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98. Sem culpa

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09.08.2016 | 5 minutos de leitura
Crônicas
98. Sem culpa

“Feliz aquele cuja culpa foi cancelada” (Sl 32,1)


“A imensidão do vazio me preenche
Um vazio povoado de presença e graça
A graça de poder estar presente
No silêncio, no vazio, sem culpa”.
(Solange do Carmo e João Júnior)


 


O tema da culpa é recorrente na arte: nos romances, na pintura, no teatro, na poesia, na música, no cinema... Já foi também posto em debate e teorizado por acadêmicos com extensos currículos lattes. Já ocupou horas de analistas e outros psicólogos nos consultórios. Já rendeu dor de cabeça a muitos e cofres cheios a outros. Explorada por pastores sem escrúpulos, nas diversas Igrejas, já foi fonte de manipulação e domínio do outro. A culpa marca a existência humana. E não é exclusividade do mundo da religião, como pensam alguns. O desejo de viver sem culpa habita os recônditos do coração humano. No fundo, todos nós desejamos“pedir menos desculpas, sentir menos culpa” (autoria desconhecida).


Está em cartaz o novo filme do Almodovar, Julieta. Não sou dada a comentar filmes; não sou perita no assunto nem quero sê-lo. Mas o tema da culpa, que perpassa toda a película, faz pensar. E ainda mais: faz pensar o tema do religioso como lugar do escondimento da culpa, essa carrasca que tiraniza a vida da gente. Também isso não é novo. Muitos outros livros e filmes já estabeleceram esse diálogo entre a culpa e a religião, se é que a culpa dialoga com algo ou com alguém. No filme, uma jovem de dezoito anos vê a culpa ganhar fôlego dentro de si, depois da morte de seu pai. Tudo começa quando uma empregada da casa lhe revela as condições em que seu pai teria falecido. Bastou uma única palavra malévola para que a culpa ganhasse vulto; virasse um monstro. A jovem, então, se refugia numa comunidade religiosa no alto dos Montes Pirinéus. Tendo encontrado ali o alento para sua culpa, abandona a mãe e o amor de sua vida (uma companheira de infância) e assume outro modo de ser, longe de todos e de tudo que lhe lembrasse o passado.


Não é de hoje que sabemos que a culpa não é boa conselheira. Motivados por ela, podemos ver nossa vida ruir. Não é de hoje também que sabemos que uma única palavra má pode provocar tsunamis pessoais que marcam histórias inteiras; pode provocar ruínas que não deixam possibilidades de reconstruções. Multidões têm procurado divãs tentando calar a boca dessa inquilina indesejada. Na religião católica, os confessionários estão repletos de casos bizarros, nos quais a culpa foi o carro-chefe do desatino. Há até uma expressão inglesa: catholic guilt (culpa católica), para designar o excesso de sentimento de culpa. Muitos profissionais das áreas humanas, diante desses casos, não sabem o que fazer, afinal ajudar as pessoas a conviverem com seus dramas pessoais não é mesmo nada fácil.


Durante muito tempo, a fé cristã esteve tatuada pela mácula da culpa. Em nome de Deus se amedrontava, se torturava o penitente, impondo a ele uma culpa ainda maior que a que ele próprio já se imputava. Coisa estranha, certamente, pois o Nazareno a quem seguimos não aparece nos Evangelhos usando essa tática para corrigir ou converter ninguém. Ao contrário, quando abrimos as páginas dos Evangelhos, encontramos Jesus consolando, curando, amando, acolhendo, justificando, desculpando, ou ainda, desculpabilizando os pecadores. É o caso da mulher pecadora, pega em adultério, relatado em Jo 8. Enquanto todos a culpavam, Jesus a justifica. Enquanto todas a silenciavam, Jesus lhe dá direito a voz. Enquanto todos a apedrejavam, Jesus lhe estende a mão. Ensinados pelo Mestre Jesus, nós cristãos sabemos que a culpa não anda junto com a fé, mas com a desconfiança. Ela não é parceira do amor, mas da intransigência e do rigorismo. Ela não se atrela à gratuidade, mas se coliga com o legalismo. E desconfiança, intransigência, rigorismo, legalismo e outros afins não fazem parte do universo cristão.


Estranhamos, então, quando bem debaixo do nosso nariz, ainda encontramos líderes religiosos culpabilizando as pessoas e usando da culpa para dominar e tirar proveito. Quando é que vamos parar de instrumentalizar a fé em nosso proveito? Quando é que vamos dar à religião a função que lhe é mais genuína: fazer livres todas as pessoas? Quando é que vamos seguir em frente sem os fantasmas da culpa? Por que caminhos podemos andar de forma que essa tirana não nos persiga? Se a fé cristã, em vez de ajudar a libertar e salvar, servir para oprimir e condenar, terá traído suas origens. Terá negado o legado de Jesus, sua vida e seus ensinamentos.


“Feliz aquele cuja culpa já foi cancelada!”, exclama o salmista. O que estamos tentando viver ainda hoje, o salmista há mais de mil anos atrás já tinha experimentado: uma vida sem culpa, na confiança plena de que Deus é bom. Não seja para nós a fé cristã um placebo para nossas dores dilacerantes! Não seja a religião cristã uma válvula de escape para fugir do mundo e de nós mesmos! Não sejam nossas igrejas refúgios de covardes que não conseguem viver com suas próprias culpas e neuroses. Não seja a vida eclesial esconderijo para aqueles que não toleram o silêncio, o vazio e o encontro consigo mesmo! Não seja o evangelho instrumento de tortura em vez de palavra que faz viver!







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