É chegada a hora” (Jo 17,1)

Vem, vamos embora, que esperar não é saber.
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer
(Geraldo Vandré)

 

Conta a Escritura Sagrada que, quando o povo de Jerusalém foi deportado para a Babilônia, experimentou um desânimo de fazer dó. “Caiu na deprê”, como dizem por aí. Os deportados não queriam mais saber de trabalhar, nem de se casar ou de gerar filhos. Foi preciso o profeta Jeremias escrever uma carta advertindo sua gente sobre os riscos dessa escolha, mostrando os malefícios da apatia e as vantagens da esperança.

Estou de acordo com Jeremias de que a esperança é o melhor caminho em tempos de crise. Desesperar ou desacreditar não ajudam em nada; só fazem mal. Mas estou ciente de que está faltando no Brasil, além de esperança, vergonha na cara e sangue nas veias. Meu pai, mesmo sem estudos, sabia da vida e nos advertia: “Quem muito abaixa, uma hora mostra a bunda”. Não entendam o dito acima como um desejo de falar palavras chulas. É que nenhuma frase parece traduzir melhor a situação do povo brasileiro que o dito irreverente de meu pai.

Temos nos abaixado muito. Ou nos rebaixado, seria melhor dizer! É um abaixamento-rebaixamento atrás do alto. Agora, nossa bunda está à mostra, nossa vergonha se tornou pública, nossa dignidade foi por água abaixo. Já ficou de fora, diria meu pai, o que deveria estar preservado. Levaram nossa dignidade junto com os milhões que nos roubaram. Venderam nossa prosperidade com as privatizações. Sucatearam nosso futuro quando nos despojaram do direito de estudar, de trabalhar, de nos aposentar etc. Estão matando nossos líderes. Tiros ceifaram a vida de irmã Dorothy, de Marielle e de outros líderes defensores dos direitos humanos. Estamos com a partes íntimas de fora e, como a mulher e o homem de Gênesis 3, procuramos folhas de figueira para tapar nossa nudez. Mas nossa nudez já está à mostra, estampada em noticiários, sites e jornais do mundo inteiro. Viramos manchete mundial, graças a escândalos, assassinatos, golpe político e usurpação dos direitos humanos…

Haverá folha de figueira capaz de tapar tanta vergonha? Haverá algum consolo para quem foi desvestido de sua dignidade, enganado pela serpente maligna da cobiça de alguns poucos? O que fazer quando os passos de Deus são escutados e ele nos pergunta “Onde estás?”. Desvestidos da dignidade de filhos, não resta nada a não ser procurar proteção naquilo que não protege: folhas de figueiras, precárias e passageiras.

 Comemos o fruto proibido da insensatez. Agora, o que fazer? Colher folhas de figueira para nos proteger? Fingir que nada está acontecendo? Vamos nos esconder numa moita de ilusões, discutindo futebol e assistindo telenovela? Parece que é hora de enfrentar a serpente; de desmascará-la, de mostrar sua enganação, seu engodo… Sou da opinião que é preciso ira à luta; só manter a esperança e confiar na misericórdia divina não é o bastante, apesar de já ser grande coisa. A fé e a esperança cristã eliminam a apatia e põem a gente em marcha. Como Geraldo Vandré é hora de dizer: “vem vamos embora que esperar não é saber, quem sabe faz a hora não espera acontecer” ou como o pastor Henrique Vieira “negros não vão voltar para a favela, LGBTs não vão voltar para o armário, mulheres não vão voltar para a submissão”. É hora de fazer acontecer.


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