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4. Revelação

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20.12.2017 | 3 minutos de leitura
Contos
4. Revelação

O tilintar dos talheres se interrompeu quando o filho – um jovem com os cabelos decentemente deitados para a direita, tão cuidadosamente arrumados e lambidos, com um nariz comprido, com os lábios finos e as maçãs da face mais avermelhadas que o sangue – resolveu abrir-se com os pais.


Os pais olharam firmes para o filho quando ele começou;


“Gostaria de dizer-lhes algo muito sério...”


Num átimo, a mãe viu todas as louças quebradas no chão e o pai viu o carro incendiado. As imagens automáticas quase saltaram da mente do casal que sentiu certo apavoramento com a solenidade do filho.


“Eu não sou como os outros rapazes”


O pai já esfregou a mão no rosto. A mãe desesperou, engasgou com a própria saliva e ameaçou um desmaio. Mas fingiram compostura.


“Eu gosto de...”


A mãe surtou. Por trás de suas retinas era como se ela estivesse sem casa, sem família, sem ar; morta. Gosta do quê? – pensou. Gosta do quê?


“Eu gosto de Kiwi” – terminou ele.


Foi o fim.


Foi decepcionante.


O pai se sentia desolado. A mãe destampou o choro mais doído que sabia chorar. Entre lágrimas e lamúrias, quase como se tivessem recebido a notícia de uma tragédia – e era assim que entediam – se perguntava soluçando onde tinham errado.


“Eu não terei um filho que gosta de kiwis” – retrucou o pai dando lugar à raiva. “Não foi para isso que lhe criei. Meu filho tem que gostar de tangerinas, de uvas, de peras. Eu não admito. Eu prefiro um filho morto, a um filho que goste de kiwis”.


“Mas pai...” – tentou o filho. A mãe, levantando-se, foi até a pia derramar suas lágrimas no ralo. Voltou-se para o menino procurando manter a sanidade:


“Tem certeza, filho? Às vezes é só uma fase, meu bem” – disse virando-se para o marido.


“O que vou dizer para os meus amigos, Joana. Como eu vou explicar que nosso filho gosta de Kiwi pro resto da família, Joana... Eu prefiro um filho morto a um filho que gosta de kiwi, Joana. A culpa disso é sua Joana.”


“Todo mundo já sabe, pai...” – disse o menino começando a chorar.


A mãe destampou a chorar de novo...


O menino se levantou, subiu para o quarto. Fez as malas, derramou algumas lágrimas nas meias, ergueu-se resoluto e desceu as escadas. Os pais, agora mais calmos, num canto da sala, o olharam e se entreolharam. Fizeram silêncio. Ele saiu e eles não o impediram. Não fizeram nada. Preferiam a dor da casa vazia à alegria de compreender o que é ter um filho que gosta de kiwi, e não de tangerinas, uvas ou peras...




  • Fotografia de Roberto Cardoso






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