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51. Fé antirracista

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04.06.2020 | 4 minutos de leitura
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51. Fé antirracista
Quem haverá de reconhecer a imagem do Cristo num ícone quando foi apresentado a um jovem Cristo europeu de cabelos loiros? (Pixabay)

As discussões sobre o racismo contra os negros no meio religioso
ainda não alcançaram os ecos necessários


Quando um homem negro é asfixiado por um policial branco ou quando um garoto negro é assassinado por policiais dentro da sua casa e tem seu corpo identificado no IML depois do seu desaparecimento percebido pela família nós precisamos, uma vez mais falar em racismo. O preconceito, a discriminação e a violência são provocados por indivíduos a outros simplesmente em virtude da cor da pele. Na maioria dos casos, as vítimas são negras, homens ou mulheres, em qualquer lugar do mundo.


Isso se dá por razões não tão óbvias, mas que têm sido trazidas à tona por competentes pesquisadores/as negros/as ou por interessados/as nesse tema que atinge alvos vulneráveis independente da idade e do sexo. Enganamo-nos compreendendo o racismo como uma doença presente nas células das nossas sociedades. Mais que isso, o racismo é como o tecido no qual nossas relações ocidentais estão costuradas. Nesse sentido, podemos dizer que ele é parte do jogo realizado entre os corpos e as instituições, de modo a garantir que os papéis sociais, culturais, econômicos e religiosos continuem sendo desempenhados pelos mesmos atores.


Por essa razão, para que nossa sociedade siga confluindo a mesma organização estabelecida há décadas, é preciso garantir estruturas e personagens racistas que têm a missão de mantê-lo enquanto fenômeno para que uma transformação, diga-se de passagem, inevitável e necessária, aconteça. A manutenção do racismo é a garantia que seguiremos as regras do ocidente de matrizes europeias: patriarcal, branca, burguesa e cristã. Uma sociedade racista garantirá que os lugares e espaços de poder sejam ocupados por seus esteriótipos e padrões. Além disso, fará perpetuar uma narrativa de rebaixamento da autoestima das pessoas negras, sobretudo quando essas assumem suas identidades e se organizam em redes de solidariedade e afirmação, principalmente quando se vêem representadas, ainda que em menor proporção, em lugares e espaços de fala e decisão.


Se olharmos para o cristianismo e o modo como ele organiza suas estruturas de poder e de fala, veremos que a fé cristã atravessou os séculos afirmando a manutenção do status quo das sociedades racistas. Jesus Cristo passou por uma espécie de embranquecimento que lhe rendeu pinturas e esculturas de pele clara, fina e olhos azuis, às custas das cores e dos formatos do povo que ele pertenceu. Quem haverá de reconhecer a imagem do Cristo num ícone quando foi apresentado a um jovem Cristo europeu de cabelos loiros?


A perpetuação dos símbolos e das imagens religiosas cristãs assumidas sem os devidos questionamentos e problematizações acabam por promover uma catequese falsificada e, além disso, um subjugação das pessoas negras nas esferas de fala, decisão, ensino e pesquisa das instituições religiosas, bem como seu ocultamento nos seminários, congregações religiosas, paróquias e comunidades. Também no âmbito das religiões, o racismo serve às mesas como mãos de obra barata, tudo em nome do evangelho. O de Jesus Nazareno certamente não é.


Mas as discussões sobre o racismo contra os negros no meio religioso ainda não alcançou os ecos necessários para que a realidade de muitas existências passem a ser consideradas. As comunidades cristãs nem sequer levantam mais a voz para denunciar a série de crimes bárbaros cometidos contra esse enorme grupo de pessoas, porque o racismo está tão entranhado nas suas estruturas eclesiais quanto a alma está entranhada no corpo constituindo uma integralidade. No fundo, é só mais uma maneira de cultuar a morte e impedir que a vida plena e abundantemente de Cristo alcance a todos, ele cujo rosto escapa aos esteriótipos, pois nele todos somos.







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