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128. Encantos do outono

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21.03.2017 | 4 minutos de leitura
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Crônicas
128. Encantos do outono
 

“Há um tempo para tudo e um tempo para todo propósito debaixo do céu” (Ecl 3,1)


“Outono é uma segunda primavera
onde cada folha é uma flor”
(Albert Camus)


Um amigo nos interpelou a escrever alguma coisa sobre o outono. Sim, as épocas do ano dão o que pensar. No outono, as folhas caem; as árvores ficam nuas, despidas de toda proteção das folhas. Nada de flores abundantes; fora alguma extravagância da natureza – sempre pródiga –, as flores são escassas. Nenhum rebento novo; nenhum broto mostrando que a vida renasce. Para completar o cenário, o vento sopra ligeiramente frio e insistente. O céu meio cinza, meio vermelho, avisa que o verão se foi e anuncia que o inverno não tarda a chegar. Mudanças da mãe natureza que indicam a estação do outono. Ficamos nos indagando se esses sinais são o motivo pelo qual a maioria das pessoas vê esse tempo como uma estação depressiva, melancólica, desprovida de encantos. Mas será mesmo que o outono não possui beleza?


Cada estação possui sua singularidade e, com ela, sua beleza. Diversos lugares do mundo atraem turistas por sua peculiar aparência no outono. É o caso dos Estados Unidos que, nessa ocasião, tem sua paisagem renovada. Ficou famosa a expressão “outono em Nova York”. Instigadas pela estação do ano, as árvores da cidade americana ficam primeiramente cobertas de folhas vermelhas que, depois, se tornam marrons e, por fim, forram o chão formando um tapete que encanta os olhos. Quem é amigo da sétima arte deve se lembrar de um filme com esse nome. As imagens são belíssimas: praças, parques, ruas forradas de folhas cor de fogo ou cor de terra. Mas se as árvores se despem, não é em vão seu despojamento. Desnudam-se para revestir de glamour o solo, trazendo para o piso a fecundidade e o encantamento das plantas. É o preço do tempo; o ciclo da vida.


No cair das folhas, o outono revela-se tempo de desapego, de libertação das coisas velhas, de abandono e renúncia. Despojar-se pode ser um exercício doloroso, mas é libertador. Sem esse abandono das árvores, não haveria renovação da vida. As folhas caídas fecundam o solo, tornando mais forte e vigorosa a mãe terra que vai fazer germinar outras plantas. Assim, a estação do outono nos ensina: despojarmo-nos para nos tornar fecundos; abrir mão de algo para fazer mais plena a vida de outro. E, depois, ver brotar como dom generoso o bem que foi semeado.


O outono é, então, muito mais que um tempo sombrio ou cinzento, de folhas secas ao chão. É tempo de interiorização, de voltar o pensamento para o íntimo do coração. Tempo de refletir sobre o que nos impede de ser pessoas melhores, o que nos impossibilita de crescer. Da mesma forma que as árvores deixam suas folhas caírem ao chão para permitirem espaço para o nascimento de novas folhas, de vida nova, assim nossa vida precisa de tempos de esvaziamentos e de recomeços...


A dupla Sandy e Júnior, cantando as quatro estações do ano, descreveu o outono: “No outono é sempre igual, as folhas caem no quintal...”. Mas será que as coisas são mesmo iguais no outono? Ou nós, algumas vezes, estamos fechados para as surpresas da vida cotidiana? Cada estação do ano, assim como as estações da vida, tem sua novidade, sua força, seu fascínio. Olhos sensíveis e perspicazes são capazes de perceber o novo que cada estação comporta; corações generosos e ávidos de vida são capazes de arrancar de das etapas da vida o bem e o prazer que elas oferecem.


Mudam-se as estações; muda-se a vida. Para além das aparências, é preciso ver o que mudou. Como cantou Cássia Eller: “Mudaram as estações, nada mudou, mas eu sei que alguma coisa aconteceu, tá tudo assim tão diferente...”. Apesar de parecer que nada tenha mudado, que a vida segue sempre a mesma sem novidades, há algo diferente para cada tempo da vida. Tudo parece tão igual, mas de repente algo bom renasce das folhas caídas e tudo se transforma. “Há um tempo para tudo e um tempo para todo propósito debaixo do céu” (Ecl 3,1). Nossa tarefa, ao longo da existência é descobrir, ou ao menos tentar descobrir, a riqueza e os encantos de cada momento.







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