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“Misericórdia eu quero, não sacrifícios” .
(Mt 12,7)
A misericórdia é com certeza uma das características principais do Deus que Jesus Cristo veio nos revelar. Em todas as suas obras e palavras, Jesus mostra que Deus é misericordioso e bom, capaz de compadecer-se de todos. A expressão “quero misericórdia, não sacrifícios” diz com clareza a opção de Jesus, e de Deus, seu Pai, pela bondade em vez dos sacrifícios litúrgicos. Antes de qualquer regra litúrgica, antes de qualquer rubrica, antes de qualquer preceito, está a vida humana a exigir misericórdia, sempre. A liturgia e seus rituais, naquela época ditos como sacrifícios de animais, só pode ser autêntico culto a Deus se revelar essa misericórdia, esse cuidado com a vida. Fora isso são preceitos vazios, que não agradam a Deus.
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“Bem-aventurados os misericordiosos, porque encontrarão misericórdia”
(Mt 5,7)
A misericórdia não é um sentimento, mas uma ação em favor dos necessitados. Importa prosseguir no caminho do bem. Ser misericordioso é reproduzir o agir de Deus, cuja misericórdia é destinada a todas as pessoas. É preciso fazer o bem ao próximo, com opção pelos mais necessitados. Todos nós somos devedores a Deus que, na sua misericórdia, nos fez seus filhos e irmãos uns dos outros. Diante da misericórdia infinita de Deus, estamos sempre “em falta” com ele e com os aqueles que nos rodeiam. Aqueles que exercem a misericórdia encontrarão misericórdia, ou melhor, serão misericordiados.
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“Não desapareceu o alimento de nossos olhos, a alegria e o júbilo da casa de nosso Deus?”
(Jl 1,16)
Se tem algo sagrado nessa vida é o alimento. A ele todos têm direito. Quando ele desparece, a alegria e o júbilo também se extinguem. E desaparecem não só de nossos corações e de nossas casas, mas desaparecem também da casa do Senhor, do culto, da liturgia. A carestia e a escassez de alimento num país são sinais de que a injustiça campeia e a maldade reina. Um governo que deixa a população morrer de fome, que empurra as classes mais baixas para a miséria, não pode ser considerado legítimo e deve ser destituído.
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“A minha alma engrandece o Senhor e meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador”
(Lc 1,47)
Ao final de mais um ano, especialmente em tempos de pandemia, a nossa alma deve engrandecer ao Senhor por sua bondade e se alegrar em Deus, pois ele nos deu forças e nos manteve firmes na resistência. Enquanto os malvados tentaram nos matar de fome, de desalento e de covid 19, o bom Deus nos guardou e nos fortaleceu. Por tudo, damos graças.
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“Não são justos diante de Deus os que se contentam de ouvir o ensino da Lei, mas aqueles que a observam”
(Rm 2,13)
Paulo critica os judeus integristas que se contentam em escutar, ler e estudar as leis religiosas. Bem mais importante que isso é a abertura de coração para acolher o movimento da vida, que deu origem à lei e que a justifica. Se uma lei, ainda que religiosa, não vai na direção da defesa da vida do menor dos irmãos, ela é vazia e deve ser questionada. Mais importante que observar leis escritas em tábuas de pedra ou em folhas de papel, é obedecer a lei de Deus inscrita em nossa consciência, pois ela é o sacrário no qual Deus habita.
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“Eu não me envergonho do evangelho, pois ele é força salvadora de Deus para todo aquele que crê.”
(Rm 1,16)
Diante das tribulações, o apóstolo dos gentios afirma que não se envergonha do evangelho, ao contrário ele o considera força para viver. Certamente a radicalidade do evangelho de Jesus, que prioriza o cuidado com os vulneráveis e aponta a ganância dos poderosos, atrai os olhares perversos e nos faz alvo de críticas e perseguições. É preciso seguir firme sem desanimar, sem enfraquecer a boa-nova, sem negociar sua potência transformadora.
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“Vede minhas mãos e meus pés. Sou eu mesmo.”
(Lc 24,39)
O Ressuscitado é e não é o mesmo Crucificado. É o mesmo, pois não se trata de uma alma penada ou de um espírito que sai do mundo dos mortos para se comunicar com os discípulos. É Jesus mesmo, na sua identidade total, com sua presença amiga e companheira que se manifesta a eles pela fé. No entanto, trata-se de uma presença na ausência, tão sutil e singela, que pode ser confundida com uma pessoa qualquer ou pode não ser identificada à primeira vista. Ao mostrar o lado e os pés para seus discípulos, o Ressuscitado garante sua identidade de Crucificado. Suas chagas estão lá, mas não doem mais, não maltratam mais, pois agora ele vive para além dos limites da história.
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“A Lei do Senhor está no seu coração; seus pés não vacilam”
(Sl 37,31)
No íntimo de nós, lá está inscrita a lei do Senhor. Em nossa consciência, ele registrou os impulsos da vida e despejou o clarão de sua luz. Nosso coração se tornou, pois, lugar de sua morada; a tenda em que sua palavra habita. Já não procuramos nos livros sagrados a sua Lei, nem nos rituais religiosos a nossa redenção. Desde que o Verbo Divino se fez carne, tornamo-nos sua Palavra viva, a página sagrada na qual ele registra sua marca. Assim, marcados por seu selo, seguimos confiantes sem jamais vacilar os pés, pois ele está conosco.
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“Tu me deste teu escudo salvador, tua mão direita é meu apoio”
(Sl 18,36)
Aquele que tem fé enfrenta as injustiças e ameaças da vida na certeza de que não está só. Deus, que é seu escudo protetor, está sempre com ele apoiando-o com sua mão forte. Isso não significa que o crente tem uma proteção divina especial que o preserva de todo mal. Em tempos de coronavírus, há aqueles que em nome da fé se arriscam a sair sem máscaras, não têm os cuidados recomendados com a higiene e muito menos aceitam fazer o isolamento social. Se acham invencíveis e agem como imprudentes e loucos, como se a fé lhes guardasse da contaminação e dos riscos da doença. Mera insensatez e pura loucura. Crentes e não crentes adoecem e morrem. O escudo salvador de Deus não nos tira do mundo nem nos faz invencíveis. Ele apenas nos coloca no horizonte da confiança e nos capacita para agir com sabedoria e discernimento.
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No princípio era a palavra, e a Palavra estava junto de Deus, e a Palavra era Deus.
(Jo 1,1)
Deus escolheu ser palavra, porque ela constrói pontes, reforça laços de amizade, suspende divergências. O Deus Trino não poderia ser silêncio indiferente, nem gritaria estúpida. Palavra criadora, ele se manifesta entre nós, restaurando nossas forças e curando nossas mazelas para o diálogo fecundo com o diferente.
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“Não terás outros deuses além de mim”
(Ex 20,3)
Uma tentação que sempre perseguiu o povo da Bíblia é a de trocar o Deus da vida por ídolos, que prometem vida fácil, prosperidade, cura, ausência de sofrimentos e angústias. Daí o mandamento categórico da Escritura: “Não terás outros deuses além de mim”. Infelizmente, esse versículo foi interpretado equivocadamente, justificando a perseguição a religiões afrobrasileiras e a outras denominações, como se o Deus de Jesus Cristo fosse um déspota que se impõe pela força, nega a diversidade e obriga a um culto hegemônico. Ao contrário, ter outros deuses significa absolutizar outros valores que não a vida, cujo princípio vem Deus; significa deixar de lado o único valor que realmente importa: a vida humana e de todo ser vivo do planeta.
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Não temais, pequeno rebanho, porque foi do agrado de vosso Pai dar-vos o Reino
(Lc 12,32)
A pequenez dá medo, sobretudo porque fomos educados a achar que somente a grandeza é bela, que apenas a imponência é respeitável, que só a estabilidade e a perenidade são desejáveis. Vã ilusão… Primeiro porque, desde o chão de nossa humanidade, nunca seremos assim tão inteiros, tão estáveis, tão imortais, tão eternos.
A fragilidade nos constitui, a pequenez nos emoldura a vida, a provisoriedade e a finitude são a forma de nossa existência. E mesmo as rachaduras do coração, marcas de sua história, são parte inerente de seu ser. E, segundo, porque foi a essa nossa pequenez que o Pai decidiu oferecer o Reino.
Não por nossas grandiloquências, mas por bondade dele mesmo. Já é uma esperança para os pés cansados dos caminhos e os olhos já desgastados pelo cansaço da finitude A pequenez dá medo, sobretudo porque fomos educados a achar que somente a grandeza é bela, que apenas a imponência é respeitável, que só a estabilidade e a perenidade são desejáveis. Vã ilusão… Primeiro porque, desde o chão de nossa humanidade, nunca seremos assim tão inteiros, tão estáveis, tão imortais, tão eternos.
A fragilidade nos constitui, a pequenez nos emoldura a vida, a provisoriedade e a finitude são a forma de nossa existência. E mesmo as rachaduras do coração, marcas de sua história, são parte inerente de seu ser. E, segundo, porque foi a essa nossa pequenez que o Pai decidiu oferecer o Reino.
Não por nossas grandiloquências, mas por bondade dele mesmo. Já é uma esperança para os pés cansados dos caminhos e os olhos já desgastados pelo cansaço da finitude…
A pequenez dá medo, sobretudo porque fomos educados a achar que somente a grandeza é bela, que apenas a imponência é respeitável, que só a estabilidade e a perenidade são desejáveis. Vã ilusão… Primeiro porque, desde o chão de nossa humanidade, nunca seremos assim tão inteiros, tão estáveis, tão imortais, tão eternos.
A fragilidade nos constitui, a pequenez nos emoldura a vida, a provisoriedade e a finitude são a forma de nossa existência. E mesmo as rachaduras do coração, marcas de sua história, são parte inerente de seu ser. E, segundo, porque foi a essa nossa pequenez que o Pai decidiu oferecer o Reino.
Não por nossas grandiloquências, mas por bondade dele mesmo. Já é uma esperança para os pés cansados dos caminhos e os olhos já desgastados pelo cansaço da finitude…