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196. Reflexão para o 2º Domingo do Tempo Comum – Jo 1,35-42 (Ano B)

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16.01.2021 | 11 minutos de leitura
Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues
Evangelho Dominical
196. Reflexão para o 2º Domingo do Tempo Comum – Jo 1,35-42 (Ano B)
Todos os anos, o evangelho do segundo domingo do tempo comum é retirado do Evangelho segundo João, variando a citação de acordo com o ciclo litúrgico. Por ocasião do ano B, o texto proposto para hoje é Jo 1,35-42. Convém recordar que, ao longo do ano, a liturgia do tempo comum faz uma apresentação sequenciada do ministério de Jesus, desde os primeiros passos na Galiléia até o final em Jerusalém. Recorre-se ao Evangelho segundo João no segundo domingo porque é esse o que melhor introduz a vida pública de Jesus, apresentando a chamada “semana inaugural”, iniciando com o envio de uma comitiva pelas autoridades de Jerusalém para fiscalizar a atividade do Batista (cf. 1,19-28), e concluída com o relato das bodas de Caná (cf. 2,1-12). O episódio narrado hoje acontece no terceiro dia dessa semana. Na linguagem bíblica, o terceiro dia significa mais do que uma indicação temporal; é um dado teológico importante que indica um evento salvífico, como será explicado na sequência da reflexão.

Iniciamos a nossa reflexão com uma pequena observação a respeito da versão da litúrgica do texto: ao invés da genérica e desnecessária fórmula de introdução “naquele tempo”, o texto na língua original é introduzido por uma indicação temporal específica: “no dia seguinte” (em grego: τέ έπαύριον – té epaúrion). Logo, se o evangelista usa a expressão “no dia seguinte”, é sinal que o episódio a ser narrado está em continuidade com o anterior. Ora, conforme tinha sido anunciado no prólogo que “houve um homem enviado por Deus, seu nome era João. Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz” (Jo 1,6.8), as primeiras cenas do Quarto Evangelho apresentam exatamente o testemunho de João a respeito de Jesus. O trecho lido hoje faz parte desse contexto. No episódio anterior, o evangelista narrara o primeiro encontro de Jesus com João. Ali, o Batista tinha reconhecido Jesus como o “cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (cf. Jo 1,29), dando testemunho a respeito dele.

No episódio narrado no evangelho de hoje, ou seja, um dia depois, novamente eles se encontraram: “No dia seguinte, João estava de novo com dois de seus discípulos e, vendo Jesus passar, disse: “Eis o Cordeiro de Deus!” (vv. 35-36). É importante recordar que esse “dia seguinte” é o terceiro dia da semana inaugural e, portanto, seu significado é de grande importância. Ora, na Bíblia, o terceiro dia não significa simplesmente a soma de três dias seguidos, mas é um sinal de intervenção de Deus. É o dia em que coisas muito importantes acontecem, como a ressurreição, por exemplo. Isso significa que esse episódio tem um valor bastante significativo para o todo o Evangelho segundo João, pois narra o nascimento da comunidade dos discípulos de Jesus. O fato de João encontrar-se com seus discípulos mostra a solidez do seu movimento. Ao mostrar Jesus aos seus discípulos e revelar-lhes a identidade de cordeiro de Deus, João cumpre a sua missão de testemunha da luz e precursor do Messias. É importante que o conhecimento da identidade de Jesus seja revelado para que seus discípulos tenham verdadeiras convicções do seguimento.

Ao reconhecer Jesus como o Messias, e sendo um bom conhecedor das Escrituras e das tradições de Israel, João poderia apresentá-lo como rei, juiz, pastor ou simplesmente como Messias. No entanto, prefere uma designação pouco usual, apesar de possuir um amplo pano de fundo no Antigo Testamento: Cordeiro de Deus. Temos aqui uma clara alusão ao cordeiro pascal (cf. Ex 12) e ao servo sofredor (cf. Is 53,7); o cordeiro pascal recorda a experiência libertadora do êxodo, enquanto o servo sofredor evoca a libertação do exílio babilônico. Através da imagem do cordeiro, Jesus é apresentado como o verdadeiro libertador, não mais de Israel apenas, mas de toda a humanidade. Ao apresentar Jesus assim, como o “Cordeiro de Deus”, João considera o ambiente e a situação em que o povo se encontrava: instituições corrompidas, sistema religioso sem credibilidade e um império repressivo, gerando dor e sofrimento na população mais pobre. Essa situação degradante era consequência de uma sociedade dirigida por lideranças que agiam como lobos, ou seja, pessoas que devoravam a vida do povo pobre e sofrido. A apresentação de Jesus como cordeiro é, portanto, uma denúncia a essa realidade. Ora, o cordeiro era sinal de paz e mansidão, oposição a todo tipo de mal, violência e corrupção. Quer dizer que Jesus não vai exercer sua liderança conforme os sistemas de poder e dominação vigentes, e nem conforme as expectativas messiânicas da época, que previam um messias guerreiro e valente.

A reação dos discípulos demonstra o quanto o testemunho de João era convincente: “Ouvindo essas palavras, os dois discípulos seguiram Jesus” (v. 37). Assim como em toda a tradição bíblica, a escuta tem grande importância na transmissão da fé. Aqui começa a formação do discipulado de Jesus no Quarto Evangelho. Enquanto nos evangelhos sinóticos as primeiras chamadas acontecem de improviso à beira-mar, com Jesus chamando diretamente, no Evangelho de João a vocação dos primeiros discípulos faz parte de um processo iniciado pela pregação e testemunho do Batista. Ao ver seus discípulos tornando-se discípulos de Jesus, João Batista alcança seu objetivo, cumprindo com êxito a sua missão. Assim, o gesto dos dois discípulos seguindo Jesus representa o cumprimento da antiga aliança e o início da nova, a qual será celebrada solenemente na conclusão da semana com as bodas de Caná (cf. Jo 2,1-12). Seguir Jesus significa a disposição de acolher a sua proposta de vida e viver como Ele; é abandonar todos os caminhos anteriores e andar somente nos seus. Significa também a dinâmica do Reino: enquanto o Batista tinha um ponto fixo para sua pregação, a missão de Jesus é dinâmica e universalista.

Os dois discípulos seguiram Jesus porque ouviram João testemunhar a seu respeito. Mas esse é apenas o primeiro passo de um verdadeiro seguimento, é apenas a descoberta inicial. Para tornar-se discípulo ou discípula é necessário muito mais. Por isso, “voltando-se para eles e vendo que o estavam seguindo, Jesus perguntou: “O que estais procurando?” (v. 38a). Esse trecho é muito importante! Essa pergunta “o que estais procurando?” é a primeira fala de Jesus no Evangelho segundo João; são as suas primeiras palavras. É praticamente a mesma pergunta que Jesus Ressuscitado fará a Maria Madalena no dia da ressurreição, o terceiro dia por excelência (cf. Jo 20,15). É interessante que a comunicação de Jesus com a humanidade não começa com um discurso ou uma proclamação solene, mas com um questionamento. A pergunta de Jesus é de fundamental importância, por isso continua válida ainda hoje e sempre será. É preciso ter clareza das motivações para o seguimento.  

A resposta dos discípulos mostra que eles estavam no rumo certo e, portanto, que a catequese de João, como testemunha e precursor, tinha sido bem feita: “Eles disseram: “Rabi (que quer dizer mestre) onde moras?” (v. 38b). Com essa expressão os discípulos não pedem o endereço de Jesus, mas algo bem mais profundo. A morada significa a própria vida, o jeito de viver. Por isso, mais do que o desejo de conhecer uma localidade, a pergunta “onde moras?” comporta os seguintes questionamentos: “qual é o seu estilo de vida?”, “como vives?” e, ao mesmo tempo, o pedido “ensinas-nos a viver como tu!”. Com todo respeito ao antigo mestre, os discípulos de João Batista reconhecem que não é a sua vida que devem imitar, mas a vida de Jesus, de agora em diante. João disse que Jesus é o Cordeiro, os discípulos não se contentam com essa informação e querem conhecer, experimentar a vida de cordeiro vivida por Jesus.

Aos que lhe buscam, Jesus faz um convite decisivo: “vinde ver” (v. 39a). A escuta do anúncio é apenas o primeiro passo, é somente uma etapa no caminho para o discipulado. Para tornar-se verdadeiramente discípulo ou discípula de Jesus é necessário fazer a experiência do encontro, do convívio, do estar com Ele. Aqui o evangelista faz uma firme denúncia, embora sutil, à religião do tempo de Jesus, e um alerta à situação da comunidade, no final do primeiro século. Quer dizer que a vida cristã não pode basear-se na doutrinação, mas na experiência, na vivência. Jesus não é explicável com palavras. Nenhuma doutrina é capaz de contê-lo. Jesus não é conteúdo, Ele é pessoa de relação. Só conhece Jesus quem vive com Ele, quem vai ver e permanece com Ele, como fizeram aqueles dois discípulos: “Foram, pois, ver onde ele morava e, nesse dia, permaneceram com ele. Era por volta das quatro da tarde” (v. 39b). Aqui está o primeiro modelo de discípulo e de encontro. Ir ver onde Ele mora e permanecer com Ele é acatar a sua proposta de vida; é dar-lhe adesão. Para isso, é importante a comunidade: foram dois que permaneceram com Ele. Eles não foram conhecer um espaço físico determinado, mas foram viver como Ele. Como o dia terminava às seis horas, a indicação temporal “quatro da tarde” significa que permaneceram até o fim com Ele e, por isso, quando surgir o novo dia, aqueles discípulos já estarão revestidos de uma vida nova, ou seja, do estilo de vida de Jesus.

Até então, nenhum dos discípulos fora chamado pelo nome. Finalmente, um deles se torna conhecido: “André, irmão de Simão Pedro, era um dos que ouviram as palavras de João e seguiram Jesus” (v. 40). O evangelista reforça aqui, mais uma vez, a eficácia do anúncio de João: os discípulos seguiram Jesus porque ouviram o precursor. O outro discípulo que não é identificado por nome é, provavelmente, aquele que permanecerá como enigma em todo o Evangelho: o discípulo amado. O efeito do encontro fica evidente à medida em que o discípulo se torna também missionário, como André, que “foi encontrar seu irmão Simão e disse: “Encontramos o Messias” (que quer dizer Cristo)” (v. 41). Quem faz a experiência da comunhão de vida com Jesus, quem o vê e permanece com Ele, sente a necessidade de dá-lo a conhecer, partilhando essa mesma experiência. Tendo encontrado o Messias-cordeiro, o discípulo encontrou sentido para a vida, percebeu que os lobos de então (dirigentes políticos e religiosos) não tinham a palavra final, mas uma nova ordem e um novo tempo estavam surgindo a partir dos fracos e pequenos, representados pela imagem do cordeiro.

À medida em que a experiência de viver com Jesus vai sendo partilhada, o discipulado vai se dilatando: “Então André conduziu Simão a Jesus. Jesus olhou bem para ele e disse: “Tu és Simão, filho de João; tu serás chamado Cefas” (que quer dizer: pedra)” (v. 42). É interessante que o evangelista ainda não concede a palavra a Simão. O entusiasmo é todo de André. Subentende-se uma admiração silenciosa e imóvel de Pedro, a ponto de ser necessário um encorajamento de Jesus com o acréscimo do nome Cefas (Pedra=Pedro). Ao dizer que Jesus olhou bem para Simão, o evangelista reforça ainda mais que a relação com Ele é pessoal e íntima, o que não dispensa a importância da comunidade como lugar privilegiado do encontro.  Na língua original do texto, o autor emprega um verbo que designa um olhar profundo, equivalente a olhar para dentro. Quer dizer que Jesus penetrou seu olhar na intimidade de Simão, e isso o faz com todos e todas que dele se aproximam. Assim, o grupo dos seguidores se ampliava quando a experiência vivida era compartilhada.

Que o anúncio da palavra em nossas comunidades gere inquietações e inconformismos e, assim, possamos buscar o conhecimento de Jesus fazendo a experiência de comunhão de vida com a sua pessoa, indo aonde Ele mora e levando-nos a reconhecê-lo no encontro com os irmãos e irmãs. Só Ele comunica vida em plenitude. E essa vida não pode ser experimentada pela mera repetição de fórmulas doutrinais, mas somente no encontro com a sua pessoa.
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