Quaresma: tempo de conversão e, por isso, tempo de penitência, ensina a Igreja. A penitência quaresmal ganha diversos formatos, especialmente nas práticas do jejum, da esmola e da oração. Esse tripé da piedade já orientou a espiritualidade cristã por muito tempo e persiste ainda hoje, apesar da crescente secularização. Mesmo não se sentindo parte da comunidade eclesial, não frequentando o templo católico, não tendo mais laços de pertença com a paróquia, algumas pessoas seguem fazendo suas penitências, pois os costumes religiosos têm raízes profundas; fazem parte de um patrimônio coletivo quase intocável. Chegada a quaresma, notamos que o jejum, por exemplo, tem sua prática reavivada. Não é incomum encontrar pessoas que, nesse tempo, renunciam ao cigarro, que não comem doces, que não consomem carne ou bebida alcóolica etc. Penitências relacionadas aos hábitos alimentares são as mais comuns, mas há ainda muitas outras, algumas até bastante extravagantes, como longas caminhadas, flagelos, descuidos com o corpo, recitação de numerosas preces etc.

Apesar das mudanças culturais significativas da atualidade, notamos que as pessoas continuam acreditando que a ascese é agradável a Deus ou que tem poder para espantar o maligno. Entendem que a penitência – ou seja, um sacrifício corporal – desagrada quem a faz, mas agrada Aquele a quem é oferecida. Uma visão de um Deus terrível, que se alegra com a supressão do prazer, com o sacrifício e a dor dos humanos. Entende-se que quanto mais penitente a vida, quanto mais doída e mais sofrida, mais agradável a Deus. Nesse caso, Deus apresenta traços de sadismo, pois se rejubila com o sofrimento dos humanos.

Além disso, não é raro achar quem use a penitência como moeda de troca, numa espécie de barganha com Deus. Como dizem os jovens, tipo assim: “Eu fico sem beber e você (Deus) me dá um emprego”; “eu fico sem fumar e você perdoa meus pecados passados” etc. Tais pessoas relacionam-se com um Deus mercantilista; sua religião é comercio e sua religiosidade é negócio.

“O que fazer?”, perguntam os pastores das almas penitentes. “Não há o que fazer”, eles mesmos respondem. “O povo gosta; o povo se sente bem; não podemos tirar as crenças do povo”. Assim, muitos veem, criticam e seguem discordando sem fazer nada. E nossa gente segue suas crenças sem repensar sua religião, sem refazer sua imagem de Deus, sem avaliar sua relação com o Transcendente.

Eu fico comovida com a generosidade de coração de nosso povo e ainda mais com sua capacidade de sacrificar-se. Não é sem dor ou sem muito esforço que alguns sustentam suas penitências. Logo, não desmereço tais práticas, mas, falemos sinceramente, apesar de heroicas, elas são de uma inutilidade e de equívoco teológico que preocupam.

Se a quaresma é tempo de conversão, atrevo-me a sugerir que a primeira conversão que ela nos exige não diz respeito a práticas litúrgicas e a rituais religiosos. Trata-se de uma conversão do coração, logo uma conversão teológica pode ajudar muito. Se mudamos nosso modo de compreender Deus, e fazemo-lo a partir de Jesus Cristo e não de conceitos religiosos, a vida ganha novos contornos. A conversão teológica pode ajudar muito. Que tal ajudar nossa gente a repensar a imagem de Deus, passando do Deus onipotente, juiz implacável, para o Deus misericordioso e bom de Jesus de Nazaré? Lembremo-nos do que disse Jesus: “misericórdia é o que quero e não penitência” (Mt 9,13). Quanto mais acreditarmos no Deus da misericórdia, mais estaremos movidos a ser misericordiosos também. Fica aí a dica.  


Dica anterior: 100. Rituais apenas
Próxima dica:   102. Crendices e temores quaresmais
Print Friendly, PDF & Email