Muitos se perguntam o que significa o pano dobrado ao lado do corpo de Jesus, que aparece em Jo 20,7. Teria o evangelista uma intenção teológica específica ao dizer que o pano estava dobrado e não jogado em um lugar qualquer como as outras mortalhas? Por que a fineza de tal detalhe aparece no relato da ressurreição?

O termo grego soudarion que se encontra em Jo 20,7 já foi traduzido por “guardanapo”, por “mortalha”, por “lenço”, por “pano de rosto”. Atualmente, correntes neopentecostais, com o objetivo de garantir uma interpretação tendenciosa que facilite o discurso sobre a volta de Jesus, têm traduzido a palavra soudarion como guardanapo de mesa.

Conforme tal interpretação, o guardanapo ou lenço de Jesus estava dobrado para dar indicação garantida de que Jesus voltará. Conta-se que, ao terminar a refeição, o amo se levantava, limpava os dedos, a boca e sua barba, e embolava o lenço e o jogava sobre a mesa. Conforme essa mesma tradição, o lenço embolado queria dizer: “Eu terminei”. No entanto, se o amo se levantasse e deixasse o lenço dobrado ao lado do prato, o servo jamais ousaria tocar na mesa porque o lenço dobrado queria dizer: “Eu voltarei!”.

Tal interpretação parece duvidosa. Até agora não encontramos nenhum menção, na literatura judaica, que faça referência a este costume de guardanapos dobrados, como foi citado. Também nunca encontramos nenhum estudioso da Bíblia que tenha mencionado algo sobre esse costume do guardanapo dobrado para explicar Jo 20,7.

Tudo indica que o principal objetivo de João 20,7 é garantir que Jesus ressuscitou e que a ressurreição é obra do Pai, que tranquilamente agiu, sem pressa, tirando seu Filho da morte.

Para a antropologia judaica, é impensável imaginar o espírito (ou alma) ressuscitado sem o corpo. A antropologia judaica concebe o ser humano como uma unidade indivisível: corpo e alma. Ora, para dizer que Jesus está vivo é preciso garantir que o túmulo está vazio. Mas o túmulo vazio não prova que Jesus ressuscitou. Ele poderia ter tido seu corpo roubado, por exemplo, como contava o boato dos opositores. Sabendo dessa possibilidade, João fala do lenço dobrado. Ladrões não teriam tido tempo de arrumar a bagunça se, de assalto, tivessem roubado o corpo do Mestre. Para João, o túmulo está vazio; Jesus não está lá porque está vivo. Seu corpo não foi roubado por ladrões bagunceiros e apressados: Jesus foi ressuscitado pelo Pai que cuidadosamente o retirou da morte.


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