tudo está dito nisto: tenho sede.

sede, no deserto, sob o sol do meio dia. sede, à beira do poço, carregando a lata no peito. sede, pendurado na cruz, agonizando os suspiros de uma crucifixão prolongada.

digo, desdizendo com palavras as inverdades que outrora escondia, da primeira sede; a do deserto, sob o sol do meio dia.

lá, nada floresce. só os cactos; vegetação inóspita, num clima e num terreno inóspito. não aprender a admirar os espinhos e querer arrancá-los é ferir-se. feri-me e feri. essa estranha habilidade para destratar ou rejeitar quem nos ama, não seria espinhosa inabilidade para o amor? amor não é jardim, suspeito e suspiro. amor é deserto. à espera ou à procura ou à espreita de oásis, estamos todos. mas negamos o calor. negamos os cactos, e espinhos há. no amor, florescem cactos, vegetação inóspita num terreno inóspito, que é o amor e sua tautologia.

e, no deserto, não vemos miragens? expectativas distorcem percepções. a bênção das miragens é que nos lembram a fraqueza dos olhos. sob o sol do meio dia, enxergamos tão fracamente como na escuridão. mas miragens forçam a averiguação, caso não queiramos morrer de sede à beira da fonte. e sede tão infinita, sacia-se com água pouca? e, se há fonte, tergiversamos, porque procurávamos as miragens e não a água verdadeira.analiso a fundo, sob ridículas categorias, de onde veio tal água, para onde ela vai; análises excessivas matam de sede…

digo, com palavras sombrias, da segunda sede, da sede à beira do poço, com a lata no peito.

sentado, à espera, não tenho balde que alcance as funduras da cisterna. olho-as atraído pelas trevas que escondem a água. morro sedento ou afogado nas trevas? aguardo, pois, o peregrino que me trará um balde. qualquer confissão poderia me trazer um peregrino. se eu me prostituiria, a fim de matar a sede, com qualquer viandante, não posso culpar minha desidratação por tal tentação. aprendi, entretanto, uma confissão, e a ela aderi. espero, agora, o forasteiro que vem com água-minando. ele não vem, contudo. não para saciar sedes. não. para que a adesão não seja a única opção. água para sedentos não é proposta, é chantagem.

sentado, à espera e o coração-lata. de ferro duro. furado: sabotagem da natureza que tem sede e não quer ser saciada. busco o que já tenho; o balde e, o meu coração embalde espera. ouço do viandante que nunca veio um eco vindo do futuro: “nunca mais terás sede”. ela, entretanto, não será extinta; é que a sede de não ter mais sede é maior do que a sede por água. grito, pois, palavras passadas e sempre presentes: “dá-me de beber”. anseio que o eco do passado-presente encontre o eco do futuro. e se meu grito for também o futuro dormindo em mim? temo que haja em mim só futuro, só promessa, só esperança. descontento-me de esperas, quanto mais no deserto, quanto mais sedento. a sede do porvir, entretanto, é ingratidão. e receio também que haja em mim só presente.

tempo, capítulo à parte, é medo. assombra, avança, assalta. eternidade seria, então, suspensão do medo. o que quer dizer que o amor é suspensão do tempo. e talvez por isso, poucos amem; depressa, entre-tempos, com hora marcada. e talvez, por isso, amor seja raro; porque o medo não é. e devora vorazmente.

tenho várias sedes, à beira de muitos poços. se a água d’algum se extingue, troco o poço? uso o poço, não por ele, mas pela água que me dá? devo sustentar minha escolha, feita num tempo, que é medo, com amor, que não é tempo, para a eternidade, que não é medo? ainda que encontre só sede, cavando fundo e mais fundo? posso jurar e sustentar minha promessa, quando minhas sedes são tão mutáveis? prometer e sustentar promessas é insistir na mesma sede. mas, se todas as sedes nascem de uma só, não é possível amarrar erros, escolhas equivocadas, “tiros no pé”, tentativas frustradas numa mesma identidade; a de quem não deve jurar por nada, só dizer sim – ou não – e quantos for capaz? minhas questões são minha sede interrogada. sou um balde de interrogações, deitado próximo a um poço de não-respostas.

digo, por fim, da terceira sede; a do crucificado em dores agonizantes.

não há chagas, ou coroa de espinhos, ou corpo suspenso. mas há um quase-cadáver escondendo suas lágrimas. desamparo só tem essa companhia. não há crucificados sorrindo, a não ser hipocritamente. queremos esquecer os crucificados. e abandonados são os que não foram amados, ou que não conseguiram amar, à cruz de seus delírios e ilusões. iludem-se menos os que creem no amor como realização? é ideia falsa de prosperidade; a de que o amor seja feliz. felicidade é mais sede que água. felicidade é a sede, no deserto do amor, onde florescem só cactos. queremos, sobretudo, ignorar que amar é cruz. é preciso matar o eu e seus imperativos. amar realiza-se na crucifixão. quando se descobre a verdade: “tenho sede”. quando se descobre a dura realidade da vida, não haverá quem venha dar de beber, a não ser o fel da diferença. o fel da não-saciedade e das não-correspondências que nos unem.

abandonado, sozinho, pendente. que silêncio é este: o que faz o mistério, esse que nossas sedes nomearam? não se poderia dar como água, pois é água infinita do mar infinito. e água salgada não mata a sede. ao grito “tenho sede”, que faz ele? silencia em sua sede de ajudar? há quem diga que sua sede é de sangue; sangue do filho descido para saciar nossas sedes, morrendo agora sedento e pedindo água. é que, nele, a fonte e a sede se encontram, responderão. mas terão de rasgar nosso peito, com lança afiada, para jorrar dele, água? a água que somos nós só jorrará quando, então, morrermos? para sedentos, morrer não seria difícil.

seria, ao contrário. há apego à sede. é o corpo que resiste, todo formado de água. é o eu que não quer morrer, com medo do nada. e se o deserto for a miragem, afinal? e se para o amor, que é deserto, onde florescem apenas cactos, for preciso isso: morrer para descobrir que água há? morrer deixando-se perfurar por sedentas lanças, para então achar a verdade: sacio, com sede.

são miragens as palavras. miragem é tudo que é maiúsculo. miragem sou eu e minha teoria. um único pedido, entretanto, ainda resta, dirigido ao mistério da vida-e-seus-clamores: “dá-me de beber!”


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