151. Reflexão para o 3° Domingo da Quaresma - Jo 4, 5-42 (Ano A)


Iniciamos hoje uma série de três domingos em que a liturgia dominical da quaresma adota um trecho do Quarto Evangelho, ou seja, do Evangelho segundo João, como texto evangélico. Para hoje, o primeiro da série e o terceiro da quaresma, o texto proposto é Jo 4,5-42, o relato do encontro e o diálogo de Jesus com a mulher samaritana, um episódio exclusivo do Quarto Evangelho. Esse texto é considerado uma verdadeira obra prima de João; certamente, é um dos mais conhecidos do seu evangelho, e possuidor de uma riqueza ímpar, tanto do ponto de vista literário quanto teológico-catequético. Devido à sua extensão, não o comentaremos versículo por versículo; procuraremos colher a mensagem central, destacando apenas alguns versículos e dados particulares mais significativos.
Como sempre, é imprescindível recordar o contexto, tanto literário quanto histórico, para chegarmos a uma compreensão mais adequada do texto. Do ponto de vista literário, convém recordar que esse texto faz parte de uma série de acontecimentos importantes do início do ministério de Jesus no contexto do Quarto Evangelho, desde as bodas de Caná (Jo 2,1-22), passando pelo desmascaramento do templo, transformado em casa de comércio (Jo 2,13-21), até o encontro noturno com Nicodemos, um judeu ilustre e reto (Jo 3,1-30), e culminando com o encontro, em plena luz do dia, com uma mulher sem reputação, como era aquela samaritana (Jo 4,1-42). A nível de contexto histórico, é importante recordar a rivalidade que havia entre judeus e samaritanos, como o próprio texto menciona: “De fato, os judeus não se dão com os samaritanos” (v. 9b).
Essa rivalidade teve a sua origem com o cisma que dividiu o único reino de Israel em dois, ficando Samaria como capital do reino do Norte, e Jerusalém como capital do reino do Sul. Após o cisma, Jeroboão I, o primeiro rei de Israel do Norte, construiu vários santuários em seu reino, para competir com o culto do templo de Jerusalém, inclusive, proibindo que sua população se dirigisse a Jerusalém para participar das liturgias do grande templo. O culto praticado nestes santuários era, obviamente, considerado ilegítimo pelos judeus. Essa ilegitimidade se acentuou ainda mais após a invasão assíria em 722 a.C.. Ora, além de deportar parte da população local, a Assíria levou povos de suas outras colônias para repovoar a Samaria e todo o reino do Norte, constituindo assim um povo mestiço, plural e sincrético. Os povos estrangeiros levaram seus costumes e tradições para a Samaria, juntamente com suas diversas práticas cultuais (cf. 2Rs 17,24-28). Tudo levou os judeus a considerar os samaritanos como impuros e heréticos. É, portanto, considerando este contexto que devemos ler o evangelho de hoje.
O texto começa afirmando que “Jesus chegou a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, perto do poço que Jacó tinha dado ao seu filho José” (v. 5). A recordação dos patriarcas em si, já é sinal de que se trata de um local importante para as tradições bíblicas. O poço possui uma rica simbologia na Bíblia; é o lugar do encontro e da renovação das forças. O evangelista traz acrescenta uma informação muito importante sobre o estado em que Jesus se encontrava: “cansado da viagem” (v. 6b). Essa é a única vez que um evangelista retrata explicitamente o cansaço de Jesus, o que João faz empregando o termo grego “kekopiakos” (κεκοπιακώς) para cansado. É um dado relevante pois expressa a humanidade de Jesus em sua dimensão mais profunda: um homem cansado e sedento, embora portador de uma água viva, que ao final do episódio será reconhecido como o salvador do mundo (v. 42). Cansado e sedento, Jesus não tem medo de relacionar-se com as pessoas, mesmo sem reputação, e pede de beber a uma mulher samaritana que também se encontrava no poço (v. 7), demonstrando que não estava condicionado às barreiras impostas pela sociedade e a religião. Para os padrões da época, não era aconselhável para um homem conversar a sós com uma mulher, ainda mais com uma mulher samaritana, personagem duplamente marginalizada: primeiro, por ser mulher, numa sociedade patriarcal; segundo, por ser samaritana, uma raça de gente desprezível, como os judeus consideravam.
A sede de Jesus parece ser mais pretexto para abrir um diálogo transformador com aquela mulher, como ele mesmo revela que tinha uma água viva para dar (v. 10). O diálogo faz a mulher reconhecer Jesus como portador de um dom de Deus, a ponto de pedir-lhe da sua água viva: “Senhor, dá-me dessa água para que eu não tenha mais sede e nem tenha de vir até aqui para tirá-la” (v. 15). À medida em que o diálogo se estende, Jesus ganha a confiança da mulher, levando-a à sinceridade, inclusive, reconhecendo a ilegitimidade de sua união com um esposo ilegítimo, o sexto marido, o que é imagem das diversas divindades com as quais a Samaria já entrou em relação (vv. 16-18). Revelando sua identidade pecadora, a mulher demonstra também o desejo de conversão, embora a religião não lhe seja favorável, causando-lhe confusão acerca da verdadeira adoração; ela não sabe onde e nem como prestar o culto verdadeiro (vv. 19-20). Jesus se interessa cada vez mais pela causa da mulher samaritana, como se interessa pela causa de toda pessoa marginalizada; declara que não importa o lugar do culto, mas a qualidade (vv. 21-24).
Independentemente do lugar de culto que frequentasse, aquela mulher seria vítima de preconceitos e discriminações. Consciente disso, Jesus lhe indica o culto verdadeiro: a “adoração em espírito e verdade” (v. 24). Ao contrário do que muitas interpretações afirmam, essa adoração não significa um culto intimista, pessoal e sincero, mas sim um culto ao Pai que passe pelo Espírito Santo e pelo próprio Jesus. O Espírito, aqui, é o dom de Deus, a água viva que Jesus possui e a destina à toda a humanidade; a verdade é a sua própria pessoa enquanto plenitude da revelação, ou seja, de tudo o que o Pai tem a dizer à humanidade inteira. A adoração em Espírito e em verdade, portanto, é a relação nova que se inaugura entre Deus e a humanidade: não mais intermediada pela Lei e nem pelos sacerdotes dos templos, mas pelo Espírito Santo e Jesus. Esse culto é acessível a todas as pessoas, de todos os tempos e lugares. Enquanto a mulher samaritana dá adesão a Jesus, os discípulos continuavam presos à mentalidade antiga, certamente imposta pela religião, e se admiram com a atitude de Jesus falar com uma mulher (v. 27). Ainda estavam condicionados aos preceitos da Lei e fechados ao Espírito. Andavam com Jesus, mas não tinham ainda sido saciados pela água viva dele.
Convicta de ter encontrado sentido para a sua vida no encontro com Jesus, a mulher toma uma atitude decisiva e fundamental: “deixou o seu cântaro e foi à cidade” (v. 28) para anunciar a experiência vivida. Deixar o cântaro significa abandonar a Lei para aderir ao Espírito e ao programa de vida de Jesus. É a passagem ao discipulado; de mulher rejeitada e excluída, ela se tornou discípula e anunciou, convidando os demais a fazerem a mesma experiência que ela tinha acabado de fazer, convencendo toda a cidade a buscarem o mesmo (v. 2-30). A fé autêntica e verdadeira é contagiante, inevitavelmente se espalha. É importante recordar que em momento algum Jesus a repreendeu pelos erros passados; levou-a a reconhecer quantos maridos teve, porém, sem incriminá-la; o resultado foi uma conversão autêntica, o que os discípulos pareciam ainda não ter experimentado, como dá a entender a sutil advertência que Jesus lhes faz com uma pequena parábola da colheita (vv. 34-38). A colheita abundante é a fé dos samaritanos, a adesão dos que estavam distantes, confirmando que Jesus rompe barreiras e todos os muros de separação, religiosos e ideológicos, para quem se deixa encantar pela sua pessoa e a sua mensagem.
O desfecho final é uma grande adesão causada, inicialmente, pelo testemunho da mulher (v. 39) e, em seguida, pela experiência pessoal que cada um fez (v. 42), culminando com o reconhecimento de Jesus como o Salvador do mundo. Os judeus esperavam um messias nacionalista, restaurador do reino de Israel; os samaritanos reconhecem Jesus como Salvador do mundo. São duas visões bem diferentes entre si, que revelam as diferenças entre quem permanece preso aos preceitos da Lei, sem coragem de abandonar o cântaro, ou seja, de mudar de vida, e quem reconhece a necessidade de beber da água viva que Jesus doa. Enquanto o cântaro da Lei aprisiona, a água viva que Jesus doa liberta e sacia. Os samaritanos, povo marginalizado e impuro, segundo a Lei, proporcionam a primeira adesão em série à pessoa de Jesus; sentindo o peso da rejeição e marginalização impostas pela religião, acolheram o dom de Deus revelado por Jesus e destinado a todos e todas, especialmente os mais rejeitados.
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522. REFLEXÃO PARA O 5º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Lc 5,1-11 (Ano C)08.02.2025 | 14 minutos de leitura
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