O Livro de Jonas é uma novela divertida e criativa que surge mais ou menos no final do século V aC, depois do retorno do exílio da Babilônia (por volta de 530 aC). Nessa ocasião, Esdras (sacerdote) e Neemias (governador), no desejo retomarem a fidelidade a Deus, empreenderam uma radical reforma religiosa. Os repatriados se fecharam aos povos estrangeiros e tomaram uma postura extremamente nacionalista e de repúdio a todos os que não pertenciam à descendência de Israel. É a famosa xenofobia do tempo dos reformadores Esdras e Neemias. Nessa ocasião, como discreta forma de repúdio à política vigente acerca do estrangeiro, surge o Livro de Jonas, como uma literatura de resistência.

Quando o livro de Jonas foi escrito, a cidade de Nínive – destinatária da palavra profética de Jonas – já havia sido destruída há mais de dois séculos. Ela fora arrasada pelos babilônicos em 612 aC. Apesar de já ter desaparecido do mapa, a grande capital da Assíria permaneceu na história do povo da Bíblia como símbolo do pecado e da violência. Nínive representava o paganismo, com todos seus costumes e valores, tão distintos da tradição monoteísta de Israel. Essa grande cidade era igualada apenas às lendárias cidades de Sodoma e Gomorra (Gn 13,13; 18,20-21), cujo fim havia sido trágico por não acolher a Palavra do Senhor. Apesar da conhecida misericórdia de Deus, por causa do grande pecado daquela gente, a ira do Senhor havia sobrepujado sua benevolência e ele fora implacável com aquelas cidades. Seguindo essa lógica, parecia certo o destino de Nínive – a pecadora.

O nome do protagonista da novela não é escolhido em vão. Jonas quer dizer pomba. O profeta, qual pássaro livre, deve desvencilhar-se de seus preconceitos, alçar vôos de sua cidade até Nínive, o grande inimigo, abandonar seu ninho de refúgio, sair de seu comodismo para anunciar na capital da Assíria a Palavra do Senhor. O autor sagrado toma o nome de Jonas, um antigo profeta, bem pouco conhecido e citado em 2Rs 14,25 (Jonas de Amati), que fora atuante no Reino do Norte durante o reinado de Jeroboão II. Em torno desse personagem, cria uma trama bastante atual, mas com nomes de personagens, lugares, fatos do tempo passado. Ele se serve da história para fazer sua história teológica, sem preocupação com exatidões de dados geográficos e históricos. Sua preocupação a teologia que a trama veicula.

O livro de Jonas aparece no cenário do pós-exílio, tempo de desprezo e aversão ao estrangeiro,com o objetivo de combater um nacionalismo extremado, que comprometia a fidelidade absoluta ao Deus único, pois negligenciava a vocação mais sublime dos filhos de Abraão: ser bênção para as nações, luz do mundo e sal da terra. Ora, se Deus abençoou todos os povos em Abraão, isso significa que sua misericórdia se estende a todos e ele não quer destruir nem exterminar ninguém, mas achegá-los a si. Para isso, é preciso que alguém anuncie a misericórdia de Deus para com os ímpios. Falta a proclamação do perdão divino no meio dos gentios. Essa será a vocação de Jonas.

O livro de Jonas tem, então, como tema a misericórdia e o perdão de Deus para com todos, não apenas para com os bons ou religiosos. O Senhor é compassivo para com judeus e gentios. E tal é sua misericórdia que ela se estende não só para com os seres humanos. Seu amor se estende também aos demais seres da criação. No livro de Jonas a misericórdia de Deus aparece estendida até mesmo sobre o pior império que já existiu, representado pela grande cidade de Nínive, a capital da Assíria. O autor bíblico quer convencer os leitores de que o fato de uma pessoa não pertencer ao povo de Israel não a torna um mau sujeito. A nacionalidade não é garante de fidelidade e sim um coração aberto à Palavra do Senhor. Além de afirmar a misericórdia de Deus, o livro de Jonas critica a quem se acomoda ou se recusa a anunciar o perdão e o amor divinos para aquelas ovelhas que ainda não estão no aprisco do Senhor.

 “E o peixe era grande, enorme, gigante, compadre!”

Todos nós conhecemos uma boa história de pescador: os tamanhos dos peixes são aumentados, as dificuldades da pescaria são gigantescas, os acontecidos superam toda possibilidade de razoabilidade. Mas lidar com fatos fantasiosos não é privilégio de pescador e sim de um bom contador de casos, de um bom escritor, de um bom romancista, de um bom piadista ou até mesmo de um ótimo teólogo. É o caso do escritor do livro de Jonas: por meio de hipérboles e outros recursos de linguagem, uma trama teológica se tece com cuidado e muita sabedoria. É preciso cuidar de cada detalhe da literatura para que a teologia seja clara.

Desde o início, os estudiosos desconfiaram que o personagem Jonas não é histórico no sentido exato da palavra como a entendemos hoje. Basta ler o texto com um pouquinho de perspicácia e menos piedade ingênua para se perceber que o livro é uma bela criação literária com fins teológicos: nenhuma criatura marinha engoliria um homem inteiro e o manteria vivo no estômago por três dias; animais não podem fazer penitência e jejum como decreta o rei de Nínive; nenhuma planta cresce numa noite e seca em uma hora, etc. Além disso, outros pontos, para além do texto, poderiam ser levantados: não há nenhum registro nos antigos documentos da Assíria encontrados pela moderna arqueologia acerca da penitência decretada em Nínive e da conversão de sua gente ao Deus de Israel; há muitas lendas de civilizações antigas que fazem menção a um personagem tragado por um grande peixe e que depois se safa de forma extraordinária desse perigo etc.

Ora, fica claro que o livro de Jonas não é uma narrativa com exatidão histórica. Os acontecimentos históricos servem de pano de fundo, de cenário, para situar o personagem que foi criado para transmitir uma mensagem. Não existiu de fato um Jonas, mas vários Jonas, ou seja, todas as pessoas daquela época que estavam negligenciando a missão de falar da misericórdia de Deus para todas as nações. A ficção foi criada para denunciar, com maior ênfase, a realidade histórica da época do autor e de seus primeiros leitores. Jonas é uma novela humorística, do mesmo gênero literário como aquelas que passam na TV. Através do humor e da ficção, o autor denuncia o comodismo e os preconceitos da liderança de Israel e convida toda a gente de Israel a olhar com outros olhos o povo estrangeiro, que também é objeto do amor de Deus.

 “Levanta-te, vai à grande cidade e proclama.” (Jn 1,2)

Com a expressão “o Senhor dirigiu a palavra a Jonas”, o texto bíblico nos remete aos antigos profetas, já tão conhecidos do povo de Israel. Mas Jonas é um profeta às avessas. Sua postura contraria as dos antigos profetas, que se encontravam sempre diante da face de Deus (1Rs 18,15; Jr 15,19), numa atitude típica de obediência. Jonas, ao ser comunicado de sua missão, foge da presença do Senhor. Vai para Társis, uma comunidade que, segundo Is 66,19, nunca ouviu falar do Deus de Israel. Jonas foge para um lugar onde a presença de Deus não possa incomodá-lo. Jonas pretende fugir de Deus e de sua missão profética.

Jonas quer escapar, ficar “longe da face do Senhor”, uma clara atitude de rebeldia. Essa expressão não é comum nas Escrituras Sagradas. Ela só ocorre mais duas vezes na Bíblia e se refere a Caim, o filho de Adão e Eva que matou seu irmão Abel (Gn 4,13.16). O autor sagrado quer sinalizar a semelhança entre Jonas e esse personagem rebelde. Ambos se irritam facilmente contra Deus (Gn 4,5; Jn 4,4) e o Senhor lhes pergunta o motivo da irritação (Gn 4,6; Jn 4,9). Jonas e Caim têm raiva de Deus, porque o Senhor não age conforme seus esquemas; sua conduta escapa ao controle deles. Caim tem ciúmes da relação de Deus com Abel, o que o leva a desejar a morte do irmão. Então foge da face do Senhor porque sua rebelião o tornou um assassino. Jonas foge da face divina porque tem ciúmes do Senhor com os habitantes de Nínive. A misericórdia de Deus com os estrangeiros tem feições nunca vistas. Jonas não pode aceitar isso. Que o Senhor seja bom para o povo de Israel, tudo bem, afinal Israel é seu filho primogênito, seu eleito. Mas ser misericordioso com o inimigo, aí já é demais para a cabeça de Jonas.

Deus não quer condenar a grande cidade, apesar dos seus muitos pecados. O Senhor quer salvar Nínive e por isso enviou Jonas para lá anunciar sua palavra. O autor bíblico quer de tal forma realçar que o objeto da misericórdia de Deus é um povo inimigo, que ele insiste no nome da cidade para que ninguém se confunda. O nome Nínive aparece no início (1,1), no meio (3,1) e no fim da narrativa (4,11). Uma insistência necessária para eliminar qualquer dúvida.

Nínive é descrita em menos de um versículo (1,1) e com apenas duas características. Ela é “aquela grande cidade” a quem Jonas é enviado para denunciar “suas injustiças” que chegaram ao Senhor. Certamente uma cidade já conhecida por suas muitas iniqüidades, cujas faltas faziam parte da memória de Israel. Nínive não era uma cidadezinha pequenina e inexpressiva, esquecida nos rincões do mundo, era a capital da Assíria e três dias seriam necessários para atravessá-la (Jn 3,3), enquanto a antiga Jerusalém era percorrida em menos de uma hora. Mas a expressão “três dias” ou “terceiro dia” não indica apenas o tamanho da cidade, mas tem um significado teológico: expressa o tempo da salvação, da ação de Deus em favor do justo (cf. Os 6,2). Nínive é, pois, uma cidade simbólica: a cidade da injustiça (1,1), o símbolo do mundo pagão que precisa da misericórdia de Deu O autor de Jonas escolhera a cidade de Nínive para simbolizar um mundo sem Deus, pois a capital do antigo império assírio entrou para a história como implacavelmente cruel, com suas “guerras de conquistas, espoliações, deportação de populações, trabalhos forçados, imposição de tributos exorbitantes, inúmeros saques, terras devastadas”[1]. Apesar de tantos anos terem se passado, Nínive continuava sendo o símbolo da “injustiça, da crueldade, do sangue derramado, em suma, o símbolo do mal”[2] Na mentalidade de um judeu daquela época não podia haver gente pior que os ninivitas. Foi para com eles que o Senhor demonstrou sua misericórdia.

E é a essa gente que Jonas deve anunciar a Palavra de Deus: uma missão quase impossível para o pobre profeta. Não é à toa que ele foge: em Jope, encontrou um navio que ia para Társis, embarcou nele para tentar fugir da presença do Senhor. Mas toda tentativa de fuga do Senhor é sempre vã. No meio da viagem, uma forte agitação do mar põe toda a embarcação em perigo e, depois de séria investigação, a tripulação descobre que Jonas é um hebreu, fugitivo do seu Deus. Assustados com tal revelação, seus companheiros de viagem não têm outra alternativa senão jogá-lo no mar, na tentativa de aplacar a ira divina. E Jonas se vê em situação tão atípica, que ninguém poderá socorrê-lo senão o próprio Senhor, de cuja face ele se esconde.

“A salvação pertence a Deus.” (Jn 2,9)

O capítulo segundo começa logo anunciando a misericórdia de Deus para com Jonas (2,1). Ele bem que merecia castigo. Sua falta havia sido grande. Como israelita, havia cometido um pecado insuportável: Não acolhera a shemá: “ouve, Israel!”. Fizera-se surdo como os gentios, igualara-se a eles, dando as costas para o Senhor. Sua falta parece ainda maior que a dos ninivitas. Eles não se voltaram para o Senhor, porque sua palavra não lhes fora anunciada. Jonas, ao contrário, mesmo conhecendo o Senhor, ignora sua vontade e foge dele.

A maioria dos estudiosos concorda que a prece de Jonas, que se encontra nos versículos 2 a 11, consiste de um salmo agregado posteriormente ao texto primitivo. O argumento principal dos estudiosos é que se trata de uma ação de graças de um fiel piedoso pelo livramento de um perigo de morte (Jn 2,3), que rompe o desenrolar da narrativa do Jonas rebelde (capítulo 1), cuja continuação se encontra em 2,11, mostrando que o relato seria coerente sem o salmo[3]. Mas, independente de o texto ser posterior ou não, ele merece ser analisado, pois é uma bela prece, que se encaixa muito bem aqui. Na hora do aperto, toda revolta contra Deus fica esquecida, e Jonas – que fugia da face do Altíssimo – sabe que só sua face pode agora socorrê-lo. E mais, no profundo do abismo ele louva, pois não perdeu as esperanças de ser socorrido pela misericórdia do Senhor, sabe que Deus o livrará do perigo.

A primeira parte dessa oração (2,1-4) fala de angústias e esperanças. Por causa da aflição, o salmista clama a Deus, do lugar mais profundo – o abismo – que significa o mar, o sepulcro ou a angústia (cf. Sl 88,7). Ele sente que se afoga, é como um náufrago, pois está longe da presença de Deus, apesar da esperança de que, após a superação da tribulação, finalmente louvará a Deus no Templo de Jerusalém (cf. Sl 42 e 43). É notável a semelhança da oração de Jonas com alguns antigos salmos, fazendo pensar que eles foram a base para a composição dessa prece.

A segunda parte da oração trata da libertação de um perigo de morte (2,5-7). O salmista sente que as águas o rodeiam, ameaçando sua vida (cf. Sl 69,1), mas imediatamente afirma que foi salvo quando estava afundando no desespero. Sua oração testemunha que Deus atende o clamor dos aflitos.

A última parte da prece (2,8-10) é sobre a adoração ao Deus verdadeiro em contraposição à idolatria. Agora o salmista exorta a todos que se mantenham perto de Deus, pois é burrada fazer como Jonas: fugir de Deus. O autor apresenta um contraste entre os que buscam a idolatria e os verdadeiros adoradores e termina confiando que um dia irá ao Templo para oferecer os sacrifícios prometidos (sacrifícios de louvor, cf. Os 14,2b). Depois conclui com um reconhecimento de que a salvação vem do Senhor (cf. Sl 3,8; Sl 68,19-20).

Apesar de ser claramente um acréscimo, o texto não foi colocado aí em vão. Sua harmonia com a situação de Jonas é notável: o salmista sabia bem que, na hora do aperto, a gente busca o socorro de Deus (2,2-5), agradece na confiança de ser atendido (2,6-7) e promete fidelidade, expressa no sacrifício no Templo (2,8-10).

E o capítulo 2 termina com uma frase irônica e sutil: “O Senhor mandou que o peixe vomitasse Jonas em terra firme”. E pelo que vemos, o peixe obedeceu! Coisa que Jonas não foi capaz de fazer. Até um animal do profundo abismo do mar é capaz da shemá, enquanto que Jonas – o israelita – recusa ouvir a voz do Senhor e praticá-la.

 “Levanta-te, vai a Nínive, a grande cidade, e anuncia-lhe a mensagem que eu te disser (Jn 3,2)

No terceiro capítulo do livro de Jonas, nosso protagonista recebe novamente a ordem de ir a Nínive. A paciência infinita do Senhor está sendo claramente demonstrada a Jonas. E a mesma ordem anterior é a ele dirigida: “Levanta-te! Vai a Nínive, aquela grande cidade, e anuncia o que eu vou te dizer” (3,2). Jonas deverá dizer tudo o que o Senhor lhe disser. Contudo, propositalmente, o autor sagrado não nos informa sobre as palavras que Deus mandou Jonas comunicar aos ninivitas. Fica no ar o recado de Deus para aquela gente. Só Jonas sabe o que deve anunciar.

Se a mensagem fica em segredo, não é esse o caso da intenção de Jonas, que dessa vez não fugirá mais: “Jonas parte com intenção de ir a Nínive, como o Senhor havia mandado” (3,2). Vamos ver se o profeta está mesmo disposto a consertar as bobagens que fez desde que recebeu a missão do Senhor.

Nínive era uma cidade enorme. A missão seria trabalhosa demais: três dias eram necessários para atravessá-la (cf. 3,3b). Era preciso se encher de coragem para tal missão. Mas Jonas não teve a disponibilidade necessária a todo missionário. Achou mais fácil simplificar as coisas: atravessou em apenas um dia uma cidade que deveria ser percorrida em três dias (cf. Jn 3,3-4). O que foi anunciado aos ninivitas não parece ter sido o que Deus verdadeiramente desejava comunicar. Jonas anunciou um castigo terrível para Nínive (3,4), mensagem que não parece em nenhuma passagem desse livro bíblico como vinda da parte de Deus. A mensagem que o Senhor queria comunicar está explícita em Jn 1,2: Deus conhece a iniquidade dos ninivitas. Agora, o que Deus vai fazer com isso é problema dele e não de Jonas. Mas a “Pomba de Deus” age como um gavião: vê Nínive como uma presa fácil da ira de Deus. Jonas logo deduziu que, para tão grande pecado, deveria haver um tremendo castigo. Não entendeu toda a misericórdia de Deus para com os rebeldes, dos quais ele era o primeiro. Até agora, Deus só usara de bondade e perdão para com ele e não de ira e justiça.

Mas que surpresa não fora para Jonas a reação do povo ninivita. Não foi preciso falar duas vezes. Não foi preciso percorrer toda a cidade. Uma corrente de conversão e de boa vontade se espalhou por toda a cidade e “os ninivitas passaram a crer em Deus, proclamaram um dia de penitência, vestindo-se de saco, do maior até o menor” (3,5). E até o rei entrou na dança. De posse da notícia, o rei tirou seu manto e também se vestiu de saco e se sentou na cinza, publicando um grande movimento de penitência e conversão, baseado apenas na possibilidade da compaixão do Senhor (cf. 3,6-9). O jejum e os demais ritos penitenciais são, na Escritura, sinais de sincero arrependimento e expressão de uma mudança radical de conduta (Jn 3,8). As palavras do rei (cf. 3,7b-8), tido por idólatra e iníquo, são muito mais teológicas que a pregação de Jonas[4]. O texto faz pensar que o pecado dos ninivitas não é o culto idólatra, ou seja, eles não são inimigos de Deus. O pecado de Nínive é a iniquidade, a injustiça ou a violência. Estas são três formas de traduzir o mesmo termo hebraico. Esse é o pecado que chegou até Deus (cf. 1,2) e que o rei denuncia (cf. 3,8). Era isso que Jonas deveria ter dito aos ninivitas: denunciar o pecado, chamar à conversão (mudança de vida) e proclamar o perdão divino. Mas nosso protagonista estava demasiadamente cheio de suas doutrinas religiosas sobre um Deus severo e castigador, para entender o perdão gratuito. Jonas colocou-se no lugar do Senhor: se ele fosse Deus transformaria os ninivitas em cinzas. Era isso que ele esperava que Deus fizesse e foi isso que ele anunciou em Nínive.

Se a conversão de Nínive é notória, ainda mais eminente é o pecado de Jonas. “O profeta é o porta-voz de Deus. Não tem o direito de acrescentar ou de suprimir seja o que for da Palavra”[5]. Está claro que Jonas necessita de conversão ainda mais que os ninivitas. Que contraste! Todos parecem fazer a vontade de Deus, exceto Jonas. Quando estavam no barco, os marinheiros pagãos eram mais piedosos que ele. Jonas, que era tido por justo, apresenta-se com o único que desobedecia o Senhor, fugindo de sua face.  Até mesmo o mar e o peixe são obedientes a Deus. Jonas, ao contrário, mesmo quando parece obedecer, ainda assim atropela a vontade divina. Ele dissera à tripulação do navio que adorava o Senhor (cf. 1,9), mas é clara a contradição presente nessa profissão de fé. A verdadeira adoração consiste em colocar-se a serviço de Deus e entregar-lhe sua própria vida, deixando-o conduzir seus passos, sem resistir a ele. Os gentios, a quem Jonas tanto despreza, é que desempenham o papel de verdadeiros adoradores[6]: uma refinada ironia do autor para contestar a concepção vigente de antipatia e aversão ao estrangeiro.

Apesar de ser um missionário rebelde, nosso protagonista alcança incontestável sucesso na missão: Deus age, mesmo em meio às rebeldias humanas, e a cidade inteira faz penitência (cf. 3,5). Quão maravilhoso não teria sido se, em vez de pregar o castigo, o missionário tivesse percorrido a cidade calmamente anunciando o perdão!

A frase “Deus desistiu do mal que tinha ameaçado fazer” (3,10b) parece ser um acréscimo redacional posterior para harmonizar o conteúdo da proclamação de Jonas com o perdão de Deus. Mas não importa. Ela mostra um Deus compassivo e bom, capaz de se compadecer, de mudar de ideia, de se solidarizar com os seres humanos, cuja boa vontade não pode ser ignorada. Até Deus parece ter sido pego de surpresa por tal reação benévola daquela gente diante do anúncio feito por Jonas. E precisa mudar de planos, se por acaso existiu a possibilidade do castigo. Contudo, o autor deixa bem claro que o perdão concedido aos ninivitas é por pura gratuidade e não uma consequência da penitência. Deus não está obrigado a agir conforme as boas ações humanas. Mas elas sinalizam abertura para a ação divina, a intenção do coração de acolher a shemá. Deus perdoa a grande cidade iníqua por causa de seu amor gratuito. Se até aquela gente de coração empedernido pode mudar de vida, quanto mais o Deus compassivo e bom pode desistir do mal que planejou fazer. Sua misericórdia é muito maior que qualquer dureza de coração e suplanta toda capacidade humana de fazer o bem.

“Tu és um Deus de misericórdia e ternura.” (Jn 4,2c)

Mas Jonas parece não ter entendido essa misericórdia divina, tão ampla e tão abrangente que é capaz de se estender aos gentios. Jonas fica amargurado e irritado com a decisão de Deus (cf. 4,1). E orou indignado ao Senhor: “Ah, Senhor! Não era isso mesmo que eu dizia quando estava em minha terra? Foi por isso que eu corri, tentando fugir para Társis, pois eu sabia que és um Deus bondoso demais, sentimental, lerdo para ficar com raiva, de muita misericórdia e tolerante com a injustiça” (4,2-3). Jonas se trai na sua oração. Ele já sabia da tendência de Deus para o perdão e de sua inaptidão para a cólera. Por que então anunciou o fim de Nínive? Por que anunciou o castigo e não a conversão e misericórdia sem fim do Senhor? Jonas se recusa a pedir aos ninivitas que se arrependam. Jonas está limitado por sua verdade, segundo a qual Deus é amor e ternura para Israel e fúria e castigo para as nações.

Jonas se irrita profundamente com a ação misericordiosa de Deus. Sua irritação provém do desejo de ver Nínive destruída. Não está disposto a mudar sua teologia. Ele não queria ser missionário porque não quer  a salvação dos “maus”, mas a destruição deles. A verdadeira razão da fuga de Jonas não era o medo dos desafios ou de que os ninivitas lhe fossem hostis. O motivo da fuga foi o medo de se tornar um instrumento da misericórdia de Deus em favor dos ninivitas (4,2). Jonas sabia que, se o Senhor o enviava para Nínive, era porque tinha a intenção de salvá-la, pois se quisesse destruí-la o teria feito sem avisar. Para Jonas, seria melhor morrer que lidar com o amor de Deus para com Nínive. O profeta de Nínive fica profundamente irritado porque os ninivitas foram salvos. Não quer enxergar a misericórdia divina, para além dos limites estreitos de sua terra. Mas o clímax desse livro é exatamente mostrar que o Deus de Israel é compassivo até mesmo para com os piores inimigos do povo da aliança, os ninivitas. O Senhor é graça e misericórdia para com as nações e agirá com severidade também para com Israel. E isso não é novidade. Arrepender-se e contar com a misericórdia de Deus não é um tema estranho, mas bastante desenvolvido pelo pensamento bíblico. Todos os judeus, em ocasião oportuna, fazem penitência e jejuam durante vinte e quatro horas pedindo perdão pelos pecados. Mas Jonas não parece disposto à misericórdia universal. Quer privilégios de Deus. E, ao contrário do Deus compassivo, se enche de cólera, se faz de vítima e pede a morte. É tão absurda sua reação que Deus interroga sobre o direito de Jonas de irritar-se (4,4). Mas o profeta atrevido nem dá respostas. Dá as costas pra Deus e vai para o lado do sol nascente, onde fez um abrigo, porque a misericórdia de Deus não lhe serve mais de proteção. Sente-se afrontado porque Deus abriga no mesmo manto protetor seu maior inimigo. E sai fora da tenda de Deus, ou melhor, ele pensa que lhe escapa.

Na nova tentativa de fuga de Deus, Jonas vai se surpreender. Quando o profeta vira as costas novamente pra Deus, ainda assim o Senhor providencia uma mamoneira, algo provisório[7] que lhe abrigue, até que ele crie juízo e volte para a tenda do Deus misericordioso (cf. 4,6a). Era preciso ajudar Jonas a refrescar sua cabeça daquela ira maluca que o havia acometido no processo da conversão de Nínive. E Jonas sorriu contente, sem saber que era Deus que cuidava dele (4,6b).

Quando Jonas pensa que tudo vai bem, nova surpresa: “Deus providenciou um verme que na madrugada seguinte atacou a mamoneira e ela secou” (4,7). Por ordem do Senhor veio um vento quente do Oriente e o sol passou a queimar a cabeça de Jonas, que ele pensava ter esfriado (cf. 4,8a). Irritado, o profeta pede de novo a morte. Ele está sujeito às mudanças do clima, da vegetação. As coisas fogem ao seu controle e isso parece não lhe agradar (4,8b). O Senhor intervém: “Será que está correto ficar irritado por causa da mamoneira?” (4,9a). E o profeta de coração empedernido insiste na sua obstinação. Ele se acha cheio de razão (cf. 4,9b). Então, o Senhor vai dar o golpe final na cabeça de Jonas: “Tu tens pena de uma mamoneira que não foste tu quem fez crescer. E eu não teria pena de Nínive, esta enorme cidade, com toda sua gente e animais?” (4,10-11). A misericórdia do Senhor sobre os ímpios vai contra tudo que Jonas acreditava, contra as bases sobre as quais assentava a própria vida. Jonas não vê sentido em continuar vivendo, seu mundo caiu, pois Deus faz tudo ao contrário do que ele pensa. Para Jonas, a atitude do Senhor em relação à Nínive e à mamoneira é motivo de grande decepção. À primeira Deus deveria ter destruído; à segunda deveria ter salvo. Deus, porém, recusou-se a seguir os esquemas de Jonas. O final do livro é surpreendente. Jonas, afinal, é quem está agindo fora da lógica mais elementar: defende a vida de um vegetal efêmero e deseja a morte de uma multidão de seres humanos.

[1] MORA, Vincent. Jonas, São Paulo: Paulinas, 1983. p.29.
[2] Idem.
[3] Ibidem, p. 20.
[4] Ibidem, p. 23.
[5] Ibidem, p. 22.
[6] Ibidem, p. 15.
[7] O vocábulo “mamoneira” é uma tradução do termo hebraico kikayon que significa “efêmero”.


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