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237. Debaixo de um junípero

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06.08.2020 | 4 minutos de leitura
Crônicas
237. Debaixo de um junípero

“Elias adentrou o deserto e caminhou o dia todo.
Sentou-se, finalmente, debaixo de um junípero
e pediu para si a morte” ” (1Rs19,3-4)


 


“Também sou teu povo, Senhor,
estou nessa estrada,
Perdoa se às vezes,
não creio em mais nada

(Pe. Zezinho)


 


Vivemos tempos difíceis. Atravessamos um deserto que parece não ter fim. Estamos exaustos de tanta solidão, de tantas lutas empreendidas contra ameaças visíveis e invisíveis que investem contra nós. Nossa vida, qual um dia que não termina, se estende por terras áridas e sem sinal de vida. Nenhuma nuvem sinaliza a chegada de uma chuva de esperança para nos refrescar. Caminhamos a passos largos para cem mil mortos pela covid-19, enquanto o ministério da saúde continua sem uma mão técnica para pilotar o leme da embarcação. Estamos desbussolados e a nau brasileira se encontra à deriva, ao sabor dos ventos da perversão e do obscurantismo.


A desesperança nos assola qual a Elias no deserto do Horeb. Depois de ter derrotado e humilhado os profetas de Baal (1Rs18,20-40), Elias se vê perseguido pela rainha Jezabel, que prefere o castigo dos deuses a deixá-lo impune pela afronta recebida: “Os deuses me cumulem de castigos, se amanhã, a esta hora, eu não tiver feito contigo o mesmo que fizeste com a vida desses profetas” (1Rs 19,2). Nessa promessa de revanche, a rainha promotora da idolatria não se mostra disposta a tolerar a vitória dos pequeninos. Um único profeta do Deus vivo aniquilara quatrocentos profetas de Baal, o deus dos cananeus. Era demais para a soberana tolerar tal acinte. Repleta de furor, promete castigo e se põe a perseguir Elias, que foge para o deserto. Cansado de tanta peleja, Elias senta-se debaixo de um junípero e pede a morte. Desejo legítimo, afinal há um limite para a bravura, para o cansaço, para a intrepidez. Ninguém é de ferro.


Tendo pedido a morte, Elias aliviado adormeceu. O Deus a quem havia invocado ouve sua prece, mas, em vez da morte, dá-lhe uma experiência religiosa restauradora. Elias é visitado por um anjo, que o conforta oferecendo-lhe pão e água. Elias, comeu, bebeu e dormiu de novo. O cansaço era grande e a exaustão havia inundado cada célula de seu corpo. O profeta do Deus vivo estava exausto e precisava de mais do que pão e água. Precisava de um sono restaurador.


Tendo dormido de novo, Elias foi acordado pelo anjo pela segunda vez, com a ordem de levantar-se, comer, beber e partir, pois longo caminho despontava no horizonte. Assim, revigorado com o pão que sacia o corpo e a palavra que restaura o horizonte de sentido, Elias seguiu em frente até o monte Horeb.


A experiência de Elias debaixo do junípero é consoladora. Planta de pouca sombra, pois cresce verticalmente qual um pinheiro, o junípero parece resistir ao deserto (Jr 17,6). Apesar de não ser um sombreiro como outras árvores, o esguio ofereceu sua sombra rala para abrigar o sofredor. Elias dormiu gostosamente até que o anjo o alertasse para a necessidade de continuar a caminhada. Para quem está exausto, qualquer mimo se transforma um luxo que merece ser desfrutado com sofreguidão.


Enquanto o gráfico da covid-19 cresce ou se estabiliza, oferecendo-nos uma estatística alarmante dos acometidos pela doença ou das vítimas fatais que o descaso do governo brasileiro foi capaz de produzir, seguimos deserto afora à procura de um junípero, uma árvore qualquer capaz de abrigar nosso sono e nossos sonhos. Aguardamos, mesmo sem saber, um milagre, uma intervenção divina, que nos poupe do extermínio, do genocídio planejado pelas autoridades brasileiras. Mas esse não vem. Vem apenas um pãozinho assado na pedra e pequena dose de água para revigorar os ânimos e recomeçar a peleja. Foi o que fez Elias, o profeta do ardor missionário. É o que devemos fazer cada um de nós. Depois de descansar sob o junípero, é hora de recomeçar a luta, pois os malvados não descansam em sua empreita de eliminar os fracos da Terra. A voz do anjo sussurra em nossos ouvidos: “Levanta-te e come! Ainda tens um longo caminho a percorrer!” (1Rs 19,7). Felizes aqueles que se põem a caminho sem desanimar diante da imensidão do deserto.







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