Durante muito tempo, o texto-base da catequese foi o catecismo. Com a chegada da Catequese Renovada, os catecismos – tão prontos e taxativos! – cederam espaço para manuais catequéticos que tinham a cara das comunidades locais. Os problemas da vida, as esperanças e tristezas do povo, começaram a se fazer presentes nestes roteiros. Foi aí que a Bíblia achou entrada na catequese. Ela iluminava a vida concreta dos catequizandos e a vida dos catequizandos dava mais sentido ao relato bíblico. A conexão da Escritura Sagrada com a vida, a unidade da história da salvação com a história da gente, foi aos poucos sendo descoberta. Isso foi um ganho sem conta para a catequese. Mas, mesmo com esse avanço, a Bíblia ainda não ganhou a centralidade que ela merece nos nossos encontros catequéticos.

Na história de nossa catequese, a Bíblia foi sempre muito instrumentalizada para justificar nossas crenças e posturas. Ela serviu de apoio para legitimar nossos dogmas, para afirmar nossa moral, para garantir nossas ideologias. O processo que se afirmou na catequese pode ser descrito mais ou menos assim: a gente tem um problema (ver), então vamos à Bíblia para que ela ilumine essa situação concreta (julgar); julgada a situação à luz da Bíblia, vamos tomar uma postura (agir). É o método ver-julgar-agir, tão conhecido na América Latina. Esse método rendeu frutos abundantes, mas ele ainda não deu palavra à Palavra de Deus.

Mas como assim dar palavra à Palavra de Deus? Bom, nós dizemos, e com razão, que a Bíblia é Palavra de Deus. Ora isso não quer dizer que Deus ditou a Bíblia. Quer apenas dizer que, nos relatos de fé que a comunidade registrou, Deus se diz, ele se dá a conhecer, ele mostra o seu rosto. Ora, quando lemos com fé esses relatos, Deus fala a nós; ele continua entrando em relação conosco como fez com aquela gente e continua nos proporcionando por meio do texto uma experiência de fé, tão profunda e forte quanto a que motivou o surgimento do relato. Então, na catequese, precisamos resgatar essa dinâmica da relação com Deus que a Escritura Sagrada proporciona. A Bíblia não é um livro cheio de regras e dogmas ao qual a gente recorre para legitimar nossas crenças. Por exemplo: o representante máximo da Igreja Católica é o papa, então, na controvérsia com os protestantes, procuro na Bíblia frases e textos que me digam que Jesus instituiu Pedro como primeiro papa da Igreja. A Bíblia não é também um livro cheio de fatos e histórias que legitimam nossas ideologias. Por exemplo: eu vejo que os ricos oprimem os pobres e afirmo que isso não é vontade de Deus, então procuro na bíblia relatos de condenações aos ricos e de apoio aos pobres. Ora, não é preciso usar a bíblia para ambos os casos. No primeiro caso, a Igreja tem o direito de ter seu representante, de ter sua organização, ainda que Jesus não tenha pensado em instituir um papa, em ter uma Igreja com esta estrutura hierárquica que temos. Essa estrutura é legítima se ela é para servir, para unificar, para apoiar todos os que professam sua fé, mesmo que não esteja presente na Bíblia. E é ilegítima se ela serve como exercício de poder, mesmo que esteja presente nas Escrituras. O que legitima algo não é o fato de estar na Bíblia ou não, mas o fato de promover a vida de todos. No segundo caso, ainda que a Bíblia nada dissesse sobre a exploração dos ricos sobre os pobres, eu estou certa de que posso condenar essa prática. Ela é ilegítima, pois não promove a vida plena, nem do pobre e nem do rico. A vida plena se encontra na fraternidade e na partilha. Se a gente for procurar na Bíblia textos para legitimar nossas crenças, poderemos legitimar as práticas mais absurdas e inimagináveis: o assassinato, o machismo, a escravidão, a guerra etc. A Bíblia não é para isso. Ela é um livro surpreendente. Nela há relatos de uma fé viva e atuante. E, por meio desses relatos, o Deus que entrou em relação com aquele povo continua falando e entrando em relação conosco. Então, é preciso tomar cuidado pra gente não ir à Bíblia buscar o que nós queremos legitimar. É preciso acolher o Deus que fala por meio dela. É preciso dar à Palavra de Deus a chance de dizer o que ela quer dizer.

Essa tentativa de dar palavra à Palavra de Deus muda o modo de abordar a Bíblia em nossos encontros. Ela não é a luz que é jogada sobre a situação concreta da vida; ela é a motivação da conversa, o ponto de partida dos encontros. O Deus amoroso e carinhoso, que se manifestou ao seu povo lá naquele tempo, é o mesmo Deus que hoje se manifesta a nós e nos dispensa seu carinho, nos ajudando a ter força para viver, nos motivando a viver uma vida que não seja fútil, que seja plena de sentido. Na coleção Catequese Permanente, a bíblia não é entendida como um conjunto de dogmas ou de moral cristã. Ela é Deus se dizendo a nós; sua escuta é ocasião para fazer acontecer na nossa vida a mesma experiência transformadora que o povo da Bíblia fez. Então, a catequese não é um curso bíblico, nem uma reunião de círculo bíblico, ambos bons e importantes. A catequese é encontro com Deus por meio do mergulho na fé que a Escritura Sagrada registra. Nossos catequizandos podem até não saber quantos livros a Bíblia católica tem, em que língua ela foi escrita, quando e onde. Podem também não saber as passagens bíblicas que defendem a ferro e fogo a fé católica. Podem não saber verbalizar o discurso opressor-oprimido que muitos veem na bíblia. Mas certamente eles saberão que o Deus vivo e atuante que agiu na vida daquela gente continua caminhando conosco e dando sentido à nossa vida. Por meio dos encontros, os relatos bíblicos serão destrinchados, desmitificados, interpretados. Será preciso quebrar barreiras, des-aprender muita coisa, desconstruir para reconstruir de novo sobre bases mais sólidas, mais lúcidas. Tudo para proporcionar a experiência cristã de Deus. Tudo para que os catequizandos experimentem o amor incondicional de Deus manifestado em seu Filho Jesus Cristo.


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