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233. Reflexão para o 25° Domingo do Tempo Comum – Mc 9,30-37 (Ano B)

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18.09.2021 | 1 minutos de leitura
Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues
Evangelho Dominical
233. Reflexão para o 25° Domingo do Tempo Comum – Mc 9,30-37 (Ano B)
A liturgia do vigésimo quinto domingo do tempo comum apresenta mais um passo importante do caminho de Jesus com seus discípulos, conforme a dinâmica narrativa e teológica de Marcos. Trata-se de um caminho em dois níveis: o primeiro, compreende um percurso físico da Galileia para Jerusalém; o segundo é um itinerário catequético-teológico que visa despertar nos discípulos um conhecimento mais aprofundado da identidade de Jesus, tendo em vista reforçar as convicções do seguimento. Os resultados, contudo, não são tão positivos; à medida em que avançam no caminho, a mentalidade dos discípulos se distancia cada vez mais da proposta de Jesus. O evangelho de hoje – Mc 9,30-37 – mostra muito bem isso. Embora não seja a sequência imediata do texto lido no passado (cf. Mc 8,27-35), ambos estão intrinsecamente relacionados. Enquanto aquele do domingo passado continha o primeiro anúncio da paixão, o de hoje contém o segundo anúncio.

É importante recordar que os anúncios da paixão são sempre seguidos de atitudes dos discípulos que contradizem completamente o ensinamento de Jesus. E isso é bem evidenciado no texto de hoje. À incompreensão/contradição dos discípulos, Jesus reage e reforça a sua catequese, apresentando uma criança como exemplo para a comunidade, mostrando que o Reino de Deus tem como protagonistas e destinatários os pequenos e humildes, ao contrário do que pensavam os discípulos, que imaginavam uma comunidade hierárquica. O texto divide-se claramente em duas partes demarcadas pela dimensão espacial: a primeira (vv. 30-32), acontece no caminho, enquanto a segunda acontece na casa (vv. 33-37), em Cafarnaum. Casa e caminho representam os dois cenários privilegiados para a pregação de Jesus e para a vida da comunidade cristã, especialmente a comunidade do evangelista Marcos que, rompida definitivamente com a sinagoga, não tinha um espaço fixo para as suas reuniões. O caminho tem como significado a instabilidade, os perigos e, ao mesmo tempo, o dinamismo e a dimensão missionária da comunidade; é uma prova de que a Igreja nasceu para estar, realmente, em saída. Já a casa, significa a necessidade das relações fraternas e sinceras que devem marcar a vida da comunidade; é um espaço de acolhida, compreensão e vivência do amor. Caminho e casa, portanto, são dois espaços importantes para identidade da comunidade. Revelam, inclusive, o aspecto de marginalidade do cristianismo em suas origens.

Como diz o texto, “Jesus e seus discípulos atravessavam a Galileia. Ele não queria que ninguém soubesse disso” (v. 30). Essa travessia pela Galileia acontece após o episódio da transfiguração (cf. Mc 9,2-13) e a expulsão de um espírito impuro de um jovem epilético (cf. Mc 9,14-29). Já faz parte do caminho para Jerusalém, embora ainda esteja na fase inicial. Jesus percebeu que era extremamente necessário aprofundar o ensinamento sobre o seu destino aos discípulos, que continuavam resistentes e fechados na mentalidade nacionalista de espera por um messias poderoso. Por isso, nessa fase, Jesus prefere o anonimato e o isolamento das multidões para intensificar a catequese. De fato, o próprio texto atesta isso; ele atravessava a Galileia com os discípulos praticamente às escondidas, com cuidado para não ser visto, “Pois estava ensinando a seus discípulos” (v. 31a). Ora, a incompreensão de Pedro após o primeiro anúncio da paixão (cf. Mc 8,31-35), conforme mostrou o evangelho do domingo passado, serviu de advertência para Jesus: até então, os discípulos ainda não tinham compreendido praticamente nada dos seus ensinamentos sobre sua identidade, seu projeto de Reino e seu destino. Por isso, ele sentiu a necessidade de estar sozinho com eles para aprofundar o ensinamento.

O conteúdo dessa fase específica da catequese é exatamente aquilo que os discípulos mais tinham dificuldade de compreender e aceitar, ou seja, o drama da paixão que se aproximava cada vez mais, não como predestinação, mas como consequência das opções feitas e posições assumidas até então por Jesus. Por isso, “dizia-lhes: “O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens, e eles o matarão. Mas, três dias após sua morte, ele ressuscitará” (v. 31bc). Esse é o segundo anúncio da paixão. Enquanto os discípulos, conforme a ideologia nacionalista, esperavam que o messias matasse, declarando guerra ao poder romano para recuperar o trono dravídico-salomônico, Jesus afirma o contrário: é ele quem vai morrer. Inclusive, ao invés de messias, Jesus aplica a si mesmo o título de “Filho do Homem”, que significa o humano em sua condição plena. O termo messias era facilmente manipulado política e ideologicamente. Embora nesse segundo anúncio não esteja tão claro quem serão seus algozes, ele já tinha declarado no primeiro: anciãos, sacerdotes e escribas (cf. Mc 8,31), ou seja, as autoridades religiosas, em conluio com o poder imperial, até então controladoras de Deus, e agora inconformadas porque Jesus estava, com seu ministério, apresentando um Deus completamente diferente. O Deus dos chefes era cruel, vingativo e exigente, enquanto o Deus de Jesus é amoroso, misericordioso, acolhedor e justo.

A incompreensão dos discípulos continua, e parece aumentar, gerando até medo: “Os discípulos, porém, não compreendiam estas palavras e tinham medo de perguntar” (v. 32). Se não compreendiam, muito menos aceitavam a realidade como Jesus apresentava. Eles tinham medo de fazer perguntas porque sabiam que a explicação de Jesus não corresponderia às suas expectativas de triunfo e sucesso. Seria mais um desmascaramento. Por isso, covardemente, preferem conversar entre si, alimentando sonhos triunfalistas e distantes da proposta de Jesus. Porém, Jesus os conhecia muito bem e sabia o que eles pensavam; lhes perguntar apenas por protocolo: “Eles chegaram a Cafarnaum. Estando em casa, Jesus perguntou-lhes: “O que discutis pelo caminho?” (v. 33). A cidade de Cafarnaum, onde Jesus realizou boa parte do seu ministério, tem um significado especial para a comunidade. É o ponto de partida da Boa Nova. Ao questionar os discípulos em casa, nessa cidade, Jesus revela a necessidade de renovação constante e de retorno às origens do chamado, com coragem para recomeçar. De fato, com o caminho da paixão já delineado, se torna cada vez mais necessário reavivar nos discípulos as motivações para o seguimento com bastante clareza.

Cientes do absurdo e da incompatibilidade entre o que eles conversavam e o que Jesus lhes apresentava, “eles ficaram calados, pois pelo caminho tinham discutido quem era o maior” (v. 34). Com essa informação, o evangelista revela que os discípulos estavam em total oposição ao projeto de Jesus. Ora, discutir quem é o maior, é negar completamente o projeto de Reino de Deus como fraternidade e igualdade. Essa discussão revela ambição e alimenta rivalidade, elementos inaceitáveis para uma comunidade que deve viver o princípio da igualdade e do amor. O silêncio deles denuncia a incoerência e a covardia. Após dois anúncios da paixão, já deveriam saber que qualquer projeto de grandeza era totalmente incompatível com o seguimento de Jesus. Ora, ser o maior significa ter poder para sobrepor-se aos demais, é ter voz de comando; é adotar na comunidade os mesmos mecanismos do sistema opressor, enquanto o projeto de Jesus é totalmente contra hegemônico e anti-hierárquico. Os discípulos sonhavam com a tomada do poder político, quando chegassem em Jerusalém; expulsariam os romanos, mas manteriam o mesmo sistema de dominação. Eles ainda não tinham compreendido que Jesus proponha uma sociedade alternativa, com igualdade e fraternidade, construída pela revolução do amor e chamada de Reino de Deus.

É interessante que a atitude de Jesus diante da grande incoerência dos discípulos não é de condenação, mas de insistência no ensinamento e de renovação do chamado. Ele não desmancha o grupo de seguidores, mas insiste em humanizá-los. Ao invés de abandoná-los, ele prefere aprofundar a catequese, demonstrando uma imensa capacidade pedagógica: “Jesus sentou-se, chamou os doze e lhes disse: “Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos!” (v. 35). Ao sentar-se para ensinar, Jesus reafirma sua condição de mestre, o único que poderia reivindicar a condição de maior naquele grupo. Chamando os doze para perto de si, ele os convida, antes de tudo, a renovar a vocação originária, deturpada pelos sentimentos de grandeza e ambição que eles tinham alimentado. Para aprender e aceitar o ensinamento, é necessário que os discípulos estejam muito próximos ao mestre, sendo influenciados somente por ele. O ensinamento aqui é bastante didático e claro: “Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos!” (v. 35). Enquanto os discípulos pensavam em poder e grandeza, tema da discussão no caminho, Jesus mostra um caminho oposto. Só há uma forma de ser o primeiro na comunidade: tornando-se o último de todos e o servidor de todos. Ser o maior, como queriam os discípulos, significava ser o primeiro de todos e ser servido. Portanto, a proposta de Jesus não é apenas diferente, mas totalmente oposta às pretensões dos discípulos. Tornar-se servidor de todos é o mesmo que “renunciar a si mesmo”, como ele já tinha dito anteriormente (cf. Mc 8,34). O discipulado não é um caminho para o sucesso, mas para o serviço. O sentido de ser discípulo é, portanto, a disposição de fazer para os outros e estar sempre a serviço, desinteressadamente.

Concluindo a sua catequese de contraponto às ambições de poder dos discípulos, Jesus faz um gesto bastante significativo, e finaliza com uma frase relacionada ao gesto: “Em seguida, pegou uma criança, colocou-a no meio deles e, abraçando-a, disse: “Quem acolher em meu nome uma destas crianças, é a mim que estará acolhendo. E quem me acolher, está acolhendo, não a mim, mas àquele que me enviou” (vv. 36-37). Aqui está o ponto alto da sua catequese; não basta falar, é necessário demonstrar com ações a veracidade da fala, o que faz recordar as ações simbólicas dos antigos profetas de Israel, com quem Jesus se identificou bastante. O gesto de pegar uma criança, é bastante provocatório, uma vez que, na época, a criança não gozava de nenhuma estima e consideração, a não ser pelos próprios pais. Tanto o mundo hebraico quanto o grego, tinham visões muito negativas a respeito da criança, considerando-a uma pessoa inacabada e incapacitada para qualquer coisa. Jesus, pelo contrário, via com outros olhos: a criança é sinal de pequenez, característica que já a torna protagonista do Reino, mas também simboliza a capacidade de aprendizagem, que é condição indispensável para o discipulado. Mas Jesus não apenas aponta para a criança, mas a abraça. E o abraço é um gesto muito significativo: além de demonstração de afeto, significa identificação. Na cultura semita, abraçar alguém significa identificar-se com a pessoa abraçada, compartilhando não apenas sentimentos, mas anseios, projetos e sonhos. Neste caso específico do abraço de Jesus na criança, é também mais uma maneira de desarmar os discípulos de suas ambições. Ora, no projeto de poder que eles tinham em mente era pressuposto o uso da força e da violência, pois visavam expulsar os romanos; isso não seria possível sem a luta armada. Com o abraço na criança, Jesus mostra que seu projeto de Reino se edifica pelo amor e pela ternura.

Colocando a criança no meio, Jesus a tornou protagonista e centro da comunidade. Na criança estão representadas todas as pessoas vulneráveis, necessitadas e desprezadas, que devem ser acolhidas com preferência na comunidade cristã. De modo bastante claro, Jesus diz que acolher as pessoas desprezadas, representadas pela criança, é acolher a ele próprio e ao Pai que lhe enviou. Desse modo, podemos concluir que as pessoas consideradas pequenas, humildes, pobres, mulheres crianças e todas as categorias desprezadas pela sociedade são destinatárias e protagonistas do Reino, porque devem ocupar o centro da comunidade, uma vez que nelas se revelam Jesus e o Pai. A comunidade é, de fato, cristã quando, ao invés de excluir, acolhe e coloca em seu centro as pessoas historicamente condenadas e excluídas pela(s) sociedade(s). Em outras palavras, para uma comunidade/igreja considerar-se cristã deve ser, acima de tudo, casa de acolhida dos pequenos.
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