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238. Reflexão para o 31° Domingo do Tempo Comum – Mc 12,28-34 (Ano B)

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30.10.2021 | 1 minutos de leitura
Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues
Evangelho Dominical
238. Reflexão para o  31° Domingo do Tempo Comum – Mc 12,28-34 (Ano B)
O evangelho deste trigésimo primeiro domingo do tempo comum – Mc 12,28-34 – apresenta Jesus já na cidade de Jerusalém, vivendo a última fase do seu ministério. Isso significa que a seção do caminho, da qual foram tirados os textos dos últimos domingos, foi concluída. Em Jerusalém Jesus viveu a etapa mais curta do seu ministério, com duração de cerca de uma semana, e ao mesmo tempo a mais polêmica e conflituosa, cujo desfecho foi a morte na cruz. Os conflitos começaram logo no início: sua primeira atitude foi denunciar o templo como casa de comércio e covil de ladrões, expulsando de lá os vendedores (Mc 11,15-19). Diante disso, os sacerdotes e mestres da lei passaram logo a planejar sua morte (Mc 11,18). Para isso, começaram a armar-lhe ciladas, contestando sua autoridade (Mc 11,27-33) e fazendo perguntas embaraçosas de caráter político e doutrinal (Mc 12,13-17.18-27), esperando que ele caísse em contradição, dando assim, motivos para acusá-lo e entregá-lo aos romanos para ser executado. Se durante o caminho Jesus teve os próprios discípulos como principais opositores, que relutavam em aceitar sua messianidade às avessas, em Jerusalém ele sofreu oposição sistemática das lideranças religiosas que, em conluio com o poder político, o levaram à morte.

O episódio lido hoje está inserido no contexto das perguntas de cunho doutrinal feitas pelos mestres da Lei, que formavam a elite intelectual do judaísmo. Contudo, é surpreendente que o mestre da Lei que interage com Jesus neste episódio não é mal-intencionado; não pretende colocar Jesus em maus lençóis, mas faz uma pergunta com sinceridade, desejando, não apenas colher uma opinião, mas querendo aprender mais. E essa é uma exclusividade de Marcos, pois nas versões paralelas de Mateus e Lucas esse mesmo mestre da Lei é apresentado como alguém que se aproxima de Jesus com malícia, ou seja, para tentá-lo (Mt 22,34-40; Lc 10,25-28). Mateus, pelo menos, conservou o episódio no contexto do ministério de Jesus em Jerusalém; Lucas modificou-o tanto, a ponto de deslocá-lo para o início da seção do caminho, transformando-o em introdução e motivação para a parábola do Bom Samaritano. A versão de Marcos é, portanto, a mais original e surpreendente, pois é a única ocasião em que o encontro de Jesus com um mestre da Lei termina sem conflito.

Feitas as devidas observações a nível de contexto, podemos voltar a atenção para o texto propriamente. Eis o primeiro versículo: “Um mestre da Lei aproximou-se de Jesus e perguntou: ‘Qual é o primeiro de todos os mandamentos?” (v. 28). Como já foi acenado na contextualização, é surpreendente que esse escriba não se aproxime de Jesus com más intenções. Trata-se de uma pessoa sincera. Inclusive, não começa chamando Jesus de mestre, como nas versões de Mateus e Lucas. Geralmente, a invocação a Jesus como mestre, no início de uma pergunta ou pedido, significa apenas bajulação, e não o reconhecimento de sua autoridade. Isso acontece até quando parte dos seus próprios discípulos. Esse mestre da Lei só vai chamar Jesus de mestre no final do diálogo, já convencido do ensinamento, reconhecendo a sua autoridade. A pergunta feita é muito interessante e, de fato, era bem significativa para a época.

Nas escolas rabínicas, era uma pergunta muito frequente, e que gerava bons debates. Isso porque os rabinos tinham elaborado um catálogo com 613 mandamentos, encontrados na Torá, divididos entre 365 proibições e 248 obrigações. Diante de um número tão alto, sendo difícil a memorização, surgiam muitas perguntas a respeito; ora, não sendo possível observar todos, quais seriam os essenciais? Havia uma diversidade de posições: entre os fariseus, por exemplo, predominava a ideia do sábado como o maior mandamento, com a alegação de que até Deus observava esse mandamento (Gn 2,2-3; Ex 20,8-11; Dt 5,12-15). Inclusive, já tinham entrado em conflito com Jesus, ainda na Galileia, acusando-o de relativizar o sábado (Mc 2,23-28; 3,1-6). Outros grupos consideravam que o essencial era a observação do decálogo (Ex 19,3-17; Dt 5,6-21). E outros, ainda, defendiam a igualdade entre todos os mandamentos, uma vez que todos tinham a mesma origem divina.

Desde o início da sua vida pública, Jesus tinha demonstrado muita liberdade ao interpretar os mandamentos e toda a Lei, colocando sempre o bem da pessoa e da criação acima de qualquer preceito. Como sempre, ao invés de incompleta, sua resposta também neste caso vai muito além do que fora perguntado, transcendendo até mesmo ao decálogo, que era considerado a síntese da Lei. Ele recorre a duas passagens do Antigo Testamento (Dt 6,4-5 e Lv 19,38), e formula a sua própria síntese, apresentando juntos o primeiro e o segundo mandamentos, como um projeto de vida que revela o seu próprio jeito de viver: “Jesus respondeu: ‘O primeiro é este: ‘Ouve, ó Israel! O Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e com toda a tua força! O segundo mandamento é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo! Não existe outro mandamento maior do que este” (vv. 29-31).

A primeira parte da resposta (vv. 29-30), tratada por Jesus como o primeiro dos mandamentos, corresponde ao “Shemá, Israel”, que é a mais genuína profissão de fé israelita (Dt 6,4-5). Os judeus observantes recitavam essa passagem, que é uma oração, duas vezes ao dia: pela manhã cedo e ao anoitecer. E o primeiro imperativo desta oração-mandamento diz respeito à escuta: é um convite imperativo a escutar (em hebraico: shemá; em grego: akoue). Ora, tratando-se de um Deus que tem a palavra como instrumento privilegiado da sua revelação, a primeira atitude para comunicar-se com ele é abrir-se à escuta. Por isso, antes de identificar o mandamento em si, é essencial estar disposto a escutar esse Deus. Somente escutando-o se conhece o que ele pede e espera de nós. E a escuta é acompanhado do reconhecimento de que Ele é único. Recordando essa resposta de Jesus, o evangelista denuncia o politeísmo das religiões greco-romanas e, sobretudo, o culto imperial: não há outro Senhor além do Deus de Israel, o criador e libertador.

Tendo chamado a atenção para a escuta, Jesus continua a resposta, chegando ao mandamento do amor, propriamente, recordando que se deve amar a Deus com toda a intensidade do ser: coração-alma-entendimento-força. Trata-se de um amor, completo, total, sem meios termos. Quer dizer que o ser humano deve amar a Deus com o máximo de si. Logo em seguida, Jesus acrescenta o segundo mandamento, que é o amor ao próximo como a si mesmo (v. 31), desta vez recorrendo ao Levítico (Lv 19,38). Tanto o amor a Deus com a intensidade do ser quanto o amor ao próximo já estavam na Lei, mas como instâncias separadas. Mas para Jesus, o amor a Deus não pode ser separado do amor às pessoas; aqui está a singularidade e novidade do seu ensinamento. É evidente que ele não inventa esse segundo mandamento, pois já estava na Lei, como vimos acima. Mas ninguém antes dele tinha ousado considerar o amor ao próximo no mesmo nível do amor a Deus. Inclusive, o conceito de próximo na Lei era restrito ao compatriota, o membro do mesmo povo, embora as leis de Israel protegessem o estrangeiro melhor do que as leis de qualquer outra nação antiga.

O mestre da lei reconheceu a magnitude da resposta de Jesus: “O mestre da Lei disse a Jesus: ‘Muito bem, mestre! Na verdade, é como disseste: Ele é o único Deus e não existe outro além dele” (v. 32). Como se vê, dessa vez o mestre da lei invoca Jesus como mestre, e não se trata de bajulação, mas de um verdadeiro reconhecimento. Ele não contesta Jesus, mas apenas ratifica, confirma que Jesus respondeu certo. Ora, o mestre da Lei era um estudioso da Torá; sendo uma pessoa sincera e bem-intencionada, como de fato era, não poderia discordar de Jesus. E, para mostrar ainda mais afinidade com Jesus, ele enriquece sua resposta recorrendo à tradição profética: “Amá-lo de todo o coração, de toda a mente, e com toda a força, e amar o próximo como a si mesmo é melhor do que todos os holocaustos e sacrifícios” (v. 33). Ora, o amor a Deus e ao próximo, inseparáveis, como consequência da escuta a Deus, apresentado como superior a qualquer holocausto e sacrifício, é o núcleo central da doutrina dos profetas pré-exílicos (Os 6,6; Is 1). Embora conhecessem minuciosamente toda a Escritura Hebraica, os mestres da Lei eram mais aprofundados no estuda da Torá, ou seja, da Lei. Mas esse interlocutor de Jesus se destaca também no conhecimento dos profetas, por isso, é tão aberto ao que Jesus ensina, diferenciando-se da maioria dos seus colegas de doutrina.

A resposta do mestre da Lei fez Jesus reconhecer a sua sensatez: “Jesus viu que ele tinha respondido com inteligência e disse: ‘Tu não estás longe do Reino de Deus” (v. 34a). Jesus viu inteligência no mestre da lei, ou seja, que ele respondeu sensatamente (em grego: νουνεχῶς – nunekós). Esse dado também é muito significativo. A vivência da fé e a assimilação ao ensinamento de Jesus não se dá apenas no campo espiritual ou sentimental, mas é também uma atitude racional, fruto da inteligência. Para ser autêntica, a fé precisa ser racional, senão, se transforma em fundamentalismo, gerando intolerância e até violência. Foi por causa da sensatez do mestre da lei que Jesus declarou que ele não estava longe do Reino de Deus. Ainda não estava dentro, mas já tinha dado passos importantes para um possível seguimento e inserção no futuro. Com esse dado, especialmente, Marcos ensina à sua comunidade que os de fora não são necessariamente inimigos. Tem gente boa e bem-intencionada também fora da comunidade, inclusive nos grupos tratados como adversários, como eram os mestres da lei na época de Jesus e da redação do evangelho.

As pessoas não podem ser rotuladas nem julgadas precocemente. Por se tratar de um mestre da lei, a tendência é que fosse rejeitado logo no início do diálogo, mas Jesus não fez isso. Aceitou a interação e, no final, reconheceu que o mestre da lei não estava com más intenções. Esse foi um dos seus poucos encontros e debates com representantes da religião oficial que não terminou em conflito. E o episódio em si é também mais um passo importante da catequese de Marcos para a sua comunidade: às vezes, fora do grupo, há pessoas mais dispostas e abertas aos ensinamentos de Jesus do que os seus próprios discípulos. Quanto a frase final do narrador – “E ninguém mais tinha coragem de fazer perguntas a Jesus” (v. 34b) –, ela não diz respeito apenas a este episódio do escriba, mas a toda a série de perguntas e questões apresentadas a Jesus durante seu ministério em Jerusalém.

A mensagem central do evangelho de hoje é, obviamente, a centralidade do amor na vida de cada pessoa, e a inseparabilidade entre o amor a Deus e ao próximo. Contudo, a maneira como o episódio se desenvolve também se constitui um grande ensinamento para as comunidades cristãs de todos os tempos. Para a construção de um verdadeiro “caminhar juntos”, meta principal da Igreja atualmente, é imprescindível a disposição ao diálogo, com abertura e espírito de acolhida, como fez Jesus com o mestre da lei.
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