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53. Eucaristia: uma reflexão a partir das linguagens

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10.06.2020 | 7 minutos de leitura
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53. Eucaristia: uma reflexão a partir das linguagens

Para entender transubstanciação em Tomás de Aquino há de se compreender o hilemorfismo aristotélico, o que torna tudo mais complicado (Jacob Bentzinger / Unsplash)


Termos como transubstanciação, embora corretos, são comumente mal interpretados


A linguagem é viva. Ao mesmo tempo que ela evolui e se desenvolve, podemos perceber conceitos que acabam por se cristalizar. Uma vez que aquela continua se transformando, o uso de alguns destes, ainda que corretos, acabam por trazer mais incompreensões que esclarecimentos. Na semântica teológica cristã temos muitos termos que, no seu lugar originário, fazem todo o sentido para a fé, mas, no uso cotidiano, criam dificuldades para os fiéis não iniciados teologicamente ou nem mesmo bem iniciados. Alguns desses conceitos precisam estar sempre sendo ressignificados, porque não há outros que os possam substituir; outros, no entanto, podem ser substituídos, para que melhor comuniquem às pessoas de nosso tempo.


No caso da Eucaristia, a fim de que nossa relação seja cada vez melhor experimentada e assimilada – tanto com o sacramento em si, quanto com as espécies eucaristizadas na piedade devocional –, essa questão da linguagem é fundamental. Como temos discorrido nas últimas semanas, não é porque acreditamos na presença real de Cristo na Eucaristia que nossa devoção deva ser vivida de qualquer modo, pois, muitas vezes, ela acaba por se tornar idolátrica, como já explicado num dos artigos anteriores. A fé não é um bloco de verdades que se aceitam: parte de uma experiência que tem sua própria inteligência (que significa ler desde dentro). As verdades de fé são nascidas de uma experiência; pararmos no dogma, aceitando-o sem mais, apenas, não significa que tenhamos feito uma experiência de fé. A fé busca compreender, como já nos inspirava Santo Anselmo.


Para ler desde dentro, isto é, para perscrutar a inteligência da fé, é preciso que deixemos de lado as paixões. O ardor da fé não se confunde com elas, que tendem a nos colocar na defensiva. Digo isso, compreendendo que todas as vezes em que propomos uma reflexão crítica acerca de temas mais sensíveis à piedade, a postura reativa é visivelmente de defesa, como se criticar constituísse, de antemão, ataque à fé ou negação de suas verdades. Nessa linha, de nada vale, pois, citações dos Catecismos da Igreja, seja o vigente, seja os de antigamente que foram destinados a seus próprios tempos, se não temos condições de compreender o que neles se diz, verdadeiramente.


Das muitas reações aos artigos que precederam a este, torna-se bastante perceptível uma dificuldade de linguagem, que torne mais acessível a experiência eucarística em sua riqueza, e para além do pietismo subjetivista. Círculos carismáticos, no catolicismo, tornaram mais presentes, no cotidiano religioso, o Culto Eucarístico fora da Missa, mais conhecido como Adoração ao Santíssimo. O costume da adoração ao Santíssimo Sacramento remonta ao século 12, em meio às controvérsias eucarísticas que dominaram esse período. Desde então, tal culto faz parte da piedade católica, e, na atualidade, com o movimento carismático, tornou-se muito mais comum e, infelizmente, muitas vezes exagerado. Sobre a Adoração ao Santíssimo Sacramento voltaremos a falar na próxima semana.


No entanto, a constatação do papel exercido pelo movimento carismático, nessa hipervalorização do culto eucarístico fora da missa, fez com que a linguagem eucarística, tão própria do período escolástico, viesse à tona em nossos tempos. Em si, isso não é um problema, já que são conceitos que compõem a semântica teológica. O problema é quando o uso desses conceitos não ajuda mais numa pertinente compreensão, em nossos tempos, uma vez que a estrutura do pensamento atual já se distanciou, não apenas temporalmente, mas conceitual e formalmente da estrutura do período medieval. O exemplo mais clássico disso é o termo transubstanciação. Conceito eminentemente do período escolástico, ele se refere à transformação do pão e do vinho, em Corpo e Sangue de Cristo.


Contudo, só bem entendemos o que realmente significa transubstanciação, assim expresso, caso conheçamos bem a respeito do hilemorfismo aristotélico (difícil, não é mesmo?!), tão presente na teologia de Santo Tomás de Aquino, bem como o conceito de substância usado na antiguidade, que não tem nada a ver com o sentido que usamos atualmente. A palavra transubstanciação continua correta, para dizer o que acreditamos se dar, por força do Espírito Santo, com o pão e o vinho. O uso da palavra em nossos tempos, no entanto, é antipedagógico, porque não contribui para que compreendamos bem, a partir de nossa estrutura de pensamento moderno, o que ela realmente significa.


A banalização do termo transubstanciação – que é uma palavra correta, torno a dizer! – é uma das causas responsáveis por uma compreensão equivocada da materialidade do pão e do vinho consagrados que, na perspectiva de muitos, deixa de ser pão e vinho, do ponto de vista material e químico, e se torna o composto orgânico do corpo e do sangue de Jesus. Ora, eucaristia, definitivamente, não é isso! A mudança é sacramental e não material: a hóstia, depois de consagrada, continua sendo hóstia, do ponto de vista material; e isso não significa dizer que nessa hóstia consagrada, que continua sendo hóstia, não está realmente presente o Cristo. A confusão é causada, justamente, porque continuamos a repetir que há uma mudança na substância, sem que compreendamos o que se queria dizer com este termo há sete séculos e que, para nós, hoje, é usado do ponto de vista químico e, logo, material.


No lugar, pois, do termo transubstanciação, é mais pedagógico que optemos por outros, tais como transformação, mudança. Além de pedagogicamente melhores, esses termos nos ajudam mais, a melhor compreender o papel do Espírito Santo, por exemplo, na Eucaristia (como sacramento!), bem como a importância do pão e do vinho eucaristizados na celebração da fé. Esses são termos que, ao contrário do termo escolástico, tornam possíveis a elaboração compreensiva de uma experiência, e não a pura racionalização do conceito. Afinal, Jesus se deu no pão e o no vinho, para que os seus discípulos e discípulos dele façam experiência e, assim, colham os frutos espirituais dessa comunhão. O papel da catequese é tornar acessível experiências, profundas e legítimas, e não a racionalização da fé, pela apreensão de conceitos. A inteligência da fé passa, pois, por experiências, e não pelo mero exercício racionalizante. Nessa perspectiva, cuidar da linguagem é fundamental.


A insistência nos nossos artigos sobre a eucaristia, em repetir a expressão “pão e vinho eucaristizados”, por exemplo, tem por função chamar a atenção de que, após a consagração, isto é, a bênção de ação de graças, o pão continua pão e o vinho, vinho, materialmente: a mudança, a transformação, se dá em outro nível: é corpo e sangue de Cristo, só que sacramentalmente e esse é o grande valor salvífico para nós. Isso não é, em definitivo, desvalorizar a Eucaristia: muito pelo contrário, é compreendê-la no seu justo lugar, de modo sadio e verdadeiramente espiritual. Uma má compreensão a respeito das espécies eucarísticas, muito baseadas numa linguagem imprópria para nosso tempo, dá margens à absolutização e à fetichização da eucaristia, como já temos insistido há semanas, neste espaço. Na próxima semana, a catequese continua!







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