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225. Indiferença perversa

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03.05.2020 | 8 minutos de leitura
Crônicas
225. Indiferença perversa

“Viu o ferido e passou adiante” (Lc 10,31)


 


“Tô nem aí, tô nem aí.
Pode ficar com seu mundinho, eu não tô nem aí.
Tô nem aí, tô nem aí.
Não vem falar dos seus problemas, que eu não vou ouvir
”.
(Luka)


No ano de 2003, a compositora e cantora Luka, antes desconhecida, ganhou destaque na mídia. Sua música “Tô nem aí” estourou nas rádios e ganhou prêmios. A canção foi gravada em várias línguas, conheceu diversas versões e foi sucesso no mundo, ocupando destaque nos espaços musicais dos Estados Unidos, da França, da Espanha, da Itália e até da Suíça, da Holanda e da Alemanha. Depois da primeira gravação, no Brasil, foi remixada numerosas vezes e sempre com sucesso. Na TV, ajudou a embalar as aventuras adolescentes da conhecida novelinha do fim da tarde. Luka saiu do anonimato e ganhou o mundo com a canção da indiferença: uma mulher mal-amada dá adeus a seu parceiro egoísta, dizendo-lhe repetida vezes: “tô nem aí”.


Na semana passada, o Brasil foi palco de um show torto, cujo vocalista cantou como Luka: “tô nem aí”. Desta vez, o protagonista que fez sua indiferença ressoar não foi uma cantora desconhecida, mas o conhecidíssimo “Hitler tropical” que desgoverna nosso país. Interrogado acerca do crescente número de óbitos pela covid-19, retrucou: “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Sou Messias, mas não faço milagre”. 


A resposta não ficou sem repercussão. A declaração do presidente se tornou manchete. Nos jornais brasileiros saiu nas primeiras páginas. Na TV, houve quem defendesse o indefensável, mas não poucos o criticaram severamente e mostraram que essa indiferença o acompanha desde que a pandemia foi declarada. De uma gripezinha que só mata os velhos de Copacabana e não derruba presidente atlético até o “e daí?”, o Brasil tem assistido a um desfile de horrores. Nas redes sociais, o acontecido virou memes, charges, hashtags e tantas outras virtualidades já conhecidas. Certo é que a expressão de desdém do tal presidente não passou incólume.


Acostumados ao jeito sempre empático de agir de Jesus de Nazaré, o “e daí?” sobre os milhares de mortos pela covid-19 no Brasil faz os cristãos se arrepiarem de horror e traz incontáveis temores sobre o amanhã. A expressão causa náusea e pranto nos cristãos, mas não nos pseudocristãos, cuja marca principal sempre foi a indiferença e o desejo de lucro.


O Evangelho de João, no capítulo 10, fala do pastor e das ovelhas, da relação amorosa que há entre eles e da legitimidade da autoridade do pastor, que se encontra exatamente na intimidade e no conhecimento mútuo. Ao contrário do bom pastor ou pastor por excelência, que é Jesus, João coloca duas figuras pitorescas: o bandido ou assaltante e o mercenário ou assalariado. Enquanto o pastor dá a vida pelas ovelhas, mesmo a custo da própria vida, o bandido só vem para roubar, matar e destruir o rebanho. Esse não entra pela porta, mas salta os muros, força as janelas e toma posse do que não lhe pertence. Menos criticada, porém ainda muito depreciada, é a imagem do assalariado, aquele que trabalha por dinheiro. Ele cuida do rebanho até que o perigo seja maior que sua necessidade de manter seu emprego. Quando o lobo vem, defende primeiro sua vida e não a das ovelhas que estavam ao seu cuidado.


O texto joanino faz pensar. O Brasil tem sido governado por milicianos profissionais que, apesar de terem assumido o poder por meio de eleições, fizeram-no saltando os muros das regras democráticas, com uma campanha desonesta que disseminou ódio e ignorância por meio de fake news. Arrebentaram as janelas do diálogo; impuseram medo quebrando placas de ruas, fazendo arminha com a mão, prometendo exterminar os adversários políticos, homenageando e exaltando a figura de torturadores etc. São assaltantes e bandidos que só entendem a linguagem da violência e cujo fim é somente o lucro e a morte.


O nosso país já havia sido governado por maus pastores, isso não é novidade. Eram assalariados, pessoas mais interessadas no lucro final de seu trabalho que no bem-estar do povo brasileiro. São os mercenários que se espantam com as crises e fogem deixando a população à revelia na hora que mais precisa.


Mas nada se compara ao que assistimos agora. Aproveitar-se da crise, do ataque do lobo ou da pandemia, para matar e roubar sem que o rebanho possa se defender é atitude fascista e totalmente inaceitável. Até o maior dos mercenários cora de vergonha. Os governos de direita – cuja indiferença ao sofrimento dos pobres se tornou marca registrada – também se assustam com a crueldade do ato. No popular, o presidente e seus comparsas têm “chutado cachorro morto”. Ou melhor: matam e depois ainda chutam. Não são capazes de empatia alguma com os vulnerabilizados pela pandemia. Milhares de famílias enlutadas, sem poder se despedir de seus entes queridos, são desdenhadas e ridicularizadas por aquele que lhes deveria pastorear.


O evangelista João já havia nos ensinado que a autoridade de um pastor não vem do cargo que ele ocupa, mas de sua capacidade de conhecer suas ovelhas, de chamá-las pelo nome e de lhes dar pasto oportuno. Em troca, o redil lhe confere legitimidade no cargo que ocupa, com o reconhecimento de sua voz. Caso contrário, a autoridade do pastor é posta em xeque. São assaltantes vestidos de pastores, cuja voz não causa nenhuma empatia senão aversão e nojo. As ovelhas que um dia já foram pastoreadas por um pastor cuidadoso desconfiam logo. As mais ingênuas demoram para perceber que é um assaltante em pele de pastor. As perversas, cujo único interesse é comer os melhores pastos, veem nesses assaltantes a chance de tirar lucro. Em meio ao rebanho, não tem só ovelha boazinha. Tem muito cabrito esperto, bode velho, que sempre chifrou as ovelhas e as empurrou para o abismo. Querem os “verdes prados e as águas refrescantes” (Sl 23) só para si. A esses, convém a confusão; ela é oportuna para terminar de jogar precipício abaixo as ovelhas indefesas. Então, aproveitam-se do fuzuê para cumprir seus propósitos sanguinários. Não falta na internet e na TV quem esteja vendo a pandemia como ocasião para o sucesso, para bons empreendimentos; ou seja, uma boa oportunidade para enriquecer. Dentre eles, estão muitos pseudocristãos, inclusive os pastores das empresas da fé.


A fé tem se mostrado um produto lucrativo e seu mercado está em pleno crescimento. Quanto maior o desespero, mais a fé se torna necessária como ópio para aliviar as dores. E essa não é uma especialidade dos neopentecostais, cujas igrejas novas se proliferam por aí. No mundo católico também a mercantilização da fé se tornou realidade, infelizmente. Presenciamos desde presbíteros que insistem em reabrir suas igrejas, pois a arrecadação financeira ficou comprometida, até pregadores populares que não se cansam de ensinar que a pandemia é coisa do diabo e, com isso, “vendem” fórmulas mágicas para aniquilar o adversário.


Triste, muito triste ver o que acontece. Nossa gente chorando seus mortos e a autoridade máxima do executivo e seu clã cantando: “tô nem aí, tô nem aí; não adianta me falar de seus problemas que eu não vou ouvir”. Não esperamos que esses assaltantes se comovam com nossas dores e que se sensibilizem com nossas críticas. São sádicos! Assim, em vez de sofrimento solidário, nossa dor lhes causa gozo. Esfregam as mãos de prazer e têm orgasmos múltiplos ao assistirem à destruição dos pequenos. Quanto maior a sujeira, maior o prazer. Quanto mais se enfileiram esquifes, mais eles veem seus planos realizados. As imagens de incontáveis covas abertas ou dos caixões depositados nas valas comuns não lhes diz respeito. Os hospitais abarrotados de gente e a população indefesa diante da crise não lhes afeta.


Bem ao contrário do Deus bíblico, essa gente tem como marca registrada a indiferença. Enquanto nosso Deus se compadece do sofrimento do seu povo, como afirma Ex 3,7, os governantes do Brasil não são interpelados pelo rosto do sofredor. Deus viu a situação humilhante dos israelitas no Egito e ouviu seus clamores; tomou partido e se fez presente para libertar os oprimidos. Já o governante do Brasil é cego e surdo. Fossem cegueira e surdez biológicas, seria menos triste, pois também cegos e surdos são capazes de empatia. Esta precisa de audição e visão que vêm do coração. Trata-se de surdez e cegueira que atingem o secreto da intimidade, lá onde as emoções se processam e os sentimentos mais nobres podem ser gestados. Essa gente sem coração não é capaz de ter as entranhas reviradas quando o rosto do outro se mostra dilacerado pela dor. Não sabem o que é ser bom samaritano. É triste! Mas quem sabe a perversidade desse tal Messias faz nosso povo refletir sobre a besteira que fez nas últimas eleições e encontra caminhos para reconhecer a ilegitimidade desse governo? Já passou da hora de acontecer o impeachment, para depor o falso pastor que destrói nosso país, rouba e mata a população brasileira.







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