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40. Palavra de Deus II

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30.09.2016 | 4 minutos de leitura
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40. Palavra de Deus II

Assim como a noção de inspiração se mostra definidora da compreensão dos textos bíblicos, o mesmo acontece com a noção de revelação. Esta, se entendida como um conjunto de verdades que Deus dá à sua Igreja, ou seja, um depósito da fé da qual a Igreja é guardiã, trará uma leitura bíblica a partir da doutrinação, da defesa dos dogmas, da justificação das posturas que a Igreja assumiu ao longo dos anos: seus sacramentos, seus mandamentos, sua liturgia, suas orações, sua organização eclesial etc. Se, no entanto, a revelação é entendida como a autocomunicação de Deus em Jesus Cristo, ou seja, Deus não comunica coisas ou verdades, mas ele comunica a si mesmo no seu Filho, então a leitura da Escritura Cristã terá outra hermenêutica. Na primeira, a Igreja possui a verdade; na segunda, ela é serva da verdade, está sujeita a ela.


As noções de inspiração e revelação norteiam a leitura dos relatos bíblicos. Seria muito bom que todo catequista tivesse noções elementares de teologia bíblica, começando pelos conceitos de inspiração e revelação. Evitaria muitas catástrofes: traumas, culpas, ignorâncias, conflitos com a ciência, ruptura com outras denominações e crenças, preconceitos, rigorismos em nome da fé. Não sendo possível, melhor contar com roteiros catequéticos de alguma coleção bem confiável que trazem no seu desenvolvimento o aprofundamento bíblico necessário ao catequista.


Uma boa capacitação bíblica ao catequista é aconselhável, mas ainda não resolve os problemas da bíblia na catequese, pois catequese não é curso bíblico. Na catequese, a bíblia não é para ser ensinada, apesar de um pouco de ensino ser fundamental nos encontros. Na catequese do tipo encontro, ou seja iniciática, a bíblia é a geradora da conversa. A partir dela, o encontro vai acontecer. O relato da Escritura será o ponto de partida, aquele “pontapé inicial” que faz desenrolar todo o jogo. Por isso os textos escolhidos são tão importantes. Eles devem ser estudados com afinco, mas – mais que isso! – devem ser rezados, meditados, aprofundados. Devem se tornar vida para quem vai comunicá-los. Devem ganhar significado e sentido na própria vida do catequista. Depois, ficará fácil levá-los para os encontros e deixar Deus se dizer na conversa com a turma nas palavras humanas.


Na catequese iniciática, a bíblia não é ensinada; nem por meio dela se justifica e autoriza a doutrina da Igreja. Os relatos bíblicos são trazidos para a vida no desejo de que a mesma experiência geradora do relato seja atualizada na vida dos catequizandos. Se a Palavra de Deus é viva, ela continua operante. Sua narratividade é capaz de garantir sua atualização. Quando proclamada, aprofundada, partilhada, aqueles que a acolhem estão sujeitos à experiência do Deus vivo que se manifestou na comunidade que a gerou. É essa experiência de fé que interessa à catequese e não um estudo sistemático e cognitivo de suas partes, métodos etc. Isso, apesar de sua riqueza acadêmica, seria estéril. Todo método exegético e toda possibilidade hermenêutica estão em função da experiência de Deus, da comunicação de Deus mesmo aos ouvintes de sua Palavra. Essa é a força da Escritura!


A Palavra de Deus faz viver. Ela tem força transformadora. Como disse Isaías, ela é como a chuva que não volta para o céu sem antes ter fecundado a terra. A Palavra dele não sai da boca do Senhor e volta sem produzir seu efeito que é transformar os corações, mudar as vidas desde dentro. Acolher essa Palavra na cotidianidade da vida, gerando comunhão e partilha, é umas das experiências mais edificantes que a vida de fé oferece. Todo zelo e tempo gastos com a preparação do texto ainda será pouco. Será vantajosa para aquele que a ela se dedica com esmero – o catequista – e para aqueles que a acolhem de coração generoso – os catequizandos.







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