O pequeno Livro de Sofonias começa, como tantos outros, esclarecendo a autoria da obra (Sofonias, filho de Cusi) e situando-a no tempo, (quando reinou Josias, aquele que fez uma boa reforma em Judá – aproximadamente de 640 a 609 aC)).

Sofonias é direto; não gosta de enrolações, nem de meias palavras. Ele não poupa o leitor. Já no comecinho da obra vai avisando seu público que o Dia do Senhor está próximo (cf. 1,7). E, por meio de descrições que podem causar medo e até desespero num leitor desavisado, vai tecendo a trama de seu texto: “Vou acabar com tudo o que existe na face da Terra, acabarei com os humanos e com os animais” (1,2); “Vou levantar minha mão contra Judá” (1,4a); “Eliminarei deste Lugar (o Templo de Jerusalém) o que restou de Baal[1]” (1,4b).

Sofonias quer impactar. Seu objetivo não é outro senão mostrar a gravidade do pecado do povo, que abandonou o Senhor em busca de uma religião mais fácil. Ele carrega nas tintas na hora de pintar o dia final para que – atemorizado pelas imagens – o povo se volte para o Senhor. Deus vai agir como um comandante de guerra, afirma ele: “Passarei em revista Jerusalém” (1,12). Ora, nosso autor quer deixar que não há modo de escapar do confronto com Deus. Todos, pequenos e grandes, fortes e fracos, serão examinados pelo olhar criterioso de Deus, que não tolera o mal. Aí vai ser um chororô. Até o valente vai chorar feito criança, vai soluçar pedindo socorro: “É amargo o dia do Senhor, aí o valente soluça” (1,14). E mais: Nem prata nem seu ouro serão capazes de salvar (cf. 1,18). Só a conversão – o desejo de pertencer de novo ao Senhor e de buscar a fidelidade – será capaz de dar imunidade no dia do julgamento. Por isso ele insiste: “Procurai o Senhor, humilhados do país, vós que praticais seus mandamentos; procurai a justiça, procurai a humildade” (2,3). A garantia da vitória está na fidelidade cultivada ao longo da vida, não nos recursos próprios: ouro, força física, poder etc.

Tendo descrito o Dia do Senhor, Sofonias enumera um rol de oráculos: o Dia do Senhor vai atingir também os povos vizinhos, as potências inimigos etc. Daí os oráculos contra os filisteus, Moab e Amon, e até contra a Etiópia e a Assíria (cf. 2,1-15). Mas não se deixe enganar Jerusalém. Deus usará com o povo santo o mesmo critério que utilizará com os pagãos. Não haverá privilégios para o povo de Judá. Jerusalém não vai se safar só porque é a queridinha do Senhor, só porque abriga sua santa habitação (cf. 3,1-8). Aliás, muito pelo contrário. Sofonias revela claramente a decepção do Senhor com o povo da Cidade Santa: “Não confiou no Senhor, não se aproximou do seu Deus” (3,2); praticou a injustiça sem nenhum receio (cf. 3,3-4). Tal comportamento não ficará sem punição. Deus mesmo vai se levantar contra Jerusalém como testemunha e despejar nela todo seu furor[2] (cf. 3,8).

Ora, se o povo que pertence ao Senhor não quer a fidelidade, este dom será dado a outro.  Deus mesmo vai providenciar para si um povo fiel: “Tornarei puros os lábios dos povos, para que possam todos invocar o nome do Senhor e servir ao Senhor, todos juntos. A oferta, meus adoradores vão trazê-la do outro lado dos rios da Etiópia” (3,9-10). Para quem se entendia como povo escolhido do Senhor, filho dileto de Deus, não deve ter sido nada fácil além acolher a profecia de Sofonias que advertia sobre a infidelidade dos eleitos e abria a possibilidade da fidelidade dos gentios.

Para terminar, nosso profeta lembra que sempre sobra um resto fiel. Nem todo mundo se deixa contaminar pelo pecado. Nem toda laranja do saco vai apodrecer. Vai sobrar um resto que permanecerá na fé; não o grupo dos instruídos na religião, nem os poderosos, nem os ricos… um povo pobre e humilhado que porá sua confiança em Deus: “Em teu meio deixarei apenas um povo humilhado e pobre – um resto de Israel – que buscará apoio no nome do Senhor” (3,12). Por isso, a filha de Sião pode gritar de alegria e cantar alegremente (cf. 3,14). Deus mesmo – no seu amor – vai mudar a sorte de seu povo infiel, dando-lhes a possibilidade de recomeçar: “Eu vou mudar vosso destino” (3,20b).

E aí? Duro o Livro de Sofonias? De fato, para os ouvidos daqueles que querem um Deus sem cólera[3], uma religião sem obrigações e uma vida sem interditos pode ser. Mas não para quem acolhe o Senhor e aceita as obrigações éticas implicadas nesta escolha. “Um resto ficará fiel”, promete Sofonias. Este resto pode ser a totalidade da humanidade; tal é o desejo de Deus!


[1] Baal é um deus cultuado desde tempos antigos nas terras de Canaã, onde o povo hebreu se instalou depois da saída do Egito. Os israelitas sempre foram tentados pelas facilidades do culto a Baal. Enquanto a fé monoteísta no Deus de Abraão exigia uma vida ética muito rigorosa, com leis a seguir, a religião de Baal só exigia os rituais litúrgicos. O povo hebreu se sentia atraído por tal facilidade, ainda mais que Baal – entendido como deus da fertilidade – prometia a seus súditos terra fecunda, família numerosa, animais com boa capacidade de reprodução etc. Não poucas vezes, o culto a Baal entrou no Templo. Josias trabalhou uma reforma religiosa, propondo a volta ao Senhor, a partir do Deuteronômio Primitivo (Dt 12-26).

[2] Lembrando, é claro, o que já falamos em artigo anterior sobre o antropomorfismo. Cf. artigo sobre o Livro de Naum.

[3] Não no sentido de vingança – é claro – mas no sentido de que Deus não pactua com o mal nem se deixa manipular.


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