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249. REFLEXÃO PARA A FESTA DO BATISMO DO SENHOR – Lc 3,15-16.21-22 – Ano C

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08.01.2022 | 1 minutos de leitura
Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues
Evangelho Dominical
249. REFLEXÃO PARA A FESTA DO BATISMO DO SENHOR – Lc 3,15-16.21-22 – Ano C

Concluindo o tempo do Natal, celebra-se neste domingo a Festa do Batismo do Senhor. Neste ano, o evangelho proposto é Lc 3,15-16.21-22.  O batismo, conforme relatam os evangelhos, é um dos episódios da vida de Jesus que os estudiosos mais consideram como um fato histórico, um evento real. Contribui para isso o fato de ser um dos poucos acontecimentos presentes nos quatro evangelhos (explicitamente em Mateus: 3,13-17, Marcos: 1,9-11, e Lucas: 3,21-22; e implicitamente em João: 1,19-34). Além da pluralidade literária, o que mais se tem levado em conta ao aceitar o batismo de Jesus como um fato histórico são os problemas de interpretação desse evento tem gerado desde a Igreja primitiva. Caso não se tratasse de um evento concreto e importante da vida de Jesus, certamente os evangelistas teriam evitado tratá-lo em seus respectivos escritos. Quais são esses problemas? Ora, o batismo poderia levar as pessoas, inclusive muitos teólogos, a imaginar que Jesus fosse também necessitado de conversão, como os pecadores, e um homem inferior a João; essas interpretações aconteceram, de fato, desde os primórdios, inclusive na comunidade do evangelista Lucas, a primeira destinatária do evangelho de hoje.


O fato de estar presente nos quatro evangelhos – de modo explícito nos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) e implícito em João – não significa que os evangelistas narraram o batismo do mesmo jeito. Cada um narrou à sua maneira, conforme as informações recebidas de suas fontes e as necessidades de suas respectivas comunidades. É certo que a pregação de João estava gozando de um grande êxito (Lc 3,1-14); ele pregava um batismo de conversão (Lc 3,3) e proponha um jeito novo de viver, incentivando o povo a produzir frutos (Lc 3,8), já que a religião judaica se encontrava em plena esterilidade, com a decadência ética, moral e espiritual dos dirigentes do templo de Jerusalém. A mensagem de João foi além do esperado: até mesmo cobradores de impostos e soldados, pessoas abomináveis para a religião judaica da época, se interessaram pela sua mensagem (Lc 3,12-14). A pregação de João, portanto, sinalizava que um novo tempo estava surgindo.


O povo vivia sufocado pela dupla exploração: do império romano e do templo de Jerusalém; Roma cobrava impostos em excesso e o templo exigia ofertas e dízimos também em excesso, em nome de Deus. Por isso, a expectativa pela chegada do Messias libertador era muito grande, inclusive muitos pregadores, vez por outra, se apresentavam como tal; daí que muitos perguntavam se João não seria o próprio messias, como mostra o primeiro versículo do texto: “O povo estava na expectativa e todos se perguntavam no seu íntimo se João não seria o Messias” (v. 15). À expectativa do povo somava-se a novidade da pregação de João, sobretudo sua coragem de denunciar os desmandos dos poderosos e a hipocrisia da sociedade em geral. Sua atuação profética, portanto, levava o povo a associá-lo ao Messias esperado. E, de acordo com o evangelista, foi João mesmo quem tratou de esclarecer que não era ele o Messias: “Eu vos batizo com água, mas virá aquele que é mais forte do que eu. Eu não sou digno de desamarrar a correia de suas sandálias. Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo.” (v. 16). Esse esclarecimento era muito necessário, tanto para os ouvintes diretos da pregação de João, quanto para a comunidade do evangelista e os futuros leitores de sua obra, como nós.


O próprio Lucas registra, no segundo volume de sua obra – Atos dos Apóstolos –, que o batismo de João continuava sendo realizado como se fosse o batismo cristão, pois as pessoas não compreendiam a diferença, e isso gerava confusão em algumas comunidades, como em Éfeso, por exemplo (At 19,1-7). Por isso, a necessidade de fazer a distinção com o uso de imagens tão fortes. Ora, o movimento de João não desapareceu automaticamente após a sua morte; tudo indica que continuou e cresceu, chegando até a rivalizar com o movimento de Jesus. Após a morte de cada um, houve momentos de tensão em que os respectivos seguidores disputavam sobre qual era o maior dos dois mestres. Isso justifica a insistência dos evangelistas, sobretudo de Lucas, em mostrar o próprio João reconhecendo a superioridade de Jesus.


Na distinção entre o seu batismo e o que Jesus iria inaugurar depois, João esclarece a natureza do seu: ele batizava com água, como um sinal externo de purificação e penitência. A água não penetra no íntimo da pessoa; embora seja um sinal importante, permanece na exterioridade. Por isso, é necessário que venha “aquele que é mais forte” para batizar “no Espírito Santo e no fogo”; assim, o batismo de Jesus, praticado pelas comunidades cristãs, inclusive na do evangelista, terá uma outra dimensão. Na verdade, o fato de ser o batismo inaugurado por aquele que é “mais forte” já deixa clara a superioridade. O principal elemento distintivo, no entanto, é o fato de ser um batismo “No Espírito Santo”; isso significa que esse batismo penetra no íntimo da pessoa e realmente transforma, como o efeito do fogo. Embora o fogo seja também um elemento externo, usado nos ritos cristãos posteriores (junto com a água), possui uma força transformadora mais forte do que a água. Se ambos os batismos permanecessem no plano simbólico, o de Jesus ainda seria superior, considerando que o efeito visível do fogo é mais forte do que o da água.


A verdadeira distinção entre os dois batismos, no entanto, está no conferimento do Espírito Santo, e esse só pode ser conferido por Aquele sobre o qual o Espírito Santo realmente desceu, como mostra a sequência do texto de hoje. Além de reconhecer a superioridade do batismo de Jesus, João faz outra distinção, ainda mais importante: a superioridade de Jesus em relação a ele. Isso se evidencia pela afirmação “Eu não sou digno de desamarrar a correia de suas sandálias”. Essa declaração reforça quem é o “mais forte” entre os dois. Infelizmente, a liturgia de hoje salta alguns versículos (vv. 17-20), privando-nos de uma informação importante para compreender o batismo de Jesus no contexto da catequese de Lucas: a prisão de João Batista (vv. 19-20). Para combater equívocos e confusões a respeito dos papéis de João e de Jesus, e os efeitos de seus respectivos batismos, Lucas faz questão de tirar João de cena para poder colocar Jesus em evidência; por isso, antes de apresentar Jesus indo ao batismo, ele diz que João foi preso; os discípulos de João continuaram batizando, mesmo após a sua prisão.


A obra toda de Lucas (Evangelho e Atos dos Apóstolos) tem as características de uma peça de teatro com as cenas e os personagens bem distribuídos, com bastante clareza de seus papéis. Nessa engrenagem, ele nunca coloca Jesus e João na mesma cena, exceto na visitação, quando cada um ainda estavam no ventre de suas mães, Maria e Isabel, respectivamente (Lc 1,39-56). O evangelista faz isso tudo isso para deixar claro para a sua comunidade que, embora contemporâneos, eles fazem parte de tempos diferentes no conjunto da história da salvação, como afirmará Jesus mais na frente: “A lei e os profetas até João! Daí em diante, é anunciada a Boa Nova do Reino de Deus.” (Lc 16,16). Tudo isso reflete o cuidado do evangelista com a catequese da sua comunidade, para não confundir João com Jesus. João é um personagem da antiga aliança, embora faça parte do processo de transição para a nova aliança. Em outras palavras, para Lucas, ele ainda faz parte do Antigo Testamento, como o último representante da lei e dos profetas.


Na continuação do texto temos a confirmação do batismo de Jesus: “Quando todo o povo estava sendo batizado, Jesus também recebeu o batismo. E, enquanto rezava, o céu se abriu” (v. 21). É importante a forma como Lucas passa essa informação: Jesus está junto com o povo, não se separa. O povo estava lá por necessidade de conversão e de sentido para a vida; Jesus não tinha necessidade disso. No entanto, por solidariedade, ele se junta a esse povo; com isso, o evangelista antecipa a dinâmica da atuação de Jesus: ele não pregará de púlpitos ou tronos, mas no meio do povo, olhando no rosto das pessoas, tocando nas suas chagas, abraçando, dando a mão aos necessitados; isso indica que seu ministério que está sendo inaugurado será acessível a todos e todas. O meio do povo é o campo de atuação de Jesus e, consequentemente, o lugar do encontro com ele e com o Deus que ele revela. Portanto, quem deseja encontrar-se verdadeiramente com Jesus e seu Deus deve ir ao meio do povo, pois é lá onde ele se encontra. E esse povo no meio do qual Jesus estava era o povo sofrido e explorado pelo poder político e religioso, como continua sendo até hoje.


Um outro traço característico de Jesus apresentado por Lucas ao longo de todo o seu Evangelho, e antecipado no trecho lido hoje é a sua assiduidade na oração. Desde o batismo até à cruz, Jesus é pintado por Lucas como o homem da oração, por isso é tão íntimo do Pai (Lc 22,46). Nesse intervalo, entre o batismo e a cruz, são frequentes e significativos os momentos orantes de Jesus no Terceiro Evangelho: ele ora enquanto cura (Lc 5,16), antes de escolher os doze apóstolos (Lc 6,12), antes de fazer o primeiro anúncio da paixão aos discípulos (Lc 9,18), antes e durante a transfiguração (Lc 9,28-29), ensina seus discípulos a orar como ele (Lc 11,1-2). Na paixão, a oração será ainda mais intensa (Lc 22,32; 22,39-46; 23,34.46). Com isso, Lucas revela a intimidade de Jesus com o Pai e apresenta um modelo para a sua comunidade ser assídua na oração, como é demonstrado em diversas passagens do livro dos Atos dos Apóstolos (At 1,14; 1,24; 2,1.41; 6,6; etc). E o resultado da oração é a abertura do céu, como mostra o versículo seguinte: a voz que vem do céu é a resposta do Pai à oração de Jesus.


Por meio da oração se cria intimidade com o Pai e se abre caminho para o Espírito Santo se manifestar: “E o Espírito Santo desceu sobre Jesus em forma visível, como pomba. E do céu veio uma voz: Tu és o meu Filho amado, em ti ponho o meu bem-querer.” (v. 22). A imagem do Espírito Santo assumindo a “forma corpórea” é uma novidade na linguagem bíblica; embora a tradução litúrgica traduza por “visível”, o mais correto é “forma corpórea”, de acordo com o termo grego usado pelo evangelista (σωματικω = somatikô). De fato, com esse termo o evangelista enfatiza mais a concretude do Espírito Santo na vida da Igreja, de cada discípulo e na história, de um modo geral. Quer dizer que se trata de uma realidade concreta. Embora alguns estudiosos tenham tentado conciliar essa imagem da pomba com o “pairar” do Espírito de Deus sobre as águas no princípio da criação (Gn 1,2), ou com a pomba que Noé soltou da arca durante o dilúvio (Gn 8,8), essas interpretações já não são mais convincentes.


O acontecimento é inovador em tudo, até mesmo na simbologia. Ora, as imagens mais usadas para o Espírito de Deus na Bíblia são o fogo e o vento, inclusive, o próprio Lucas as aplica no episódio de Pentecostes (At 2,1-13). Porém, tanto o fogo quanto o vento, simbolizam o Espírito Santo pela força, pela capacidade de criação e transformação; em Jesus essas imagens não teriam sentido, pois o Espírito não desceu sobre ele para transformá-lo, mas apenas para confirmá-lo como o Filho amado do Pai, e para tornar pública essa confirmação. O Espírito preenche e transforma quem é carente dele; em quem já o possui em plenitude, como Jesus, apenas confirma. Desde a sua geração na eternidade e encarnação no ventre de Maria, Jesus já possuía o Espírito Santo em plenitude. Além de mostrar que em Jesus o Espírito Santo habita permanentemente, como uma pomba no ninho, trata-se de uma imagem que evoca serenidade, tranquilidade, paz e consolo; não causa assombro algum. É esse o sentido da manifestação do Espírito com essa forma no batismo de Jesus: ele não foi transformado pelo Espírito naquele momento, porque já era fruto desse mesmo Espírito.


Mais importante do que a forma corpórea da pomba, assumida pelo Espírito, é a comunicação restabelecida entre a humanidade e Deus, não passando mais pela mediação das lideranças religiosas de Jerusalém, mas somente pela pessoa de Jesus. O céu se abre, Deus fala e afirma que o “seu bem-querer”, ou seja, a sua satisfação, não está nos inúmeros sacrifícios oferecidos no templo de Jerusalém, mas no seu Filho Amado. Mesmo com ecos antico-testamentários (Is 42,1; Sl 2,7), a afirmação de Deus aqui é completamente nova de significado, superando todas as expectativas e promessas: “Tu és o meu Filho amado, em ti ponho o meu bem-querer”. O Messias que povo esperava era apenas um servo de Deus e filho de Davi, o que seria um mediador a mais. Deus envia o seu próprio Filho como único mediador. A voz que sai do céu significa Deus falando diretamente com a humanidade. Isso é realmente a inauguração de um novo tempo.


Para concluir, é importante recordar que a leitura do evangelho de hoje deve ser associada a outro texto de Lucas, que também marca o início de ministério: o episódio da sinagoga de Nazaré (Lc 4,14,-21). No batismo, Lucas diz que o Espírito Santo desceu sobre Jesus, fez nele o seu ninho, ou seja, a sua morada. Na sinagoga de Nazaré o evangelista diz qual o papel do Espírito Santo: promover a libertação dos oprimidos, gerar vida, recuperar o que estava perdido… enfim, é preciso reconhecer que o Espírito Santo é doado para animar a missão da Igreja em favor da promoção da justiça e da libertação.


Que a recordação do batismo de Jesus reforce em nós a necessidade de estarmos em sintonia com o Pai, ouvindo a sua voz com sensibilidade aos impulsos do Espírito Santo que se manifesta nas diversas situações cotidianas. Que nos sentindo “ninhos” do Espírito Santo, façamos o que Jesus fez: ser promotores de justiça e libertação.

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