Conhecendo a coleção Catequese Permanente

Pe Orione e Solange do Carmo

Por meio deste artigo, queremos oferecer uma visão geral sobre a Coleção CATEQUESE PERMANENTE, que está sendo publicada pela Paulus, mostrando por onde começa e aonde pretende chegar, para que os que adotarem esse material possam compreender seus objetivos e propósitos.

A princípio, nosso intento é fornecer material didático para consolidar nas paróquias uma catequese que não se limite a preparar para a primeira comunhão e a crisma, mas envolva todas as crianças e adolescentes pelo menos até a crisma, que se recebe geralmente por volta dos 15 anos.

Pensamos também em preparar material para que a catequese continue, mesmo depois da crisma. Aí, já estaremos falando da catequese com jovens e adultos. Do mesmo modo que dizemos que a catequese não pode terminar com a primeira comunhão, também entendemos que a formação do católico maduro na fé não pode terminar com a crisma. Se é permanente, a catequese deve continuar sempre, embora possamos pensar em modos e métodos diferentes para cada situação.

Avaliamos também a possibilidade de elaborar material para ajudar na evangelização de jovens e adultos que não passaram pela catequese inicial, aqueles que ainda não fizeram sua iniciação cristã e desejam caminhar com a Igreja, redescobrindo o valor da fé e da experiência de Deus. Nesse caso, pretendemos apresentar os fundamentos da fé católica a um público que, embora já crescido em tamanho e idade, precisa crescer em sabedoria e graça – ou seja, a pessoas que, não obstante tenham recebido os sacramentos da iniciação cristã, ou mesmo que não os tenham recebido, desejam fazer verdadeira experiência de Deus e descobrir a alegria de seguir Jesus e com ele se comprometer.

É fundamental deixar claro que o objetivo principal dessa coleção não é preparar pessoas para os sacramentos. A coleção está em sintonia com a Igreja no Brasil no intuito de desvincular a catequese dos fiéis dos meros cursinhos preparatórios para os sacramentos, os quais se configuram mais no formato escolar que na mistagogia e na experiência da fé. Nosso desejo é justamente superar a catequese voltada tão somente para os sacramentos. Propomos uma catequese que ajude a fazer da iniciação cristã uma descoberta da beleza da fé e da presença de Deus conosco, por meio de Jesus, nosso salvador, na força do Espírito Santo e em comunhão com a Igreja.

Falemos, então, das fases iniciais do que chamamos CATEQUESE PERMANENTE. Queremos propor uma experiência de Deus em três fases.

1. Pré-evangelização

Chamamos de pré-evangelização, já reconhecendo as limitações dessa expressão, a primeira fase da catequese, que tem como objetivo dar a crianças de 5 a 7 anos, aproximadamente, uma primeira visão do universo de nossa fé, com bom embasamento bíblico. Queremos que as crianças, antes de mergulharem no mistério cristão – o que vai acontecer na próxima fase, a evangelização fundamental –, façam a redescoberta do universo bíblico.

Nossas crianças recebem muita informação, pois estão sempre em contato com os meios de comunicação, lidam com a internet, vão mais cedo para a escola. Queremos que recebam também, quanto antes, não somente informação, mas formação a respeito de tantas coisas bonitas que a Bíblia Sagrada tem para nos ensinar. Queremos que experimentem a alegria de também fazer parte desse povo de fé, cuja experiência a Bíblia relata.

Como, porém, estudar Bíblia Sagrada com crianças de 5 a 7 anos? Como ajudá-las a fazer a experiência de pertença a esse povo de fé? Pode parecer pretensão! A Bíblia é um livro tão complexo! – muitos dirão. Mas nosso intento nessa fase não é fazer um estudo teológico e sistemático das Sagradas Escrituras, como se faz em uma faculdade de teologia. É simples: vamos contar às crianças histórias da Bíblia. As crianças dessa idade apreciam histórias. A Bíblia é um belíssimo livro de histórias: histórias de fé, de gente de fé, de gente que abriu o coração para Deus e fez a experiência de seu amor. Faremos, assim, uma teologia para crianças com base em histórias bíblicas.

O resultado disso é que, ao final de três anos de catequese, as crianças serão mergulhadas no universo bíblico, no mundo da fé que essas pessoas viveram e nos deixaram como legado. Ao final do percurso, terão saboreado, degustado os eventos, as narrativas da Bíblia Sagrada, ponto de partida para o nosso encontro com Cristo e para a nossa experiência de Deus.

A Coleção CATEQUESE PERMANENTE compreende três livros para essa fase.

1.1. Conhecendo Jesus (pré-1). Nesse livro, contamos histórias da vida de Jesus de Nazaré, numa sequência que vai de seu nascimento até a sua morte e ressurreição. Começamos da anunciação do anjo a Maria e concluímos com a aparição do Cristo ressuscitado aos apóstolos. Queremos que as crianças iniciem o processo catequético criando um laço afetivo com a vida de Cristo. Por isso, mostramos a vida de Jesus como em um filme, seguindo mesmo uma ordem cronológica, para ajudar na compreensão do sentido da sua vinda ao mundo.

1.2. Seguindo Jesus (pré-2). Aqui falamos ainda de Jesus de Nazaré, figura central de nossa fé, com quem as crianças precisam se encontrar e se identificar. Destacamos aspectos especiais da vida de Jesus: suas mais belas parábolas, seus encontros mais marcantes, seus mais belos milagres e suas mais belas palavras (ou discursos). Queremos que as crianças apreciem as coisas bonitas que Cristo fez e ensinou. Isso ajuda a guardar no coração quem foi Jesus e o que ele fez, criando afeto por ele.

1.3. Somos povo de Deus (pré-3). Nesse volume, convidamos as crianças a fazer um passeio pelo Antigo Testamento. Há histórias belíssimas na vida do povo de Deus que, contadas numa linguagem apropriada, podem ser facilmente compreendidas pelas crianças, despertando nelas o desejo de fazer também sua caminhada de fé. Será que as crianças dessa idade já ouviram falar de personagens como Abraão, Jacó, Moisés, os reis Saul, Davi e Salomão e de tantas pessoas interessantes e eventos importantes do Antigo Testamento? Provavelmente, não. Então, vamos contar essas histórias às crianças. Começamos por Abraão, com o seu desejo de uma vida de fé, passamos pela caminhada do Egito à Terra Prometida, passeamos pelo período da monarquia, visitando os reis, contemplando o exílio e a resistência do povo de fé, e, finalmente, mergulhamos com as crianças no mundo da literatura sapiencial, com destaque para o começo do Gênesis. E as crianças entendem isso tudo com a facilidade e a simplicidade do coração de criança.

Essa fase inicial quer ser como um aperitivo para abrir o apetite da fé, pequena degustação para despertar o desejo de participar do banquete que Deus nos oferece, pequena aspersão que provoca o desejo de mergulhar cada vez mais profundamente nesse mistério do Deus amor, revelado em Jesus Cristo. Quando ouvirem falar mais tarde, na escola, de Adão e Eva, por exemplo, já terão ouvido antes na catequese o que isso significa. E terão ouvido uma narrativa teologicamente elaborada, e não essas interpretações inadequadas que correm por aí, no imaginário do povo.

Ressaltamos que usamos nessa fase um método muito simples. Acolhemos as crianças, rezamos, cantamos. Depois, contamos uma história. Em seguida, propomos uma atividade que tem como objetivo ajudar a guardar no coração o que se contou na história. Usamos muito o recurso da música, com excelentes resultados para o bom aproveitamento da turma. Por isso, cada livro traz consigo um CD com músicas apropriadas para a idade, que ajudam a interiorizar o conteúdo e dão um clima de festa ao encontro. É a valorização do lúdico na catequese.

Passemos, então, à próxima fase.

2. Evangelização fundamental

Essa é a segunda fase do processo catequético, com o objetivo de ajudar as crianças, em quatro anos – dos 8 aos 11 –, a experimentar, interiorizar e entender os valores e noções fundamentais do mistério cristão. Por isso, chamamos de evangelização fundamental. Queremos que as crianças descubram e experimentem os fundamentos da fé.

Mas quais são esses fundamentos? Aqui convém lembrar o que se tem dito hoje sobre a necessidade de uma catequese querigmática que leve as crianças (no nosso caso) a fazer experiência de Deus e não somente aprender um conteúdo. O centro da catequese não é um conjunto de doutrinas que se guarda na memória, mas uma pessoa que se guarda no coração: Jesus! Em torno da pessoa de Jesus, centro de nossa fé, pensamos em seis pontos fundamentais para a nossa iniciação cristã, em seis verdades da fé que precisam se tornar uma experiência de vida para cada pessoa.

a) Experiência da bondade de Deus

O processo formativo será sempre um encontro com Deus. Para que a pessoa se sinta motivada para esse encontro, precisa ter uma visão positiva de Deus. Se a pessoa, no seu subconsciente, tem uma concepção estranha de Deus, não vai se sentir tão motivada a se aproximar dele a ponto de criar mais profunda intimidade.

O que acontece, infelizmente, é que Deus se tornou para o nosso povo uma realidade distante e desnecessária. As pessoas, no fundo, imaginam um Deus mau, que castiga, julga e vigia nossos atos para nos punir, que se irrita e se ofende com nossas falhas, que dá sorte a uns e reserva surpresas desagradáveis a outros, que envia chuva em excesso ou sol em abundância. Afinal, o povo pensa que Deus é como um administrador do mundo, que tudo decide e em tudo intervém, restando ao ser humano curvar-se humildemente aos seus desígnios.

Se não ajudarmos o povo a conceber outra imagem de Deus, o processo catequético ficará seriamente comprometido. Por isso, o primeiro passo da formação deveria ser este: mostrar um Deus que é amor e misericórdia, que é bondoso e compassivo, que quer nossa felicidade, que nos criou para uma vida boa, um Deus preocupado com o nosso bem, mais companheiro e amigo. Isso vai ajudar a pessoa a fazer uma experiência positiva de Deus. Porque normalmente as pessoas são marcadas por experiências negativas de Deus. Desde pequenos, ouvimos mensagens negativas sobre ele: “Faz isso não, que Deus não gosta”; “Cuidado, Deus está vendo”; “Deus ficou triste com você”. E por aí vai.

Tanto a criança quanto o adolescente, o jovem e o adulto deveriam começar seu processo formativo por uma forte, profunda e positiva experiência do Deus companheiro, do Deus conosco revelado por seu Filho, Jesus Cristo.

b) Experiência da condição humana

O segundo ponto fundamental do processo catequético deveria ser uma mais profunda compreensão do ser humano, em seu mistério. Compreender o ser humano significa entender suas qualidades e defeitos, força e fraqueza, liberdade e limitações, virtude e pecado. Quando a pessoa faz a experiência profunda de si mesma, entende qual é a importância de voltar-se para Deus.

O ser humano tende a ter uma imagem distorcida de si próprio: ou muito pessimista e autodestrutiva, ou muito otimista e autossuficiente. Quem se vê na ótica do pessimismo e da autodestruição não tem força nem para buscar a Deus, pois se sente indigno e incapaz dele. Quem se vê na ótica do otimismo exagerado e da autossuficiência não tem vontade de buscá-lo, pois pensa que não precisa dele.

Em ambos os casos, a pessoa crê em Deus, mas não tem interesse de se aproximar dele para um encontro mais íntimo. E toca sua vida sem ele. Descarta-o, pois ele não lhe convém.

Então, não basta ajudar a pessoa a fazer sua experiência de Deus Pai, que nos ama, como Jesus nos revelou. É preciso ajudá-la a compreender o mistério do ser humano, fazendo-a enxergar quanto é maravilhosa a vida quando vivida na comunhão com Deus. Se o ser humano tem suas limitações – e como as tem! –, Deus é a chance da plenitude. Essa descoberta é fundamental no processo formativo, tanto para crianças quanto para adolescentes, jovens ou adultos. É preciso resgatar a imagem do ser humano como ser amado e querido por Deus, como sua imagem e semelhança, como seu filho em Jesus Cristo, imagem tão distorcida no mundo de hoje.

c) Experiência da salvação

O terceiro ponto da evangelização fundamental seria realizar a profunda experiência da salvação, compreendendo o sentido mais profundo da vida de Jesus. É o momento de anunciar Jesus na sua profundidade.

Quando falamos de Deus Pai no primeiro módulo, já o fizemos à luz de Jesus Cristo, o Filho querido de Deus que nos revelou o Pai. Mas é preciso mais do que mostrar quem é o Deus de Jesus Cristo. É preciso conhecer e amar Jesus Cristo, que nos leva ao Pai. As pessoas sabem pouco sobre Jesus. Muito pouco! Sabem que foi um homem muito bom, sabem que morreu na cruz, sabem que ressuscitou, sabem que a Igreja fala muito de Jesus. Mas não conhecem o sentido profundo da vida de Jesus e o que ele representa para a humanidade, dentro do plano salvífico de Deus.

No subconsciente do nosso povo existe ainda aquela ideia do catecismo antigo de que Deus mandou seu Filho ao mundo para morrer na cruz. Então, a morte de Jesus foi mesmo capricho de Deus. Deus Pai teria se irritado com os pecados da humanidade e somente o Filho de Deus poderia reparar essa ofensa infinita. Pelo derramamento de seu sangue na cruz, com requintes de crueldade, Jesus saciou a sede de vingança de Deus, aplacando a cólera divina, suavizando o braço de Deus que pesava sobre a humanidade e, enfim, abrindo as portas do céu que Deus havia fechado depois do pecado de Adão e Eva. Tudo isso está na mente do povo, até de muitos líderes engajados e de pastores que já estudaram teologia. Infelizmente, o que está no subconsciente, advindo do catecismo antigo, influencia mais que a teologia aprendida nos institutos.

Quem conserva essa visão de Jesus não vai querer um encontro mais profundo com Deus. Essas noções, como o povo as entende, são detestáveis. Elas provocam aversão à religião.

O povo precisa entender a beleza da revelação divina. Precisa compreender como Deus enviou seu Filho ao mundo para que o mundo conhecesse o infinito amor do Pai; como Jesus veio para nos resgatar e nos mostrar um caminho novo para uma vida nova; como Jesus demonstrou amor à humanidade e fidelidade ao projeto do reino até na cruz; como a ressurreição abre novas perspectivas para toda a humanidade. Se não resgatarmos o sentido profundo da vida de Jesus, não será possível a tão desejada maturidade cristã. Na melhor das hipóteses, o povo pensa que Jesus é um ídolo. Os jovens normalmente o consideram assim. Mas isso não é suficiente. Jesus é mais que ídolo. O cristão que busca a maturidade precisa experimentar a profundidade do mistério de Jesus como Salvador, fazendo a experiência da salvação.

d) Experiência da conversão

O quarto ponto da evangelização fundamental é levar a pessoa a realizar a experiência da conversão. Conversão aqui significa aquela resposta de vida que a pessoa dá diante do mistério de Deus, do ser humano e da salvação. Esses três mistérios, que se fundem num só, exigem de nós uma postura. Ninguém pode permanecer impassível e indiferente depois de experimentar a profundidade desses mistérios.

A resposta nossa será de fé e conversão. Diante do mistério de Deus, a pessoa crê. É a fé. E adere. É a conversão. Fé e conversão são duas realidades que se completam e conduzem a uma adesão à proposta de Deus.

Falando de fé e conversão, estamos também diante de conceitos mal entendidos pelo nosso povo. O povo pensa que fé é uma força mental ou uma emoção e que conversão é proceder direitinho. A ideia de converter-se está manchada por uma fatal onda de moralismo que provoca uma reação negativa na pessoa. E a noção de fé como força mental faz pensar que ela seja uma realidade que não pode ser trabalhada – ou se tem, ou não se tem –, enquanto a fé como emoção faz pensar que basta sentir algo bom para se ter fé.

É preciso conduzir o povo a uma experiência mais legítima de conversão, partindo de uma fé profunda – que significa mais aceitação do mistério de Deus do que força e mais obediência à sua palavra do que emoção momentânea – e chegando a uma adesão de vida ao projeto de Deus. A experiência da conversão significa aceitar o mistério de Deus e aderir a ele de coração, firmando um compromisso com o seu reino, assumindo na vida o projeto de amor que ele já iniciou.

Sem isso, o processo formativo ficaria incompleto. E, mais uma vez, é preciso dizer: seja criança, adolescente, jovem ou adulto, qualquer pessoa precisará passar por essa experiência.

e) Experiência do Espírito Santo e da missão

Esse seria o quinto passo da evangelização fundamental. Depois de aceitar o mistério de Deus e aderir a ele, a pessoa precisa compreender o dinamismo da vida do cristão. Experimentar o Espírito Santo é compreender esse dinamismo. O Espírito significa a força de Deus agindo em nós; significa que não estamos órfãos, pois o Espírito é nosso paráclito-consolador; significa que nossa vida terá sempre uma dimensão sobrenatural, pois somos templos do Espírito Santo.

A experiência do Espírito Santo é processo bastante amplo. Poderíamos resumi-lo em dois pontos fundamentais: a compreensão de que temos uma missão neste mundo e a certeza de que não estamos sozinhos nessa missão, pois somos guiados por Deus por meio de seu Espírito. Essa experiência da missão e da força é fundamental para a maturidade cristã.

Falando do Espírito Santo, mais uma vez precisamos levar em conta a dificuldade que o povo tem de compreender seu mistério. O povo não tem boa noção sobre o Espírito Santo. Uns acham que o Espírito é uma luz que ilumina nosso intelecto. Então, rezam ao Espírito Santo antes de fazerem uma prova na escola, por exemplo, achando que o Espírito Santo ajuda a tirar nota boa. Outros pensam que o Espírito Santo seja uma força milagrosa que opera em nós, realizando coisas e fenômenos fantásticos e incomuns, caindo em certo pentecostalismo. Há quem entenda a expressão “somos templos do Espírito Santo” de forma moralista. Essa expressão foi muito usada para aconselhar a pureza sexual. A pessoa devia evitar certos comportamentos porque é templo do Espírito Santo. Sem desvalorizar a boa intenção desse argumento, é preciso aceitar que se trata de argumentação frágil para o objetivo que se quer alcançar. Tudo isso prejudica a experiência profunda do Espírito Santo.

Quem não se abre a uma nova experiência no Espírito, doado a nós por Jesus, não percebe também o sentido da Igreja, nem da missão que temos no mundo, nem da sacramentalidade da vida, nem o sentido da presença de Deus em nós, nem o sentido do fim vitorioso do mundo. Por isso, apesar da complexidade dessa experiência, ela é fundamental no processo formativo. Qualquer que seja a faixa etária da pessoa, ela precisará fazer essa experiência para atingir sua maturidade.

f) Experiência de ser Igreja

Esse é o sexto ponto da evangelização fundamental. Experimentar a Igreja é se sentir Igreja. É construir laços de pertença. É entender o sentido e a importância da vida comunitária, da participação, da comunhão, do engajamento, dos serviços, dos ministérios, da fraternidade, da partilha, da fé vivida na grande família de Deus. Afinal de contas, a fé não foi por nós inventada, mas herdada, transmitida a nós, que a acolhemos – é claro – numa adesão pessoal, numa decisão única.

À primeira vista, essas noções parecem simples. No entanto, talvez seja bom nos perguntarmos: será que o povo se sente Igreja? Será que o povo compreende mesmo a Igreja como grupo de pertença? Será que o povo já entendeu o sentido de viver em comunidade? Será que entendeu o porquê do engajamento?

Às vezes, fica a impressão de que o povo considera a Igreja uma agência de prestação de serviços. O povo não se sente Igreja. As pessoas vão à Igreja em busca de serviços. O povo frequenta a comunidade, mas nem sempre vive comunitariamente. O povo muitas vezes se engaja em trabalhos paroquiais porque o padre convidou e não se pode dizer não a um convite assim. Mas parece, muitas vezes, que isso é mais um sacrifício que se faz em nome de Deus, para ganhar o céu, do que propriamente uma descoberta de que a Igreja somos todos nós, o povo que professa e vive sua fé no Deus de Jesus Cristo por força de seu Espírito.

Então, é preciso ajudar o povo a fazer a profunda experiência de ser Igreja. Sem isso, o processo formativo ficaria seriamente comprometido. Todas as experiências anteriores encontram seu lugar concreto na vivência eclesial. Não estamos falando de vivência eclesial apenas para fortalecer a Igreja, num interesse triunfalista. Acreditamos que, de fato, a vivência eclesial é elemento importante no processo de amadurecimento da pessoa. Daí a importância desse sexto passo.

Esses seis pontos se integram e se fundem, constituindo as bases do processo formativo. Na Coleção CATEQUESE PERMANENTE, eles estão agrupados em quatro livros, chamados de módulos:

Módulo 1: Deus é amor. Aqui falamos da experiência da bondade de Deus e da condição humana. Mostramos aos catequizandos uma visão bonita de Deus e uma visão bonita da vida, como dom de Deus. Depois, falamos da condição humana, marcada pela fraqueza e pela necessidade de vencê-las.

Módulo 2: Jesus, nosso salvador. Aqui, nosso objetivo é conduzir os catequizandos a fazer a experiência da salvação, entendendo o que ela significa e concluindo com a experiência da fé e da conversão, como resposta a Cristo.

Módulo 3: O Espírito nos sustenta. Nesse livro, ajudamos os catequizandos a compreender e amar a missão que Jesus nos dá, lembrando que não estamos sós, pois o Espírito Santo nos acompanha e nos capacita para essa missão. Não se trata só de pôr em prática o que Jesus ensinou, cobrando dos catequizandos a ligação entre fé e vida. Trata-se de descobrir o evangelho como força transformadora de vida, de ter a experiência da fé como legítima e autêntica força que move a vida toda, e não somente parte dela.

Módulo 4: Somos Igreja. Encerrando a fase da evangelização fundamental, levamos os catequizandos a ver a Igreja de modo mais profundo, como a família da qual fazemos parte pela fé. Não apenas participamos de uma Igreja. Nós somos Igreja. Cremos como Igreja e em Igreja.

Esses quatro módulos – quatro livros – ajudam a fazer as experiências fundamentais de nossa fé. Terminada essa fase, o catequizando está entrando na adolescência. Propomos, então, mais quatro módulos voltados para o mundo do adolescente.

3. Catequese com adolescentes

Essa é a terceira fase do processo de catequese permanente. Nosso objetivo aqui é ajudar o adolescente a lidar com as questões próprias dessa idade, sempre à luz da fé. Vamos tratar das questões concretas da vida e mostrar como podem ser vividas e enfrentadas de modo tranquilo e sereno, na presença de Deus, na companhia de Cristo, na força do Espírito Santo e na comunhão com a Igreja.

Queremos ajudar o adolescente a perceber como os valores fundamentais da fé, experimentados na fase anterior, podem ajudá-lo a viver melhor e ser feliz. Queremos levar os adolescentes a ver como o evangelho é força propulsora da vida. Se não mostramos isso, eles podem cair no lugar-comum de pensar que a religião é um conjunto de regras que limitam nossa vida. E aí, já jovens, afastam-se da Igreja. Mas talvez isso não aconteça se tiverem uma visão positiva da religião, se tiverem experimentado de fato o Deus de Jesus Cristo e não um conjunto de doutrinas. Eis o ponto central dessa fase.

O adolescente enfrenta, em geral, muitos conflitos. Vê o mundo com novo olhar. E quer ser feliz. Vamos mostrar que a fé ajuda a ser feliz. Não há nada errado em querer ser feliz. Mas a religião muitas vezes é apresentada como um freio que impede que o adolescente se lance na vida e conquiste o seu lugar ao sol. O evangelho é boa-nova. Jesus quer que tenhamos alegria completa (cf. Jo 15,11). Quer também, é claro, que saibamos renunciar a nós mesmos e tomar a cruz com ele (cf. Mt 16,24). Mas convida: venham a mim e eu os aliviarei (cf. Mt 11,28-30). A mensagem cristã não é somente carregar a cruz. É muito mais que isso. Vamos perceber o sentido bonito da alegria cristã, mais profunda e duradoura do que a felicidade superficial que muitos têm em mente.

Os livros dessa fase estão ainda em fase de elaboração. Mas pensamos em quatro módulos, que deem sequência aos da fase anterior.

a) Módulo 5: Ser livre e ser feliz. Vamos tratar aqui da questão da realização pessoal, tema muito apreciado pelos adolescentes e muito necessário, porque, se não nos sentirmos bem, não seremos bons seguidores de Jesus. Vamos falar da liberdade e da autoafirmação. Vamos mostrar como a fé nos ajuda a dirigir bem a nossa vida, com segurança e otimismo, e a superar as barreiras que encontramos. Vamos conduzir o adolescente aos labirintos de sua mente e de sua alma e ajudá-lo a se conhecer e se aceitar, aceitando também os outros como são. Vamos ajudá-lo a criar uma imagem positiva de si mesmo e da vida, aprendendo a lidar com as suas emoções, especialmente fortes nessa faixa etária.

b) Módulo 6: Viver e conviver. Queremos ajudar os adolescentes a descobrir a arte de conviver: com a família, com os amigos, com o mundo, sem se deixar levar, sem criar conflitos, mas em sintonia e harmonia com o que está em nossa volta e junto de nós. Vamos ajudá-los a conviver com a própria sexualidade, com a realidade do namoro, tudo com serenidade e equilíbrio, iluminados por Jesus, sem deixarem de ser felizes e terem a alegria completa. O adolescente vai lidar com o grupo. Precisa estar seguro. Vai fazer a experiência da realidade da vida e precisa de apoio. Vamos falar de violência, de drogas, de vícios, dos perigos da vida. Mas vamos mostrar que com fé tudo se vence.

c) Módulo 7: Compreender o mundo. Queremos ajudar o adolescente a olhar para além de si mesmo e do pequeno grupo de colegas que o rodeiam e a fazer uma leitura cristã do mundo que o cerca. Vamos introduzir aqui questões da ética social, temas da doutrina social da Igreja. Vamos falar do compromisso de entender o mundo, com sua lógica nem sempre cristã, para nele sermos luz. Vamos mostrar que o adolescente não é uma ilha, não está isolado nem é vítima do mundo, mas um agente qualificado para a transformação dele. Queremos ajudar os adolescentes a vencer aquela visão passiva de que o mundo está aí e nós temos de aceitar as coisas como são. É preciso ajudá-los a ter uma visão de quem vê além, de quem acredita que pode lutar por um mundo melhor. Não é somente utopia, é a força transformadora da fé.

d) Módulo 8: Comprometer-se. Nesse último módulo, pensamos em ajudar o adolescente a entender o sentido bonito do compromisso que a fé desperta em nós. Em geral, a palavra compromisso soa pesada. Mas, se vista de outro modo, à luz da fé, compromisso pode ser palavra transformadora. Como se trata de encerrar uma etapa importante, podemos fazer uma revisão do que é fundamental em nossa fé católica, provocando no adolescente, quase jovem, a atitude de se comprometer a viver a vida de modo cristão, como autêntico discípulo e missionário de Jesus.

ALGUMAS QUESTÕES FINAIS

a) Onde ficam os sacramentos nesse processo? Os sacramentos da iniciação cristã são muito importantes. Mas não devem ser, no nosso modo de pensar, o objetivo em si da catequese. O objetivo é a iniciação cristã. Os sacramentos são momentos fortes de celebrar a fé que vamos vivenciando no processo de iniciação cristã. Se uma criança começa esse processo desde os 5 anos, sugerimos que faça a primeira comunhão e a primeira confissão no final do módulo 4 ou durante esse módulo. Nessa fase, estará concluindo o processo de experimentar os pontos essenciais da fé. É hora de celebrar a comunhão da fé: com Cristo e com a Igreja. Sugerimos que a crisma seja celebrada no final do módulo 8 ou durante esse módulo. O adolescente estará com 15 anos e terá, pelo conteúdo já visto, boa bagagem para assumir o compromisso de ser um jovem católico, com todo o sentido que isso tem.

b) E a continuidade do processo? Depois do módulo 8, depois da crisma, pensamos que o adolescente já possa fazer parte da pastoral da juventude e, assim, engajar-se na comunidade, continuando aí a sua formação. Pensamos – para o futuro, querendo Deus – em preparar subsídios para jovens, dando continuidade à coleção. Isso depende de muitos fatores.

c) E a catequese com adultos? Hoje se fala muito em catequese com adultos. Concordamos plenamente que não adianta formar na fé as crianças e adolescentes sem ajudar os adultos a fazer a experiência de fé. Concordamos também que muitos adultos que já receberam os sacramentos não estão ainda suficientemente catequizados. Nosso sonho é ter um material voltado para os adultos. Mas vamos lembrar que, ao falar de jovens e adultos, estamos falando da catequese em sentido um pouco mais amplo, não imaginando necessariamente encontros semanais como fazemos com as crianças e com os adolescentes, embora não excluindo isso também. Assim, podemos imaginar que a pastoral da juventude seja para os jovens uma experiência catequética e que a pastoral familiar e as demais pastorais ajudem os adultos a fazer suas experiências de fé. Mas nada impede, por exemplo, que elaboremos um material catequético com os mesmos princípios orientadores da catequese de crianças e adolescentes. Jovens e adultos, como são muito sacramentados e pouco evangelizados, precisam também fazer as seis experiências acima citadas. Hoje, mais do que nunca, neste mundo secularizado, torna-se imperativo não pensar a catequese dos adultos como uma escola teológica, mas como um processo de mergulho no mistério de Deus. Nossos adultos já não conhecem Jesus Cristo, seu evangelho, sua proposta. É preciso ajudá-los a fazer essa experiência de fé.

d) E a catequese para pessoas com deficiência? Imaginamos que pessoas com deficiência devam ser integradas, tanto quanto possível, nas turmas regulares de catequese da paróquia. Não podemos perder de vista a necessidade de integração dessas pessoas na comunidade. Evangelizá-las em turmas separadas não nos parece boa ideia. Casos em que isso não seja realmente possível sejam tratados então de forma especial, de acordo com cada situação.

e) E o livro do catequizando, a coleção não traz? Realmente, a Coleção CATEQUESE PERMANENTE não prevê um livro para o catequizando. Nossa ideia é que o catequista tenha um livro que o ajude nos encontros e, assim, encontre a melhor maneira de passar sua experiência de fé para a turma, mas sem deixar a catequese ficar parecendo escola. Mesmo porque entendemos a catequese como um processo mais afetivo, para tocar mais o coração e não para ser escrito em livros ou simplesmente decorado. Nossa preocupação é oferecer um bom subsídio ao catequista, que, bem formado e orientado, saberá conduzir os catequizandos à experiência da fé. Quanto à didática da catequese, ao modo de realizar cada encontro, sugerimos que seja consultado o livro Elementos de didática na catequese, também de nossa autoria e da mesma editora. Nesse livro, o catequista aprende como conduzir um encontro sem necessidade de livros para o catequizando. Na maior parte das vezes, o desejo de ter um livro para o catequizando brota da insegurança do catequista, que se sente mais confortável quando o catequizando tem algo em mãos. É um resquício da catequese como aula de doutrina religiosa. Queremos superar esse conceito, mostrando que um encontro de catequese deve ser muito diferente de uma aula de doutrina. Isso exige capacitar os catequistas quanto à metodologia e didática do encontro.

f) Mas o livro básico da catequese não é a Bíblia? Para que tantos livros para o catequista? Concordamos plenamente que o livro central para o processo catequético é realmente a Bíblia Sagrada. Mas sabemos que os catequistas precisam de formação para entender a Bíblia, fazer a correta exegese e descobrir em cada relato a força para a vida. Nossa coleção é para formar o catequista, dando-lhe instrumentos pedagógicos para exercer seu ministério, ajudando-o a compreender a Bíblia Sagrada, mas não só. O processo catequético não deve se limitar a simples leitura da Bíblia. A catequese não é simples estudo bíblico, apesar de a Bíblia ser a sua fonte principal. A catequese, apesar de afetiva, envolvente, mistagógica, existencial, é processo orgânico e sistemático. É nesse sentido que a Coleção CATEQUESE PERMANENTE quer contribuir. Sobre o uso da Bíblia na catequese, há documentos importantes da Igreja. Na coleção, damos dicas de como se dará a leitura da vida à luz da Bíblia Sagrada.

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