“Não farás para ti escultura, nem imagem alguma do que está em cima nos céus, nem embaixo na terra, ou nas águas, debaixo da terra. Não te prostrarás diante delas, nem lhes darás culto, pois eu sou o SENHOR, teu Deus, Deus zeloso…”(Ex 20,4-5; cf. também Dt 4,15-18).

Desde os dias dos apóstolos, a Igreja condenou sistematicamente o pecado de idolatria. Os escritos dos Padres da Igreja alertaram contra esse pecado, e os concílios da Igreja também trataram desse assunto.

Os católicos não ocultam e nem excluem o mandamento bíblico para justificar a existência de imagens em seus templos. Apenas fazem uma distinção entre a proibição de adoração de imagem, por causa da idolatria, e o uso religioso das mesmas em contexto religioso (cf. Ex 25,18-20). Os católicos usam estátuas, pinturas e outros dispositivos artísticos como representações simbólicas com finalidades catequéticas ou litúrgicas. A visualização é instrumento especialmente útil para atingir a memória e a imaginação, principalmente agora que estamos na era da imagem.E é basicamente isso que a bíblia faz nas descrições das visões de Dn 7,9 e Ez 1,4-28. Ela ajuda a viabilizar uma ideia, um conceito, uma mensagem, tornando-a mais plástica, mais palpável.

O texto de Ex 20,4-5 não tem como preocupação central a imagem ou ícone, mas a idolatria. Não é o uso religioso da imagem que preocupa, mas a não distinção entre Deus e os ídolos. Se levarmos a passagem bíblica acima citada de forma literal, também estariam proibidos os filmes religiosos, vídeos, fotografias, desenhos animados e outras coisas semelhantes. Cenas bíblicas não poderiam ser pintadas em Bíblias, livros de imagens, camisetas, adesivos, cartões, capas de CDs e de DVDs. De novo insistimos: há que se distinguir entre o uso religioso de imagens e a adoração de ídolos como se as imagens fossem Deus, acreditando que elas possuem qualquer divindade ou virtude que merecessem a nossa adoração.

No início de sua história, Israel foi proibido de fazer quaisquer representações de Deus, porque, dada a cultura pagã em torno deles, os israelitas poderiam ser tentados a adorar a Deus como se fosse uma divindade pagã, na forma de um animal ou de algum objeto natural (por exemplo, um touro ou o sol). Fazem parte desta preocupação os textos acima citados de Dt e Ex.

O uso de imagens na Igreja não é errado, como alguns querem provar. Usar imagens com o objetivo de aprofundar o nosso conhecimento e amor a Deus é possível. Veja só: a imagem é tão importante que, com a Encarnação de Cristo, Deus ganhou uma imagem: Jesus de Nazaré. Deus mostrou-se de forma plena no ícone da humanidade, pois “Ele é a imagem (em grego: ícone) do Deus invisível, o primogênito de toda criatura” (Cl 1,15). Cristo é o “ícone” palpável do Deus invisível. Ora, se deus se fez imagem em Cristo, ele não pode ser contra imagens. Até porque Deus não é contra nada gratuitamente, a não ser que elas nos façam mal. A preocupação de Deus é a vida humana e não regras tolas e sem sentido a serem seguidas sem uma razão de ser.

Pra completar a reflexão, tomemos uma afirmação do CIC que mostra claramente que toda idolatria é abominada pela Igreja: “A vida humana unifica-se na adoração do Único. O mandamento de adorar o único Senhor simplifica o homem e o livra de uma dispersão infinita. A idolatria é uma perversão do sentimento religioso inato do homem. O idólatra é aquele que ‘refere a qualquer coisa que não seja Deus a sua indestrutível noção de Deus’” (Catecismo da Igreja Católica, 2114).

Não confundamos, pois, ter imagens ou esculturas com ter deuses ou idolatrar. A bíblia não proíbe terminantemente ter imagens, ou não haveria na bíblia lugares onde aparece a ordem de fazer imagens: a serpente de bronze no deserto (cf. Nm 21,4-9), as imagens de querubins na arcada aliança (cf. Ex 25,17-22), as imagens de touros no templo (cf. 2Cr 4,2-4), as imagens de anjos no templo (cf. 2Cr 3,10-13). A bíblia proíbe a idolatria, ou seja, colocar qualquer coisa no lugar de Deus, referir a nossa vida a outro que não ele. Se as imagens são um perigo para o povo, ou seja, deixa-o exposto ao risco de confundir Deus e as imagens, então a recomendável é não fazê-las. Mas a preocupação é a idolatria e não as imagens. Para idolatrar, não é preciso ter imagens em casa ou nos templos. Basta tirar Deus do centro e botar outra coisa: o dinheiro, nossos interesses e até nossa cabeça obtusa; mas, admitamos, esta coisa pode ser também imagens, santos e qualquer outra referência da religiosidade popular quando mal orientada.


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