24,34), o Senhor se manifestou também aos demais discípulos que estavam reunidos em Jerusalém, no cenáculo (cf. Lc 24,36), naquele mesmo dia, o primeiro da semana (cf. Lc 24,13). Os estudiosos procuraram explicar essa diferença. Uma das explicações é que quando o Evangelho já estava pronto, Lucas recebeu novas informações sobre esse acontecimento e, por isso, acrescentou alguns detalhes em Atos dos Apóstolos. O mais provável, no entanto, é que essa diferença seja intencional e teológica. Nenhum dos relatos pretende ser uma crônica exata dos fatos. A intenção do evangelista é mostrar que Jesus consumou a sua obra, retornou para a glória do Pai e habilitou os seus discípulos a manterem viva a sua presença no mundo, por meio do testemunho e animados pela força do alto, o Espírito Santo.
O texto de hoje começa com a continuidade das palavras de Jesus aos discípulos reunidos em Jerusalém. Tendo se manifestado entre eles, Jesus lhes transmitiu a paz (cf. Lc 24,36), pois os discípulos estavam assustados (cf. 24,37), mostrou os sinais de crucificado (cf. 24,39-40), pediu algo para comer (cf. 24,42), deram-lhe um pedaço de peixe (24,42), ele o comeu (cf. 24,43) e começou a falar, explicando o cumprimento das Escrituras em sua vida (24,44). Hoje, lemos a continuidade e conclusão dessa explicação: “Assim está escrito: O Cristo sofrerá e ressuscitará dos mortos ao terceiro dia” (v. 46). Era importante que os discípulos, que ainda estavam apreensivos e decepcionados com os últimos acontecimentos, acolhessem o desfecho final da vida de Jesus como cumprimento das Escrituras. Só assim, poderiam aceitá-lo como o Cristo e, consequentemente, testemunhá-lo e proclamá-lo, como de fato fizeram, o que Lucas mostra tão bem no segundo volume de sua obra, o livro de Atos dos Apóstolos.
De acordo com o evangelista, Jesus explica as Escrituras a partir de uma interpretação global, sem prender-se a citações específicas. De fato, não há uma passagem precisa afirmando que o messias sofreria e ressuscitaria. O importante, para o evangelista, é mostrar que a vida e obra de Jesus têm respaldo nas Escrituras. Por Escrituras, na linguagem do Novo Testamento, compreende-se o que chamamos hoje de Antigo Testamento. E a totalidade das Escrituras aponta para o Cristo. À medida em que respalda a missão de Jesus, da recordação das Escrituras também emerge a missão da comunidade, que consiste no anúncio e no testemunho: “e no seu nome serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. Vós sereis testemunhas de tudo isso” (v. 47-48). Aqui Jesus resume a sua missão e antecipa a da comunidade cristã. O elemento primordial da missão é oferecer a reconciliação a todos os povos, sem distinção. Nada de proselitismos e nem doutrinação. A primeira tarefa da comunidade cristã é oferecer ao mundo o amor misericordioso de Deus, que é fonte de conversão e perdão, como Jesus fez em seu curto ministério, e Lucas fez disso o tema central de seu Evangelho. E a missão da comunidade cristã consiste em continuar na história a missão de Jesus.
Jesus quer que todos os povos recebam os benefícios da sua ressurreição. Nenhum povo e nenhuma cultura pode ficar excluído desse direito. O começo por Jerusalém é muito significativo; não se trata de um privilégio, mas de uma necessidade. Essa cidade era símbolo do poder, sobretudo o religioso. Era lá onde o poder matava em nome de Deus, e o próprio Jesus tinha sido vítima dessa prática. Nesta cidade, praticava-se um culto estéril e mercantilista, caracterizado pelo mero ritualismo e o sacrifício de animais, acompanhado de corrupção e exploração. O sangue daqueles sacrifícios não geravam comunhão com Deus, pois o único sangue com força de salvação fora derramado por Jesus. Por isso, como o amor misericordioso de Deus não faz distinção de pessoas, Jesus habilita seus discípulos a começarem o anúncio-testemunho onde as pessoas estavam mais longe de Deus e, paradoxalmente, era na cidade santa onde as pessoas mais estavam distantes de Deus, onde mais havia necessidade de uma “mudança de mentalidade”, como significa propriamente o termo conversão.
Como responsáveis pelo prolongamento da missão de Jesus, os discípulos não poderiam levá-la a cumprimento sozinhos. Por isso, Jesus promete enviar-lhes o que o próprio Pai prometeu: “eu enviarei sobre vós aquele que meu Pai prometeu. Por isso, permanecei na cidade, até que sejais revestidos da força do alto” (v. 49). Esse versículo contém as últimas palavras de Jesus no Evangelho, e essas são carregadas de esperança e significado. Ora, o próprio Jesus só iniciou a sua vida pública após o batismo, momento em que desceu sobre ele o Espírito Santo (cf. Lc 3,22); ao pregar pela primeira vez na sinagoga de Nazaré, ele declarou estar revestido do Espírito Santo e, por isso, autorizado para anunciar a libertação dos pobres (cf. Lc 4,18). Sem o Espírito Santo, portanto, não haveria missão alguma. Por isso, os discípulos devem esperar esse momento, o que Lucas ilustrará tão bem com a narrativa de Pentecostes (cf. At 2,1-13). O Espírito Santo aqui é referido como “força do alto”, uma expressão que atendia melhor às necessidades dos discípulos naquele momento em que estavam com medo; por isso, necessitavam de uma “força” (em grego: δύναμις – dýnamis) que os movesse, que lhes desse coragem. Do termo grego empregado pelo autor derivam palavras que expressam bem a natureza missionária da Igreja, como “dinamismo” e “dinâmica”, o que se opõe a uma instituição estática e parada no tempo. E o livro todo dos Atos dos Apóstolos mostra que os discípulos compreenderam bem essa dimensão, e cabe aos discípulos/as de todos os tempos atualizarem sempre.
Concluída a última fala de Jesus no seu Evangelho, Lucas introduz a cena da ascensão propriamente dita. E faz isso mostrando Jesus que põe os discípulos em movimento, tirando-os do cenáculo e da cidade de Jerusalém: “então Jesus levou-os para fora, até perto de Betânia. Ali ergueu as mãos e abençoou-os” (v. 50). Ir para “Perto de Betânia” significa refazer o caminho da entrada triunfante em Jerusalém, porém em sentido oposto (cf. Lc 19,29). Quando caminhava da Galileia a Jerusalém, ele parou entre o monte das Oliveiras e Betânia para solicitar o jumentinho e entrar na cidade (cf. Lc 19,29-30). Se de “perto de Betânia” ele marchou para a cruz, da mesma localidade ele marcha definitivamente para a glória do Pai. Com isso, o evangelista enfatiza a inseparabilidade entre a cruz e a glória. Além deste significado, a iniciativa de Jesus levando os discípulos para perto de Betânia faz recordar mais um aspecto que, certamente, não passou despercebido pelo evangelista: o nome Betânia significa “casa dos pobres”. Então, sabendo que, paralelo ao retorno de Jesus ao Pai, a ascensão marca o início da missão dos seus discípulos, é bastante significativo e comprometedor que esta missão comece perto da casa dos pobres, os destinatários preferenciais do agir libertador de Jesus ao longo de todo o seu ministério.
O último gesto de Jesus entre os discípulos foi dar-lhes a bênção: “Enquanto os abençoava, afastou-se deles e foi levado para o céu” (v. 51). Essa é a única vez que Lucas atribui a Jesus a função de abençoar, e essa coincide com a subida ao céu. Na linguagem Bíblica, a bênção é um elemento performativo, transmite uma força eficaz e irrevogável; comunica a essência daquele que abençoa nos que são abençoados. Os discípulos, abençoados, irão difundir essa bênção e, através dela, farão novos discípulos. Com a bênção de Jesus aqui na conclusão o evangelista recorda o início do seu Evangelho, quando o povo estava privado de bênção, devido à incredulidade e ineficiência do antigo sacerdócio do templo, personificado na figura de Zacarias: “o povo que estava à espera de Zacarias, admirava-se com a sua demora no santuário; tendo saído dali, não podia falar” (Lc 1,21-22). A bênção de Deus que fora bloqueada pelo sacerdócio do templo, agora é desbloqueada por Jesus; antes, era restrita apenas aos judeus homens, os únicos que podiam entrar no átrio onde os sacerdotes pronunciavam a bênção. Com Jesus, a bênção de Deus deixa de ser propriedade de uma casta, e é destinada a todo o mundo.
Convictos da novidade, eis a reação dos discípulos: “Eles o adoraram. Em seguida voltaram para Jerusalém, com grande alegria. E estavam sempre no Templo, bendizendo a Deus” (vv. 52-53). Essa é também a primeira vez que os discípulos “adoram” a Jesus, de acordo com Lucas. O fazem porque têm certeza da consumação da sua obra, com a confirmação da sua introdução definitiva no mundo do Pai. Sabem que Jesus é realmente o salvador, por isso expressam uma “grande alegria”, sentimento semelhante ao dos pastores com o anúncio do nascimento (cf. Lc 2,10). Essa “grande alegria” é uma característica essencial do discipulado, na perspectiva de Lucas; fora antecipada no início do livro por Maria (cf. 1,47), pelos pastores e pelos anjos (cf. 2,8-20), e agora toma conta dos discípulos e, através deles, se estenderá por todo o mundo.
Os discípulos já não sentem medo. Estão dispostos a assumir os desafios e as consequências da missão, e serão habilitados para isso pelo Espírito Santo. Essa alegria brota da fé e da certeza de que, de agora em diante, a presença do Ressuscitado será ainda mais eficaz. Continuam frequentando o templo, mas com uma nova finalidade: vão lá para “bendizer” a Deus; esse verbo (em grego: ευλογέω – euloguéo) significa também louvar e dar graças. Fazer isso no templo é uma novidade, pois a função primordial do templo era o oferecimento de sacrifícios, o que os discípulos já não fazem, pois têm consciência de que o único sacrifício eficaz foi o de Cristo. Louvam a Deus pelas maravilhas feitas entre eles, assim como Maria, no início do Evangelho (cf. 1,46-56), e pelas que ainda serão feitas em todo o mundo. Louvam a Deus porque percebem a construção de um mundo novo, cujos agentes são as pessoas mais humildes, e a prova incontestável disso é a glorificação de um crucificado.
Na festa da ascensão, portanto celebramos a presença constante do Ressuscitado na comunidade e na missão perene da Igreja, da qual não se espera outra coisa senão o testemunho, o que consiste em espalhar o amor misericordioso de Deus no mundo com grande alegria. E um dos critérios de fidelidade a esta missão é estar perto dos pobres.
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