• Introdução

 Agradeço à equipe organizadora deste congresso pelo convite; minha gratidão ao pe Manoel Godoy que foi quem indicou meu nome para esta mesa.

Agradeço especialmente aos companheiros de mesa pela companhia: professor Eduardo de la Serna, prof. Francisco Orofino e Frei Carlos Mesters – a quem admiro muitíssimo e cujo trabalho me serviu de guia nos meus primeiros passos rumo ao mergulho nas Escrituras.

Quando eu recebi o convite para estar com vocês, não entendi nada. Juro! Para mim, Orofino, Carlos Mesters e de la Serna e a maioria dos teólogos que aqui se encontram sempre foram um sobrenome em caixa alta, colocado entre parênteses no meio do texto, ou uma referência bibliográfica colocada segundo as normas da ABNT no fim dos trabalhos acadêmicos. Interrogada por um amigo se conhecia vocês, eu respondi com os versos de um samba de Zeca Pagodinho: “Você sabe o que é caviar? Nunca vi nem comi, eu só ouço falar”.

Apesar do susto inicial, aceitei com alegria o convite, no desejo de honrar com um compromisso antigo feito no íntimo do coração com o Deus da vida: jamais deixaria de proclamar a palavra dele, caso a oportunidade me fosse dada. Então, ainda que me custe estar entre os grandes dessa área, coloco-me aqui como aprendiz e pronta para acolher as intervenções de todos, principalmente dos companheiros da mesa.

Acolhi com muita alegria o tema que nos foi proposto: a experiência do Espírito na bíblia. A mim coube refletir brevemente sobre a experiência do Espírito na vida de Jesus e dos apóstolos. É um tema já bastante discutido e, certamente, não há nada que eu vou dizer aqui que vocês já não saibam.

Esse tema sempre me despertou interesse, desde meu primeiro contato com a bíblia, quando ela me foi apresentada num grupo de jovens na UFV (Universidade Federal de viçosa), universidade na qual estudava, no ano de 1980. Bastou ler apenas um primeiro relato da bíblia para que eu a amasse e compreendesse que não poderia mais viver senão para anunciar a experiência de fé que ela comunica: o encontro com o Deus-amor em Jesus Cristo.

Foi através da bíblia que fiz minha própria experiência do Espírito. Os relatos da bíblia nascem de uma experiência com o Espírito ou, talvez seja melhor dizer de uma experiência do Espírito. Por nascer dessa experiência do Espírito, a bíblia tem o dom de comunicar o próprio Espírito. Cada relato presente na Escritura revela a vida de uma gente aberta ao Espírito, pronta para acolher a presença de Deus que ele é capaz de comunicar. Foi lendo esses relatos que experimentei uma força nova para a vida. Então compreendi que a Escritura Sagrada é palavra que faz viver, é força para a vida. A paixão pela bíblia foi amor à primeira vista, e paixão singular sempre conservei pelos relatos que contam como Jesus e os apóstolos, assim como eu, experimentaram a força do Espírito em suas vidas.

  • Jesus e o Espírito

Não é incomum encontrar no meio cristão quem atribua os grandes feitos de Jesus (chamados, nos Sinópticos de milagres e, em João, de sinais) à sua natureza divina. Calorosas discussões são empreendidas nesse sentido. Os grandes feitos de Jesus são, para alguns, prova de sua divindade. Forma-se uma espécie de círculo vicioso: porque Jesus é Deus, faz milagres; os milagres provam que ele é Deus.

Uma leitura mais criteriosa dos Evangelhos nos mostra que não é bem assim. Os evangelistas não se cansam de falar que Jesus agiu sempre pela força do Espírito. Mesmo os Evangelhos de Marcos, Mateus e João, que não se dedicam tanto a esse tema, são coesos em afirmar que Jesus age pelo poder do Espírito[1].

  • No Evangelho de Marcos

O Evangelho de Marcos, como todos sabem, dispensa os relatos de nascimento e infância, presentes nos Evangelhos de Mateus e Lucas, assim como as aparições do Ressuscitado, como em Mateus, Lucas e João. O Segundo Evangelho é enxuto, querigmático e já começa com João batizando no deserto, anunciando que ele batizou com água, mas que um mais forte que ele batizaria com o Espírito Santo (cf. Mc 1,4-8). As referências à experiência do Espírito na vida de Jesus não são muitas. Marcos conta que Jesus foi batizado por João no rio Jordão e que o Espírito desceu sobre ele como pomba. A seguir, encontramos o relato que mostra o Espírito fazendo Jesus sair para o deserto onde será posto à prova por Satanás. E, desde então, Marcos parece ignorar o tema do Espírito. Jesus está pronto para seguir como o Servo Sofredor, o messias às avessas…

  • No Evangelho de Mateus

O Evangelho de Mateus também não vai dar tanta importância ao tema da experiência do Espírito na vida de Jesus. Em Mt 1,18, encontramos a notícia que Maria está grávida pela ação do Espírito Santo. E só! O próximo relato acerca dessa experiência será no batismo de Jesus. Jesus mesmo vê o Espírito descer sobre ele como uma pomba (Mt 3,16). Segue-se o relato da tentação: “Jesus foi conduzido ao deserto pelo Espírito, para ser posto à prova pelo diabo” (Mt 4,1) e corajosamente o Homem de Nazaré refutou todas as propostas que lhe foram feitas. Depois, Mateus não menciona mais explicitamente essa experiência do Espírito. No final do Evangelho, encontramos a ordem de Jesus: “Ide, pois, fazer discípulos entre todas as nações, e batizai-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28,19).

  • No Evangelho de João

No Evangelho de João, Jesus é identificado como o messias por seu precursor, o Batista, que afirma “Aquele sobre quem vires o Espírito descer e permanecer, é ele quem batiza com o Espírito Santo” (Jo 1,33). Para o evangelista João, no batismo, sobre Jesus não só o Espírito desce, mas permanece – verbo tão caro ao Quarto Evangelista –, como a Palavra que desceu e permaneceu entre nós (cf. Jo 1,1-18). João nem sequer diz que João Batista teria batizado Jesus, fazendo a gente pensar que quem o batiza é Deus mesmo com seu Espírito. João apenas testemunha a obra que Deus mesmo fez. Uma vez identificado como aquele em quem o Espírito desce e permanece, Jesus inicia seus sinais. Logo em seguida, vem o relato do primeiro sinal: bodas de Caná (Jo 2,1-12).

No decorrer do Evangelho, quase não temos referência explícita sobre essa experiência de Jesus. Nos capítulos 13 a 17, encontramos no discurso de despedida a promessa do envio do Espírito Santo aos seus seguidores, o que nos faz pensar que Jesus está pleno do Espírito por isso pode dá-lo aos seus. Mas nada mais claro. Ao final, em Jo 19,30, Jesus entregou o Espírito. Tal expressão carrega duplo sentido: ele entregou o Espírito ao Pai e o entregou aos seus, como Elias que deixou seu espírito para Eliseu. Nova referência ao Espírito aparece em Jo 20,21-22. Depois de garantir que seus discípulos são seus enviados, como ele é o enviado do Pai, O Ressuscitado sopra sobre eles e lhes dá o Espírito: “Recebei o Espírito Santo”.

2.4 Na Obra Lucana

 É a obra lucana que, de fato, vai se dedicar ao tema do Espírito. Tanto no Evangelho quanto nos Atos dos Apóstolos, Lucas não vai se cansar de falar da experiência do Espírito. No Evangelho, veremos a experiência do Espírito que Jesus fez; em Atos, a experiência dos apóstolos.

 

  1. No Evangelho

Para Lucas, a história de Jesus começa pela ação do Espírito: “O Espírito te cobrirá com sua sombra” (Lc 1,35): essa é a palavra do anjo dirigida a Maria. Certamente tal texto não quer dizer algo sobre a mãe do menino que vai nascer (se é virgem ou não), mas sobre o menino mesmo, pois não havia ainda essa preocupação mariológica de hoje. O nascimento do menino acontece pela ação do Espírito: um prenúncio de que ele será pleno desse mesmo Espírito.

 Quando Maria visita Isabel, o menino salta do ventre da velha esposa de Zacarias, pois a Aquele que Maria leva no ventre tem a plenitude do Espírito. E Isabel “ficou repleta do Espírito Santo” (Lc 1, 41).

João anuncia que batiza com água, mas que Jesus vai batizar com o Espírito Santo e com fogo (Lc 3,16). Para Lucas, Jesus vai comunicar o que lhe é próprio: o seu Espírito.

No relato do batismo, Lucas diz que “o Espírito Santo desceu sobre Jesus em forma corpórea, como uma pomba” (Lc 3,22).

Logo em seguida, “Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão e, no Espírito, era conduzido pelo deserto” (Lc 4,1). Jesus, o filho amado do Pai, está pronto para enfrentar o deserto da vida, pela força do Espírito. Lucas insiste; ele estava cheio do Espírito e, no Espírito, era conduzido pelo deserto. E, cheio do Espírito, Jesus combate o diabo. E o diabo vai ficar humilhado, tamanha a força daquele que capacita Jesus na batalha. Se, no deserto, Israel foi provado e reprovado; Jesus foi provado e aprovado, pois não enfrenta as pelejas da vida sozinho, mas pela ação do Espírito. Só depois desses textos que mostram claramente a dependência de Jesus do Espírito, ou seja, a experiência do Espírito que Jesus fez, é que Lucas começará os relatos da vida pública.

Antes, porém, Lucas vai falar mais uma vez que Jesus está pleno do Espírito. “Jesus voltou para a Galileia com a força do Espírito”, diz Lucas  (Lc 4,14). Para não deixar dúvidas da experiência do Espírito que Jesus fez, Lucas relata o discurso na sinagoga. Jesus pegou o livro do profeta Isaías (cap 61) e leu: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pois ele me ungiu para anunciar a boa-nova aos pobres…” (Lc 4,18). E, depois, disse: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir!” (Lc 4,21). Ao final desse texto, o evangelista relata que todos, maravilhados com o que viram e ouviram, testemunhavam a favor dele se perguntando: “Não é este o filho de José?”. Curiosamente, não há nenhum relato de milagre ou cura aí. Ao contrário, há uma clara e explícita rejeição a Jesus, a ponto de o expulsarem da cidade e o levarem para o alto do morro onde a cidade foi construída, para precipitá-lo de lá. Aliás, o diabo já tinha realizado coisa semelhante levando Jesus para o alto da cidade e também para o pináculo do templo, fazendo-lhe propostas indecentes, tais como adorá-lo em troca de reinos ou pular lá do alto na confiança que Deus o socorreria, como se Jesus aceitasse suborno do diabo ou privilégios por ser filho de Deus (Lc 4,5-12). Lucas é de fina ironia. Afirma: “Jesus, porém, passando pelo meio deles, continuou o seu caminho” (Lc 4,30), mostrando para nós que a experiência do Espírito não é primeiramente para realizar portentos, curas e milagres em shows ou espetáculos, mas para dar força para continuar o caminho da vida; para seguir em frente com o anúncio da boa-nova aos pobres (cf. Lc 4,18).

Só depois desse incidente com os adversários de Jesus é que Lucas narra os grandes feitos do Mestre de Nazaré; ele repreende um possesso na Sinagoga, ordena que a febre deixe a pobre da sogra de Pedro em paz, e, no fim do dia, cura muitos doentes e expulsa muitos demônios, sempre com muito sucesso. Depois desse fatigante dia de trabalho, Jesus, pela manhã, vai a um lugar deserto rezar. Precisa se reabastecer do Espírito em oração ao Pai. Querem que ele continue ali nas redondezas, fazendo aquelas proezas, mas ele se nega. Precisa ir a outras cidades anunciar a boa-nova (cf. Lc 4,42-44)

Lucas prossegue, mostrando Jesus sempre em oração (Lc 5,16; 6,12; 9,28; 22,41-42) e afirmando que o “poder de Deus” (Lc 5,17) ou o Espírito está com ele. É pela força do Espírito que Jesus toma a “firme decisão de partir para Jerusalém” (Lc 9,51), mesmo imaginando o que lhe esperava por lá. Curiosamente, depois que Jesus começa sua grande viagem da Galileia a Jerusalém, o evangelista não fica mais dizendo a toda hora que ele está cheio do Espírito ou que o Espírito está com ele. Parece que ele toma esse princípio como pressuposto, assim como os outros evangelistas.

Quando os apóstolos voltam da missão contando que também eles agem em nome de Deus, Lucas relata uma experiência bonita que Jesus fez. Jesus se alegra e exulta no Espírito (cf. Lc 10,21), pois a ação do Espírito é coisa que o Pai esconde dos sábios e revela aos pequeninos (Lc 10,22). E isso é coisa que faz a gente exultar mesmo: a sabedoria de Deus presente nos pequenos e que os grandes invejam.

Quando, a pedido dos discípulos, Jesus lhes ensina a rezar, o fruto da oração não será outro senão a presença do Espírito em suas vidas. Ao contrário dos outros evangelistas que dizem que o Pai dará tudo o que pedirem, inclusive João, Lucas diz que o Pai dará o Espírito, pois não há experiência maior que esta: a presença do Espírito em nós e que Jesus experimentou em plenitude (Lc 11,13).

No final do Evangelho, Jesus entrega ao Pai o seu Espírito (Lc 23,46), e o Ressuscitado, numa aparição aos Onze, lembra-lhes que eles serão suas testemunhas, mas que para isso receberão o que Pai prometeu, a força do alto, o Espírito (cf. Lc 24,48-49).

  • Os apóstolos e o Espírito

 

Sobre a experiência dos apóstolos, temos como fonte os Evangelhos, especialmente João, mas principalmente o livro dos Atos dos Apóstolos.

 

  1. Nos Evangelhos

Nos Evangelhos Sinópticos, poucas referências temos acerca da ação do Espírito sobre os apóstolos. Uma das mais significativas é aquela de Lucas, já mencionada anteriormente (Lc 11,13), acerca do Espírito que o Pai dará ao orante.

Em João, Jesus ensina a Nicodemos que é preciso nascer da água e do Espírito (Jo 3,5). E garante: Quem faz essa experiência já não é mais dono de si mesmo, pois é o Espírito quem o conduz (cf. Jo 3,8).

Em diálogo com a Samaritana, Jesus afirma que os verdadeiros adoradores são os que adoram em Espírito e em verdade (Jo 4,24).

No discurso de despedida de Jesus, encontramos as cinco sentenças sobre o Espírito: 1ª)  Jo 14,16-17: Jesus promete que o Pai nos dará um outro Defensor que ficará sempre conosco, o Espírito da verdade. 2ª) Jo 14,26: Jesus promete que o Defensor, o Espírito que o Pai enviará em seu nome, vai nos ensinar e recordar tudo o que ele disse. 3ª) Jo 15,26-27; Jesus promete que o Defensor, o Espírito da verdade, dará testemunho dele. 4ª) Jo 16,7-11: Jesus afirma que é bom que ele vá, pois se ele não for, o Espírito não virá e que este Espírito julgará o mundo. 5ª) Jo 16,12-15; Jesus promete que, quando vier o Espírito da verdade, ele nos guiará em toda a verdade, pois não falará por si mesmo mas o que tiver ouvido, e ele glorificará Jesus.

 

  1. Nos Atos dos Apóstolos

 No primeiro capítulo dos Atos dos Apóstolos, Lucas retoma o relato da ascensão com o qual terminou seu Evangelho: “Jesus foi elevado ao céu, depois de ter dado instruções, pelo Espírito, aos apóstolos que havia escolhido” (At 1,2). E a recomendação dada a eles é bem conhecida da gente: “Não vos afasteis de Jerusalém, mas esperai a realização da promessa do Pai, da qual me ouvistes falar, quando eu disse: ‘João batizou com água; vós, porém, dentro de poucos dias sereis batizados com o Espírito Santo’”.  Intrigados com as palavras do Mestre, os discípulos – curiosos – querem saber se é hora de restaurar o Reino de Israel. A resposta de Jesus é mais curiosa ainda: “Não cabe a vós saber os tempos ou momentos que o Pai determinou com a sua autoridade. Mas recebereis o Espírito Santo que virá sobre vós, para serdes minhas testemunhas em Jerusalém, por toda Judeia e Samaria, e até os confins da terra” (At 1,8). Trocando em miúdos: “Não sejam  enxeridos nem se preocupem com o que não é da conta de vocês. Vão cuidar da tarefa que lhes cabe: pela força do Espírito, testemunhem minha presença em todo canto!”. Terminada a tarefa de Jesus, que sobe ao céu, começa a tarefa dos discípulos.

Do mesmo modo que começou o Evangelho com a descida do Espírito sobre Jesus capacitando-o para a missão (batismo), Lucas inicia também o livro dos Atos dos Apóstolos. No capítulo 2, antes de qualquer feito significativo dos discípulos, Lucas relata o cumprimento da Promessa. O Espírito é derramado sobre os apóstolos no dia de Pentecostes. Tendo sido capacitados pelo Espírito, tudo que aconteceu com Jesus nos Evangelhos vai acontecer com os apóstolos, especialmente com Pedro e Paulo, nos Atos. A partir daí os apóstolos vão agir pela força do Espírito.

Não vão faltar nesse livro referências à ação do Espírito na vida dos seguidores de Jesus. Somam ao todo 59 vezes que o Espírito é citado; 21 vezes: o Espírito Santo; 16 vezes: Espírito Santo (sem artigo); 19 vezes: o Espírito; 2 vezes: Espírito do Senhor; 1 vez: Espírito de Jesus. Em alguns casos, o Espírito aparece como protagonista das cenas, tomando a dianteira, decidindo e ordenando o que fazer… É o caso de At 8,29 (o Espírito disse a Filipe para se aproximar do carro do eunuco e acompanhá-lo); At 10,44 (Pedro ainda falava quando o Espírito Santo interrompeu o apóstolo e desceu sobre Cornélio e sua família, tomando a dianteira da ação entre os pagãos); At 13,2 (O Espírito Santo disse à comunidade de Antioquia para separar Paulo e Barnabé para a missão); At 16,7 (Depois de a comitiva missionária de Paulo passar em Trôade, o Espírito de Jesus impediu que ela fosse para a Bitínia) e assim vai. Toda a ação evangelizadora dos apóstolos se encontra profundamente marcada pela ação do Espírito que se manifesta, toma as rédeas das decisões, escolhe e envia os discípulos…

Mas essa experiência que os discípulos fazem não é exclusividade deles. Ela é para todos. Para que não reste dúvidas quanto a isso, Lucas fala claramente em At 2,38-39: “Recebereis o dom do Espírito Santo, pois a Promessa é para vós e vossos filhos e para todos aqueles que estão longe, todos aqueles que o Senhor nosso Deus chamar”. Depois, reafirmando essa universalidade da experiência do Espírito, Lucas relata diversas efusões do Espírito (ou vários pentecostes). O primeiro para os apóstolos e demais presentes que oravam no Cenáculo. Junto com eles são destinatários desse os que estavam sujeitos à Torah, os judeus, incluindo judeus da diáspora e os prosélitos (At 2,1-13); depois, para os samaritanos (At 8,14-17); em seguida, para alguns gentios piedosos, como é o caso de Cornélio e sua família (At 10,44-18) e, finalmente, para os gentios todos, como é o caso da efusão do Espírito em Éfeso (At 19,1-7). Cumpre-se assim o programa de Atos 1,8: “Sereis minhas testemunhas em Jerusalém, na Samaria e na Judéia, até os confins do mundo”. No meio desses relatos, Lucas não deixa escapar Paulo que, depois do encontro com o Ressuscitado no caminho de Damasco, é acolhido por Ananias que lhe anuncia que ele recobrará a visão e ficará cheio do Espírito Santo (At 9,17).

Em todo relato, Lucas insiste que é o Espírito quem está agindo, encorajando os discípulos a seguirem em frente com a missão recebida: ser testemunhas do Ressuscitado em todo canto, até os confins da terra. Corajosamente os discípulos do Senhor saem evangelizando e Deus confirma com sinais e prodígios que a obra evangelizadora é sua.

Lucas termina seu relato com uma última referência ao Espírito, no discurso de Paulo aos judeus de Roma, lembrando como o Espírito Santo falara pela boca dos profetas acerca da dureza de seus corações (cf. At 28,25).

Desse modo, a ação do Espírito perpassa toda a obra lucana, mostrando como não é possível ser discípulo do Ressuscitado senão pela experiência do Espírito, pela força de sua ação transformadora em nós.

  • Conclusão

 Segundo os relatos dos Evangelhos e Atos, a experiência do Espírito não é uma experiência a mais, nem uma experiência possível apenas. É uma experiência determinante, absolutamente necessária. Nenhum dos evangelistas pensa a missão de Jesus sem essa experiência e Atos dos Apóstolos também a coloca como condição para o apostolado dos que seguem o Ressuscitado.

Esta experiência é fundante na vida de Jesus e dos apóstolos. Não só porque está no princípio, precedendo a ação deles, mas porque é princípio que fundamenta, orientada a vida deles. É cheio do Espírito que Jesus vai para o deserto enfrentar o diabo. Pedro faz referência à descida do Espírito sobre eles no seu primeiro discurso (não é por força do vinho que ele anuncia, mas pela força do Espírito).

Essa experiência é dada; vem de outrem, não brota de um esforço humano, mas de Deus mesmo que dá seu Espírito. Notemos que todos os evangelistas falam da “descida” do Espírito sobre Jesus. Também para os apóstolos é assim. O Espírito “desce” sobre eles; Jesus promete que a força que vão receber vem do alto; que ele vai mandar o Espírito. Jesus presta contas no final da vida do dom recebido (como um talento que recebeu de outrem). Ele o entrega multiplicado ao Pai; ou seja, ele possibilita sua vinda sobre os seus. A partir de sua elevação, o Espírito com o qual o Pai o plenificou plenificará a vida de todos os seus seguidores.

Tanto para Jesus como para os apóstolos, essa experiência é uma constante, que precisa ser renovada na intimidade com Deus. Lucas mostra isso quando afirma que Jesus está sempre orando ao Pai, e os discípulos estão sempre atentos ao que o Espírito diz. A exigência de uma experiência permanente do Espírito se compreende, pois a fé é devir e não algo definitivamente adquirido; é uma experiência a ser refeita todos os dias.

Essa é também uma experiência transformadora. Tal transformação é observada na  atitude dos apóstolos que, antes de Pentecostes, é marcada por medo, dispersão etc. e, depois de Pentecostes, tem a marca corajosa do anúncio a todos os povos. Outro exemplo significativo é a mudança de mentalidade de Pedro na casa de Cornélio. A partir da ação do Espírito em Cornélio e nos seus, Pedro se converte e acolhe os gentios no seio da comunidade cristã.

A experiência do Espírito dá força para a vida, ela faz viver, mexe com a vida toda da gente. Jesus encontra força para seguir resolutamente para Jerusalém, a caminho da morte, nessa experiência fundante. Também os apóstolos encontram força para o discipulado do Ressuscitado nessa experiência primeira.

Revendo a presença do Espírito na vida de Jesus e dos seus, não podemos deixar de pensar duas temáticas importantes.

Primeiro: a práxis pastoral, ou seja, a ação evangelizadora da Igreja. A pergunta é: Como vamos, através de nosso trabalho, favorecer essa experiência para que ela não seja privilégio de alguns? Nosso maior desafio hoje é possibilitar essa experiência; criar condições para que ela aconteça, criar um ambiente que a favoreça. Um dos caminhos que me ocorre como biblista é difundir a Palavra de Deus não para defender os dogmas e a doutrina, nem apenas para julgar as circunstâncias da vida, as realidades terrestres. Precisamos difundi-la como força para viver, porque ela relata uma experiência que fez viver. Quando lemos o texto sagrado e dele nos apropriamos, essa experiência acontece na nossa vida também. Certamente que essa experiência afeta todos os recônditos da vida: desde aqueles mais secretos do coração da gente até aqueles mais desafiadores da nossa realidade.

Segundo: a reflexão teológica, ou seja, a teologia que temos produzido. Entendo que a experiência do Espírito na vida de Jesus e dos apóstolos nos motiva a uma teologia mais pneumatológica. Essa, me parece, é uma dívida da teologia da qual somos herdeiros. Há um déficit do Espírito na nossa teologia e na nossa vivência cristã. Eu me atreveria a dizer que precisamos de uma teologia pneumatoderiva.

Numa classificação simplificada, pois o tempo não permite maiores aprofundamentos, podemos elencar a teologia em três fases:

  • 1ª) Teologia teoderivada: Tudo vem do Pai; tudo depende de sua iniciativa. Deus revela sua verdade e Jesus é seu porta-voz. O Espírito praticamente ficou esquecido. É a teologia de Trento e da escolástica.
  • 2ª) Teologia cristoderivada: Em reação à primeira fase, muito dedutiva, tudo passa a ser dito a partir de Jesus de Nazaré, o homem que veio de Deus, Construímos uma teologia indutiva, que parte das realidades terrenas, da vivência diária, da vida comum do Nazareno. É por ele que se chega ao Pai e se pode dizer algo acerca de Deus. O Espírito também ficou muito esquecido nessa teologia. É a teologia do Vaticano II, a Nova Teologia, da Teologia da Libertação.
  • 3ª) Teologia pneumatoderivada: coloca a experiência do Espírito como centro da teologia. É o Espírito quem age em nós e nos faz conhecer Jesus, o rosto humano de Deus. Não é por observação da realidade, nem por inteligência humana, que chegamos a esse conhecimento. Ele é puro dom de Deus, é graça, é obra da experiência do Espírito. Essa teologia não é descendente nem ascendente, nem dedutiva nem indutiva, mas é a as duas coisas ao mesmo tempo. É descendente pois depende da gratuidade do Pai; é ascendente porque a ação do Espírito que leva a amar e a conhecer Jesus só pode ser dita a partir da experiência, da realidade concreta de nossas vidas.

Perdoem-me os que não comungam comigo desta esperança: eu gostaria que nossa teologia redescobrisse a experiência do Espírito. Só uma teologia mais pneumatoderivada poderia, na minha opinião, corrigir esse “déficit do Espírito” e nos ajudar a dar conta dos desafios de hoje. Num mundo em mudança, com transformações tão rápidas e vertiginosas, só o Espírito – que não aceita cadeias, pois sopra onde quer e quando quer – pode nos ajudar a seguir em frente sem esmorecer, compreendendo as urgências de nosso tempo. Eu proponho a todos nós uma teologia que redescubra a experiência do Espírito, tanto no campo pessoal quanto no campo eclesial, mesmo com os riscos que ela implica. Para isso, haveremos de vencer preconceitos; superar obstáculos – alguns no campo do conhecimento, outros no campo da ação pastoral. Resta a nós nos dobrar diante do Espírito e falar como o apóstolo Pedro: “Quem sou eu para me opor à ação de Deus?” (At 11,17).

[1] Um estudo mais aprofundado mostra que a palavra Espírito não significa a mesma coisa nos quatro Evangelhos, mas a extensão deste texto não nos permite entrar nesse tema.


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