210. Reflexão para o 3º Domingo da Páscoa - Lc 24,35-48 (Ano B)
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17.04.2021 | 11 minutos de leitura

Evangelho Dominical

O evangelho deste terceiro domingo do tempo pascal é tirado da obra de Lucas, interrompendo uma série de leituras do Evangelho segundo João, que será retomada no próximo domingo. O trecho lido hoje é precisamente Lc 24,35-48. Trata-se da sequência imediata do conhecido episódio dos “Discípulos de Emaús” (Lc 24,13-35). Esse dado já suficiente para nos situar no contexto do evangelho. Ora, cronologicamente, esse texto situa-se ainda naquele “primeiro dia da semana”, ou seja, o dia mesmo da ressurreição. Conforme o relato evangélico, aquele fora um dia tenso para a comunidade, marcado por dúvidas, medos e desilusões, mas também por novas descobertas, com alegria, esperança e renovação da fé. Para perceber isso, basta olhar o texto em seu conjunto, desde a visita das mulheres ao sepulcro, ainda de madrugada (Lc 24,1), passando pela caminhada triste e desiludida dos dois discípulos para Emaús, até a manifestação de Jesus Ressuscitado à comunidade reunida em Jerusalém, como mostra o trecho lido hoje. Essa visão de conjunto é essencial para compreendê-lo.
Antes de comentar diretamente o texto, convém recordar que a preocupação do evangelista – falamos de Lucas, mas vale para todos – não é propriamente descrever eventos, mas, através da sua narrativa, responder às perguntas da comunidade. E a principal pergunta respondida pelo trecho lido hoje pode ser reconstruída da seguinte maneira: tendo Jesus de Nazaré ressuscitado mesmo, onde e como encontrar-se com ele? Ora, a síntese e essência da pregação cristã primitiva consistia no anúncio de Jesus de Nazaré como aquele que passou a vida fazendo o bem, morreu na cruz e ressuscitou (At 10,36-40). Obviamente, muita gente questionava esse anúncio, pedindo evidências e provas para dar credibilidade e, assim, aderir com mais convicção. Muitos queriam conhecê-lo e encontrar-se com ele, e o relato evangélico oferece as pistas.
À medida em que se passavam os anos após a ressurreição, esses questionamentos aumentavam, principalmente depois que morreu a primeira geração de discípulos e discípulas. Por isso, os evangelhos que apresentam os relatos de manifestações do Ressuscitado de maneira mais elaborada são os dois escritos por último, Lucas e João, respectivamente. E as respostas dadas aos questionamentos de outrora são válidas para todos os tempos. Lucas, de um modo particular, é quem responde com mais precisão: o Ressuscitado pode ser encontrado em qualquer situação, em qualquer espaço e em qualquer época: ele está na estrada, caminhando com os peregrinos desiludidos (Lc 24,13-35), está na mesa durante as refeições, quando o alimento é partilhado, está no meio da comunidade reunida e nas pessoas necessitadas, principalmente as famintas e feridas, com chagas expostas para serem cuidadas. Porém, para reconhecê-lo, é necessário compreender as Escrituras e ter abertos os olhos, a mente e o coração.
Olhemos então para o texto: “os dois discípulos contaram o que tinha acontecido no caminho, e como tinham reconhecido Jesus ao partir o pão” (v. 35). O evangelista se refere aos dois discípulos de Emaús que retornaram a Jerusalém assim que reconheceram o Ressuscitado, após uma longa caminhada marcada pela tristeza e desilusão. Eles contaram o que tinham acabado de experimentar, aos Onze e aos que estavam com eles (Lc 24,33), que certamente eram em grande número, uma vez que em Lucas o discipulado de Jesus é mais amplo do que nos outros evangelhos, inclusive com mais participação das mulheres. Ao afirmar que o Ressuscitado foi reconhecido ao partir o pão, o evangelista ensina que ele está no cotidiano das pessoas, é alguém de casa, faz parte da família, é uma pessoa acessível. Assim, ele prepara as gerações futuras de discípulos e discípulas: as visões se perdem com o tempo; os cristãos futuros não devem esperar manifestações extraordinárias; se quiserem reconhecer o Ressuscitado, devem partilhar o pão em comunidade, não como mera perpetuação de um rito, mas como doação de si e do que se tem. Só é possível encontro autêntico com o Ressuscitado onde há partilha e solidariedade.
Os dois que tinham retornado de Emaús “ainda estavam falando quando o próprio Jesus apareceu no meio deles e lhes disse: “A paz esteja convosco!” (v. 36). Ora, falar de Jesus já é um modo de torná-lo presente; partilhar a experiência feita com ele, portanto, é atualizar e expandir a sua presença. Ele se manifestou aos demais quando os dois contavam o que tinham vivido com ele. Logo, a comunidade reunida, mesmo insegura, se torna o lugar privilegiado de encontro com o Ressuscitado, sobretudo quando é dele que se fala. E no interior da comunidade, o lugar dele é o centro, por isso, ele apareceu “no meio” deles. Com essa informação, o evangelista está fazendo uma advertência: a comunidade cristã não pode ter outro ponto de referência senão o Ressuscitado; só ele pode ser o centro. É claro que a presença dele compreende todo o seu projeto de libertação; tê-lo no centro significa aderir a esse projeto e empenhar-se pela sua plena realização, o que corresponde à construção do Reino de Deus.
O primeiro dom oferecido pelo Ressuscitado é a paz; não se trata de uma simples saudação ou um tranquilizante, mas de uma força reconciliadora e revigorante. A paz era almejada como um bem messiânico pelos judeus; esperava-se um messias glorioso, cheio de poderes militares, que vencesse os inimigos, dando tranquilidade ao povo, o que seria apenas o outro lado da moeda da “pax romana”. De fato, a paz veio por meio do Messias, mas um messias sofredor, crucificado. Trata-se de uma paz inquieta, que não tranquiliza, mas vence o medo e fortalece a busca pela realização plena do Reino de Deus. Por isso, era tão necessária, pois apesar das evidências da presença do Ressuscitado, o medo continuava entre os discípulos, e isso os impedia de reconhecê-lo: “imaginavam ver um fantasma” (v. 37). O medo faz distorcer a imagem do Ressuscitado no meio da comunidade. De fantasma a juiz vingativo, o Ressuscitado pode ser confundido quando a comunidade não absorve a sua paz e nem compreende as Escrituras.
Ao mostrar Jesus questionando a comunidade pelas dúvidas (v. 38), o evangelista ensina que só reconhece o Cristo Ressuscitado quem aceitar Jesus de Nazaré, crucificado e morto: “Vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo! Tocai em mim e vede!” (v. 39a). Ora, se o anúncio da ressurreição encontrava dificuldade de aceitação, muito mais tratando-se de um Ressuscitado crucificado. Por isso, o evangelista insiste em recordar as marcas da paixão, os sinais da cruz. O Ressuscitado é uma pessoa real com quem a comunidade deve relacionar-se, e a constatação da sua corporeidade reforça isso. Além das marcas da paixão, mãos e pés são sinais também da sua identidade: mãos que serviram, que curaram feridas, pés que percorreram tantos caminhos levando amor, justiça e perdão. O convite a tocá-lo é comprometedor. Não foi feito apenas a testemunhas privilegiadas do passado; é feito aos cristãos e cristãs de todos os tempos: não existe fé verdadeira no Ressuscitado sem experiência, sem relação, sem toque. Hoje, tocamos o Ressuscitado quando tocamos nas feridas dos pobres, dos doentes, das pessoas necessitadas em geral. O seguimento de Jesus exige que se toque em feridas. Tocar as feridas das pessoas necessitadas, sanando suas dores, é fazer experiência com o Ressuscitado.
Na sequência, o evangelista alerta que, assim como o medo, também a euforia pode paralisar e bloquear a comunidade, impedindo-a de fazer o autêntico encontro com o Ressuscitado: “Mas eles ainda não podiam acreditar, porque estavam muito alegres e surpresos” (v. 41a). Ora, a alegria é uma das características da pessoa que tem fé, especialmente no evangelho de Lucas. Porém, a euforia desmedida pode ser prejudicial, porque pode tornar invisíveis os problemas, as dores e feridas. É preciso buscar um equilíbrio de modo que o Ressuscitado não passe despercebido com sua identidade, com suas feridas de crucificado. E é ele mesmo quem quer ser encontrado e reconhecido como vivente; por isso, pede algo para comer (v. 41b). Além de evidenciar ainda mais a sua identidade de pessoa viva, comendo ele reforça a comunhão com os discípulos. A refeição compartilhada é o sinal mais concreto de comunhão.
Tendo ele mesmo pedido, “deram-lhe um pedaço de peixe assado. Ele o tomou e comeu diante deles” (vv. 42-43). Além de ajudar a superar as dúvidas nos discípulos, a comida partilhada é sinal de fraternidade. O Ressuscitado come o que lhe dão, e se solidariza com todos os famintos e necessitados de pão; esse é mais um dos significados oferecidos pelo evangelista, além da intenção de evidenciar que o Ressuscitado é uma pessoa viva e concreta. Com isso, ele ajuda os discípulos a superar as dúvidas sobre a ressurreição, e ainda gera a solidariedade da comunidade para com as pessoas necessitadas. É interessante recordar que foi o Ressuscitado mesmo quem pediu algo para comer (v. 41); daí, os discípulos e discípulas em todos os tempos devem concluir que nas pessoas famintas e necessitadas está presente o Ressuscitado.
No encontro com o Ressuscitado não podem faltar refeição e catequese, partilha do pão e da palavra; esses elementos são imprescindíveis na comunidade cristã. Por isso, são os componentes básicos da celebração eucarística. Nesse episódio, há uma inversão na ordem: enquanto na cena dos “Discípulos de Emaús” a catequese precedeu à partilha do pão, aqui acontece o contrário, ou seja, a catequese vem depois da refeição. Assim, podemos concluir que o evangelista não preconiza um rito, mas ensina à comunidade quais são os seus elementos essenciais: a partilha do pão e da Palavra. A interpretação e compreensão adequadas das Escrituras são essenciais para a vida da comunidade. Essa é uma das principais preocupações de Lucas, ao longo de sua dupla obra (Evangelho segundo Lucas e Atos dos Apóstolos). Jesus é o intérprete e princípio interpretativo de toda a Escritura, ou seja, a Bíblia. A Lucas, diferente de Mateus, por exemplo, não interessa colher citações avulsas, mas a Escritura em seu conjunto: Lei, Profetas e Salmos (v. 44); tudo isso aponta para Jesus e deve ser lido à luz da sua vida, morte e ressurreição. Desde o princípio, a Palavra de Deus revelada nas Escrituras aponta para o triunfo da vida e a derrocada de todos os projetos de morte. A ressurreição de Jesus é o ponto culminante dessa trajetória. Sem a Palavra, a comunidade perde o rumo da história. Dos Discípulos de Emaús o evangelista diz que se abriram os olhos (24,31); dos Onze e demais reunidos com eles, diz que “Jesus abriu a inteligência dos discípulos para entenderem as Escrituras” (v. 45). Essa é também uma exigência para as comunidades de todos os tempos: as Escrituras, se bem compreendidas, abre mentes, olhos e horizontes, fazem parte do processo de conversão contínuo pelo qual deve passar toda comunidade cristã. Por outro lado, sem abertura de mente, pode tornar-se também instrumento de morte.
Um dos temas mais caros a Lucas, a universalidade da salvação, é evidenciado pelo próprio Ressuscitado: “no seu nome, serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém” (v. 46). Não apenas Israel, mas todos os povos são destinatários da paz e do amor do Ressuscitado. A reconciliação da humanidade com Deus é acessível a todas as pessoas, de todos os lugares e em todos os tempos; ninguém pode ser excluído dessa oferta de amor. Esse dinâmica começa por Jerusalém, a sede do poder religioso e, por isso, a primeira necessitada de conversão; a cidade que mata profetas (Lc 13,34). No Antigo Testamento, a universalidade da salvação previa um movimento contrário: eram as nações quem seriam atraídas a Jerusalém (Is 60; Zc 8,22); Jesus inverte essa ordem. Surge, portanto, um novo tempo, uma nova etapa na história que começa por Jerusalém, mas não por privilégio, e sim por necessidade. Quanta reviravolta na história: a terra dos considerados justos é a mais necessitada de perdão! Foi Jerusalém com suas forças de poder que matou Jesus; o mal estava radicado lá e amparado pela religião e o império. São as pessoas religiosas as primeiras necessitadas de conversão.
Dos discípulos e da comunidade cristã de todos os tempos, Jesus pede apenas uma coisa: “Vós sereis testemunhas de tudo isso” (v. 48). Em Lucas, Jesus não confere uma doutrina nem uma regra; não envia os discípulos como pregadores e batizadores, como em Mateus, mas como testemunhas, o que é muito mais comprometedor e exigente. Ser testemunha implica a coragem de dar a vida. Somos, portanto, hoje e sempre, interpelados pelo evangelista Lucas a fazer um esforço constante para reconhecer o Ressuscitado em nosso meio, com disponibilidade para a partilha, e mente aberta para o conhecimento das Escrituras.
Antes de comentar diretamente o texto, convém recordar que a preocupação do evangelista – falamos de Lucas, mas vale para todos – não é propriamente descrever eventos, mas, através da sua narrativa, responder às perguntas da comunidade. E a principal pergunta respondida pelo trecho lido hoje pode ser reconstruída da seguinte maneira: tendo Jesus de Nazaré ressuscitado mesmo, onde e como encontrar-se com ele? Ora, a síntese e essência da pregação cristã primitiva consistia no anúncio de Jesus de Nazaré como aquele que passou a vida fazendo o bem, morreu na cruz e ressuscitou (At 10,36-40). Obviamente, muita gente questionava esse anúncio, pedindo evidências e provas para dar credibilidade e, assim, aderir com mais convicção. Muitos queriam conhecê-lo e encontrar-se com ele, e o relato evangélico oferece as pistas.
À medida em que se passavam os anos após a ressurreição, esses questionamentos aumentavam, principalmente depois que morreu a primeira geração de discípulos e discípulas. Por isso, os evangelhos que apresentam os relatos de manifestações do Ressuscitado de maneira mais elaborada são os dois escritos por último, Lucas e João, respectivamente. E as respostas dadas aos questionamentos de outrora são válidas para todos os tempos. Lucas, de um modo particular, é quem responde com mais precisão: o Ressuscitado pode ser encontrado em qualquer situação, em qualquer espaço e em qualquer época: ele está na estrada, caminhando com os peregrinos desiludidos (Lc 24,13-35), está na mesa durante as refeições, quando o alimento é partilhado, está no meio da comunidade reunida e nas pessoas necessitadas, principalmente as famintas e feridas, com chagas expostas para serem cuidadas. Porém, para reconhecê-lo, é necessário compreender as Escrituras e ter abertos os olhos, a mente e o coração.
Olhemos então para o texto: “os dois discípulos contaram o que tinha acontecido no caminho, e como tinham reconhecido Jesus ao partir o pão” (v. 35). O evangelista se refere aos dois discípulos de Emaús que retornaram a Jerusalém assim que reconheceram o Ressuscitado, após uma longa caminhada marcada pela tristeza e desilusão. Eles contaram o que tinham acabado de experimentar, aos Onze e aos que estavam com eles (Lc 24,33), que certamente eram em grande número, uma vez que em Lucas o discipulado de Jesus é mais amplo do que nos outros evangelhos, inclusive com mais participação das mulheres. Ao afirmar que o Ressuscitado foi reconhecido ao partir o pão, o evangelista ensina que ele está no cotidiano das pessoas, é alguém de casa, faz parte da família, é uma pessoa acessível. Assim, ele prepara as gerações futuras de discípulos e discípulas: as visões se perdem com o tempo; os cristãos futuros não devem esperar manifestações extraordinárias; se quiserem reconhecer o Ressuscitado, devem partilhar o pão em comunidade, não como mera perpetuação de um rito, mas como doação de si e do que se tem. Só é possível encontro autêntico com o Ressuscitado onde há partilha e solidariedade.
Os dois que tinham retornado de Emaús “ainda estavam falando quando o próprio Jesus apareceu no meio deles e lhes disse: “A paz esteja convosco!” (v. 36). Ora, falar de Jesus já é um modo de torná-lo presente; partilhar a experiência feita com ele, portanto, é atualizar e expandir a sua presença. Ele se manifestou aos demais quando os dois contavam o que tinham vivido com ele. Logo, a comunidade reunida, mesmo insegura, se torna o lugar privilegiado de encontro com o Ressuscitado, sobretudo quando é dele que se fala. E no interior da comunidade, o lugar dele é o centro, por isso, ele apareceu “no meio” deles. Com essa informação, o evangelista está fazendo uma advertência: a comunidade cristã não pode ter outro ponto de referência senão o Ressuscitado; só ele pode ser o centro. É claro que a presença dele compreende todo o seu projeto de libertação; tê-lo no centro significa aderir a esse projeto e empenhar-se pela sua plena realização, o que corresponde à construção do Reino de Deus.
O primeiro dom oferecido pelo Ressuscitado é a paz; não se trata de uma simples saudação ou um tranquilizante, mas de uma força reconciliadora e revigorante. A paz era almejada como um bem messiânico pelos judeus; esperava-se um messias glorioso, cheio de poderes militares, que vencesse os inimigos, dando tranquilidade ao povo, o que seria apenas o outro lado da moeda da “pax romana”. De fato, a paz veio por meio do Messias, mas um messias sofredor, crucificado. Trata-se de uma paz inquieta, que não tranquiliza, mas vence o medo e fortalece a busca pela realização plena do Reino de Deus. Por isso, era tão necessária, pois apesar das evidências da presença do Ressuscitado, o medo continuava entre os discípulos, e isso os impedia de reconhecê-lo: “imaginavam ver um fantasma” (v. 37). O medo faz distorcer a imagem do Ressuscitado no meio da comunidade. De fantasma a juiz vingativo, o Ressuscitado pode ser confundido quando a comunidade não absorve a sua paz e nem compreende as Escrituras.
Ao mostrar Jesus questionando a comunidade pelas dúvidas (v. 38), o evangelista ensina que só reconhece o Cristo Ressuscitado quem aceitar Jesus de Nazaré, crucificado e morto: “Vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo! Tocai em mim e vede!” (v. 39a). Ora, se o anúncio da ressurreição encontrava dificuldade de aceitação, muito mais tratando-se de um Ressuscitado crucificado. Por isso, o evangelista insiste em recordar as marcas da paixão, os sinais da cruz. O Ressuscitado é uma pessoa real com quem a comunidade deve relacionar-se, e a constatação da sua corporeidade reforça isso. Além das marcas da paixão, mãos e pés são sinais também da sua identidade: mãos que serviram, que curaram feridas, pés que percorreram tantos caminhos levando amor, justiça e perdão. O convite a tocá-lo é comprometedor. Não foi feito apenas a testemunhas privilegiadas do passado; é feito aos cristãos e cristãs de todos os tempos: não existe fé verdadeira no Ressuscitado sem experiência, sem relação, sem toque. Hoje, tocamos o Ressuscitado quando tocamos nas feridas dos pobres, dos doentes, das pessoas necessitadas em geral. O seguimento de Jesus exige que se toque em feridas. Tocar as feridas das pessoas necessitadas, sanando suas dores, é fazer experiência com o Ressuscitado.
Na sequência, o evangelista alerta que, assim como o medo, também a euforia pode paralisar e bloquear a comunidade, impedindo-a de fazer o autêntico encontro com o Ressuscitado: “Mas eles ainda não podiam acreditar, porque estavam muito alegres e surpresos” (v. 41a). Ora, a alegria é uma das características da pessoa que tem fé, especialmente no evangelho de Lucas. Porém, a euforia desmedida pode ser prejudicial, porque pode tornar invisíveis os problemas, as dores e feridas. É preciso buscar um equilíbrio de modo que o Ressuscitado não passe despercebido com sua identidade, com suas feridas de crucificado. E é ele mesmo quem quer ser encontrado e reconhecido como vivente; por isso, pede algo para comer (v. 41b). Além de evidenciar ainda mais a sua identidade de pessoa viva, comendo ele reforça a comunhão com os discípulos. A refeição compartilhada é o sinal mais concreto de comunhão.
Tendo ele mesmo pedido, “deram-lhe um pedaço de peixe assado. Ele o tomou e comeu diante deles” (vv. 42-43). Além de ajudar a superar as dúvidas nos discípulos, a comida partilhada é sinal de fraternidade. O Ressuscitado come o que lhe dão, e se solidariza com todos os famintos e necessitados de pão; esse é mais um dos significados oferecidos pelo evangelista, além da intenção de evidenciar que o Ressuscitado é uma pessoa viva e concreta. Com isso, ele ajuda os discípulos a superar as dúvidas sobre a ressurreição, e ainda gera a solidariedade da comunidade para com as pessoas necessitadas. É interessante recordar que foi o Ressuscitado mesmo quem pediu algo para comer (v. 41); daí, os discípulos e discípulas em todos os tempos devem concluir que nas pessoas famintas e necessitadas está presente o Ressuscitado.
No encontro com o Ressuscitado não podem faltar refeição e catequese, partilha do pão e da palavra; esses elementos são imprescindíveis na comunidade cristã. Por isso, são os componentes básicos da celebração eucarística. Nesse episódio, há uma inversão na ordem: enquanto na cena dos “Discípulos de Emaús” a catequese precedeu à partilha do pão, aqui acontece o contrário, ou seja, a catequese vem depois da refeição. Assim, podemos concluir que o evangelista não preconiza um rito, mas ensina à comunidade quais são os seus elementos essenciais: a partilha do pão e da Palavra. A interpretação e compreensão adequadas das Escrituras são essenciais para a vida da comunidade. Essa é uma das principais preocupações de Lucas, ao longo de sua dupla obra (Evangelho segundo Lucas e Atos dos Apóstolos). Jesus é o intérprete e princípio interpretativo de toda a Escritura, ou seja, a Bíblia. A Lucas, diferente de Mateus, por exemplo, não interessa colher citações avulsas, mas a Escritura em seu conjunto: Lei, Profetas e Salmos (v. 44); tudo isso aponta para Jesus e deve ser lido à luz da sua vida, morte e ressurreição. Desde o princípio, a Palavra de Deus revelada nas Escrituras aponta para o triunfo da vida e a derrocada de todos os projetos de morte. A ressurreição de Jesus é o ponto culminante dessa trajetória. Sem a Palavra, a comunidade perde o rumo da história. Dos Discípulos de Emaús o evangelista diz que se abriram os olhos (24,31); dos Onze e demais reunidos com eles, diz que “Jesus abriu a inteligência dos discípulos para entenderem as Escrituras” (v. 45). Essa é também uma exigência para as comunidades de todos os tempos: as Escrituras, se bem compreendidas, abre mentes, olhos e horizontes, fazem parte do processo de conversão contínuo pelo qual deve passar toda comunidade cristã. Por outro lado, sem abertura de mente, pode tornar-se também instrumento de morte.
Um dos temas mais caros a Lucas, a universalidade da salvação, é evidenciado pelo próprio Ressuscitado: “no seu nome, serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém” (v. 46). Não apenas Israel, mas todos os povos são destinatários da paz e do amor do Ressuscitado. A reconciliação da humanidade com Deus é acessível a todas as pessoas, de todos os lugares e em todos os tempos; ninguém pode ser excluído dessa oferta de amor. Esse dinâmica começa por Jerusalém, a sede do poder religioso e, por isso, a primeira necessitada de conversão; a cidade que mata profetas (Lc 13,34). No Antigo Testamento, a universalidade da salvação previa um movimento contrário: eram as nações quem seriam atraídas a Jerusalém (Is 60; Zc 8,22); Jesus inverte essa ordem. Surge, portanto, um novo tempo, uma nova etapa na história que começa por Jerusalém, mas não por privilégio, e sim por necessidade. Quanta reviravolta na história: a terra dos considerados justos é a mais necessitada de perdão! Foi Jerusalém com suas forças de poder que matou Jesus; o mal estava radicado lá e amparado pela religião e o império. São as pessoas religiosas as primeiras necessitadas de conversão.
Dos discípulos e da comunidade cristã de todos os tempos, Jesus pede apenas uma coisa: “Vós sereis testemunhas de tudo isso” (v. 48). Em Lucas, Jesus não confere uma doutrina nem uma regra; não envia os discípulos como pregadores e batizadores, como em Mateus, mas como testemunhas, o que é muito mais comprometedor e exigente. Ser testemunha implica a coragem de dar a vida. Somos, portanto, hoje e sempre, interpelados pelo evangelista Lucas a fazer um esforço constante para reconhecer o Ressuscitado em nosso meio, com disponibilidade para a partilha, e mente aberta para o conhecimento das Escrituras.
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