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216. Reflexão para a Solenidade da SANTÍSSIMA TRINDADE – Mt 28,16-20 (Ano B)

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29.05.2021 | 12 minutos de leitura
Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues
Evangelho Dominical
216. Reflexão para a Solenidade da SANTÍSSIMA TRINDADE – Mt 28,16-20 (Ano B)
No domingo seguinte a Pentecostes, a Igreja celebra a solenidade da Santíssima Trindade. Trata-se de uma festa instituída pelo papa João XII, no ano 1334, como resposta a alguns movimentos que negavam a divindade de Jesus ou do Espírito Santo. Por ocasião do ciclo litúrgico B, o evangelho lido neste ano é Mt 28,16-20. Apesar de curto, pois é composto de apenas cinco versículos, esse texto é muito precioso. É a síntese e conclusão do Evangelho de Mateus. Ao escrever as suas últimas linhas, o evangelista e sua comunidade fizeram questão de resumir a essência de tudo o que já tinha sido apresentado ao longo do Evangelho. O contexto é estritamente pascal, bem como o conteúdo: a manifestação do Ressuscitado aos onze, na Galileia.

Como o texto corresponde aos últimos versículos do Evangelho de Mateus, para compreendê-lo adequadamente é necessário considerar o seu contexto. Ora, o capítulo vinte e oito de Mateus começa com a ida das mulheres ao sepulcro (Mt 28,1). Ali, um anjo do Senhor apareceu a elas, mostrou-lhes o sepulcro vazio (28,6), e pediu que elas fossem depressa dizer aos discípulos que voltassem à Galileia, pois lá veriam o Ressuscitado (Mt 28,6-7). Logo depois, o próprio Ressuscitado apareceu a elas, reforçando o recado para que avisassem aos discípulos que fossem à Galileia para encontrá-lo (Mt 8-10). Em seguida, o evangelista abriu uma espécie de parêntese na narrativa, mostrando o suborno dos sacerdotes aos guardas do sepulcro, para que inventassem que os discípulos roubaram o corpo de Jesus durante a noite e, assim, terem pretexto para desacreditar a ressurreição (Mt 28,11-15). O evangelho de hoje é, portanto, a sequência destes acontecimentos.  

O anjo do Senhor e o próprio Jesus Ressuscitado confiaram às mulheres a missão de convencer os discípulos a retornarem à Galileia, para lá fazerem também eles a experiência de encontro com o Ressuscitado. E elas os convenceram, como primeiras mensageiras da ressurreição. Ora, ao contrário de Lucas, por exemplo, para Mateus Jerusalém só oferece hostilidade ao discipulado e à mensagem de Jesus; permanecendo lá, os discípulos não conseguiriam fazer experiência autêntica de encontro com o Ressuscitado. Na verdade, Mateus já vinha preparando essa ideia desde o início do seu Evangelho, com o episódio da visita dos magos: eles procuraram “o rei dos judeus” em Jerusalém, em vão; guiados pela estrela, perceberam que ele só podia ser contemplado na periferia, em Belém (Mt 2,1-12). Como centro do poder religioso e político, a capital representava o “contra reino”, ou seja, a negação completa do projeto de Jesus, conforme a perspectiva de Mateus.

Podemos, assim, compreender por que “os onze discípulos foram para a Galileia, ao monte que Jesus lhes tinha indicado” (v. 16). A referência aos onze, além de recordar que Judas Iscariotes já não fazia mais parte do grupo, tem um significado muito importante para a comunidade de Mateus: representa a superação de uma mentalidade nacionalista e triunfalista. Ora, o número doze fazia alusão ao antigo Israel, e alimentava a ideologia davídica. Esse projeto faliu, o messias foi rejeitado e morto na cruz. Fazendo uma releitura dos últimos acontecimentos à luz da ressurreição, a comunidade de Mateus concluiu que, para a missão universal lograr êxito, era necessário superar os antigos esquemas e tradições de Israel. Por isso, mais do que a incompletude do grupo dos discípulos, o número onze é sinal de nova mentalidade e perspectiva. Não podemos esquecer que a eleição de Matias para recompor o número doze é um elemento exclusivo da teologia de Lucas (At 1,15-26). Na perspectiva de Mateus, para a comunidade do Ressuscitado sobreviver e crescer, é necessário superar os esquemas tradicionais ou, pelo menos, ressignificá-los.

Em Jerusalém a experiência fora completamente negativa; além de ter sido o cenário da paixão e morte de Jesus, a capital não oferecia nenhuma perspectiva para a comunidade do Ressuscitado lá florescer. O retorno à Galileia era necessário para a sobrevivência da comunidade e, principalmente, para o reencontro dos discípulos com as motivações originárias do seguimento. Além das incompreensões ao longo da caminhada, inclusive disputa por poder (Mt 20,20), os acontecimentos envolvendo a paixão e a morte de Jesus deixaram a comunidade profundamente abalada. Daí a necessidade do retorno ao ideal primeiro, ou seja, retornar à Galileia, onde tudo começou, para fazer a experiência do encontro, justamente no monte. Ao longo de todo o Evangelho de Mateus, há muitas referências ao monte, desde o monte das bem-aventuranças (Mt 5–7) até o monte das oliveiras (Mt 24 – 25). O monte é o lugar da oração, do encontro com Deus e com a sua palavra. Foi no monte que Jesus lançou o seu programa de vida, as bem-aventuranças (Mt 5,1-12), e esse convite para os discípulos retornarem à Galileia, para o monte, é exatamente para voltarem à essência do seu projeto de vida. É também um modo de indicar a continuidade entre a mensagem de Jesus de Nazaré e o Ressuscitado. A Galileia como região desprezada entre os judeus é um alerta aos discípulos quanto aos destinatários primeiros do anúncio: os pobres e marginalizados.

Na sequência, o texto descreve a reação dos discípulos: “Quando viram Jesus, prostraram-se diante dele. Ainda assim, alguns duvidaram” (v. 17). A princípio, parecem duas posturas opostas diante da ressurreição, mas o evangelista as vê como complementares. Aqui, prostrar-se é sinal de adoração e de convicção na ressurreição e na divindade de Jesus. Inclusive, o evangelista emprega o mesmo verbo que tinha usado para indicar a atitude dos magos quando visitaram Jesus recém-nascido (προσκυνέω – proskynêo) – Mt 2,2.11. Esse verbo tanto indica adoração quanto sujeição a alguém, como deve ser a postura da comunidade: adorar somente a Jesus e sujeitar-se somente ao que ele ensinou, assumindo completa autonomia e emancipação em relação aos preceitos da Lei e a qualquer sistema de dominação. Com esse gesto, o evangelista diz que os discípulos aceitam os valores do reino como universais e, por isso, lutarão para que cheguem a todos lugares da terra. Quanto à dúvida, essa não faz mal à comunidade. Inclusive, Jesus não repreendeu os discípulos por isso. Para a solidez da fé, a dúvida se faz necessária, pois o seu antídoto não é a certeza, mas o amor. Portanto, quanto mais se tem dúvida, mais necessidade se tem de amar, e amar sem limites, para superá-la. Por isso, pode-se dizer que a dúvida e a fé são companheiras inseparáveis na vida da comunidade e de cada pessoa.

Diante da reação dos discípulos, Jesus toma a palavra e profere seu breve discurso de envio (vv. 18-20). É importante perceber que não são palavras de despedida, até porque ele não vai embora da comunidade; são palavras de envio e comissionamento. Ao dizer “Toda autoridade me foi dada no céu e sobre a terra” (v. 18), Jesus está decretando a falência dos poderes sediados em Jerusalém (religioso, militar e político), e estabelecendo uma nova ordem. A verdadeira autoridade, exercida pelo amor, parte da periferia, enquanto em Jerusalém tem apenas força de morte, uma vez que lá a autoridade é exercida com base na mentira, no medo, no suborno e na violência. A autoridade (em grego: ἐξουσία- exoussia) que Jesus possui é plena e autêntica, porque é exercida a partir da verdade e da liberdade; ao concluir o seu primeiro discurso, ele já fora reconhecido como alguém que ensina com autoridade, ao contrário das lideranças religiosas da época (Mt 7,29). A autoridade de Jesus era reconhecida, sobretudo, pela coerência entre o discurso e a prática, fruto de sua intimidade com o Pai. E é essa autoridade que agora ele compartilha com a comunidade de seus discípulos e discípulas. Não se trata de poder, mas da capacidade de viver integralmente o seu programa de vida, sintetizado nas bem-aventuranças.

Após expressar sua autoridade, Jesus anuncia o envio universalista e inclusivo: “Ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo” (v. 19). Aqui, Ele está, de fato, fazendo uso da sua autoridade e, mais uma vez, mostrando a diferença da sua para outras formas de exercício de poder. Ele não envia seus discípulos para impor nem dominar, mas para fazer discípulos. Essa é, sem dúvidas, uma das maiores novidades de seu projeto de vida e de sociedade. Não envia os discípulos para doutrinarem ninguém, mas para apresentarem uma proposta de vida. Aqui, registramos a força do verbo empregado pelo evangelista para “fazer discípulos”: no grego, idioma original do evangelho, há o verbo “discipular” (μαθητεύω – matheteuo); com ele, o evangelista consegue distinguir o discipulado de uma simples tarefa, o que não distinguimos com facilidade em nossa língua, com as traduções que temos. O novo e universal discipulado deve nascer do testemunho, ou seja, da maneira de viver dos discípulos, os quais não são operadores de tarefas, mas seguidores e testemunhas de Jesus de Nazaré, o Ressuscitado.

Dentre todos os povos ou nações que devem tornar-se discípulas está também Israel. O povo destinatário das antigas promessas de Deus não é abandonado; a salvação não lhe é tirada. Porém, já não há mais privilégio, uma vez que não é pela Lei que vem a salvação, mas pelo tornar-se discípulo (a) de Jesus. À missão de “discipular” é intrínseca a função de batizar, como sinal de pertença à comunidade dos discípulos. Mateus pensa na sua comunidade marcada pela tensão entre os adeptos e os contrários à prática judaica da circuncisão. Dos novos discípulos, não deve ser exigido nenhum sinal exterior além do batismo. A fórmula trinitária expressa, mais do que uma formulação teológica, a preocupação do evangelista para que o batismo de ingresso na comunidade cristã não seja confundido com o rito penitencial do movimento fundado por João Batista. A expressão “Em nome de/do” indica a força do batismo. Na tradição bíblica, o nome de uma pessoa é a sua própria essência, expressa a totalidade do ser. Portanto, ser batizado em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo, é ser impregnado da essência de Deus.

Como última recomendação do mandato, Jesus apresenta uma advertência, mais do que uma ordem: “ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei!” (v 20a). Tudo o que Ele ordenou ou ensinou não foi muita coisa, não foi uma doutrina, não foi um código moral, mas apenas um jeito de viver. E o que Ele pede é que seus discípulos difundam no mundo o seu programa de vida, cuja síntese é as bem-aventuranças (M 5,1-12), que correspondem exatamente ao que ele viveu. Logo, é também com a vida que os discípulos tornam conhecido o projeto de Jesus. Vivendo à maneira de Jesus, os discípulos estão “discipulando” o mundo. No “tudo” a ser ensinado está também o “somente”: os discípulos devem ensinar tudo o que Jesus ensinou e viveu, e somente aquilo, nada a mais. Omissões e acréscimos comprometem o discipulado, podendo gerar prosélitos, ao invés de discípulos e discípulas, tornando o Reino irrealizável na história. Por isso, é preciso fidelidade ao projeto de Deus para a dilatação do seu projeto no mundo.

A última frase de todo o evangelho é, na verdade, a síntese, pois é a confirmação da certeza da presença permanente de Jesus na comunidade e na história: “Eu estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo” (v. 20b). Embora a tradução do texto litúrgico apresente o verbo estar no futuro, o evangelista o emprega no presente, dizendo que o Ressuscitado já está no meio dos discípulos. O tema da presença é o fio condutor de todo o Evangelho segundo Mateus: no início, Jesus é apresentado como Emanuel, cujo significado é “Deus está conosco” (Mt 1,23); Ele mesmo garantiu estar presente quando a comunidade estivesse reunida em seu nome (Mt 18,20), e garante, aqui na conclusão, permanecer para sempre com os discípulos. É essa presença constante e perene que confere à comunidade a sua razão de existir. E para que a comunidade não tenha dúvidas da presença de Jesus, ele mesmo a ensinou a reconhecê-lo: ele está no faminto, no estrangeiro, no nu, no doente, no encarcerado e em toda pessoa marginalizada pela sociedade e a religião (Mt 25,14-46). Onde há pessoas nessas situações há presença de Jesus. Para reconhecê-lo nestas pessoas é preciso ter intimidade com Ele e familiaridade com seu jeito de viver.

Que possamos, portanto, viver impregnados da essência de Deus, como discípulos e discípulas de Jesus de Nazaré que, Ressuscitado, vive e está presente na história, ajudando-nos a compreender e viver tudo o Ele mesmo ensinou. Quando a comunidade tem certeza dessa presença, não tem medo de lançar-se à missão para compartilhar os seus ensinamentos e, ao mesmo tempo, está sempre de portas abertas para acolher a todos e todas sem distinção.
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