Há muitos e muitos anos, numa terra distante daqui, viveu uma pobre peregrina. A pobre mulher, como se a pobreza não lhe bastasse, ainda tinha uma perna torta. Naqueles tempos difíceis de crise, a pobre peregrina percorria a região, com o seu passo manco, andando de casa em casa, trazendo às costas o seu costumeiro sacolão de bugigangas e cantando sua canção:

“A pobre peregrina, que tem a perna torta, batendo de porta em porta, pedindo caridade”.

E assim era ela conhecida pela canção que nunca parava de gritar pelas estradas e ruas.

E ela nunca parava de andar à cata de suas esmolas. Uma esmola que se ganha é sempre uma pequena porção de ilusão para enganar o pobre. Um pedacinho microscópico de pão mofado, alguns centavos de dinheiro, uma peça de roupa envelhecida, restos e sobras – tudo isso ela ia guardando no seu sacolão, enquanto cantava sua canção.

Um dia, porém, a vida reservou para a pobre peregrina uma dessas surpresas que dificilmente a vida sabe dar. Esmolando a esmo, encontrou ela um desses fazendeiros solteirões com mais de sessenta, podre de rico, sem herdeiros e, vejam só, à beira da morte. O bom senhor compadeceu-se da pobre peregrina e, tocado no íntimo por um profundo senso de caridade, resolveu doar à peregrina os seus pertences, reservando a si somente o que pudesse levar para o túmulo.

A pobre peregrina pasmou-se de júbilo e nesse dia cantou mais alto ainda sua canção, pulando de alegria ao pensar que teria tudo o que sempre sonhara: fazendas aqui e ali, gado, dinheiro à beça, empregados. Pegou o documento de doação das mãos trêmulas do velhote, meteu-o no sacolão onde deviam ir todas as esmolas e se mandou. Foi correndo contar a novidade para os seus colegas pedintes.

Qual não foi, porém, sua decepção diante da triste reação dos colegas: “Que é isso, peregrina? Como é fácil enganar você! Então, você pensa que esse papel vale alguma coisa? Você acha que alguém no mundo lhe daria tanta coisa de graça? Que bobice! Você não ganhou foi nada. Além de ser feia e de ter a perna torta, você é triste de boba. E ainda pensa que ficou rica…” E caíram na risada.

A pobre mulher duvidou de si mesma. Olhou bem para os colegas, olhou bem para si e pensou: “É mesmo! Como pude ser tão boba assim? Onde já se viu alguém dar de esmola fazendas, carros, bois, dinheiro? Sou boba mesmo. Preciso cair na real e arranjar comida para o almoço, que papel não enche a barriga”.

Desiludida, a pobre peregrina olhou tristonha para o documento em suas mãos, meteu-o de novo no fundo do sacolão e pôs-se a cantar novamente sua triste canção pelas ruas da cidade, certa de que havia se enganado. Tudo fora um sonho. E, assim, a vida foi em frente.

Muitos anos depois, já velha e cansada, a peregrina veio a passar por momentos de grande crise. As esmolas já não davam para sustentá-la. Foi num desses  momentos que ela parou à beira da estrada, abriu o sacolão e começou a tirar de lá um montão de coisas, para ver se achava algo para comer. Lata velha, chinelo arrebentado, papéis amassados, lenço rasgado, tanta coisa inútil e, no fundo do sacolão, encontrou ela aquele velho papel de doação, amassado e amarelado pelo tempo. Uma leve esperança iluminou, então, sua mente. “Quem sabe, pensou cautelosa, se esse papel não vale pelo menos alguma coisinha, mesmo que não valer tanto assim… só para matar um pouco essa fome…”

Meio receosa, a peregrina ajuntou a trouxa e foi parar no cartório da cidade. E quase não acreditou quando lhe disseram que, de fato, o documento era verdadeiro. Sim, tudo aquilo era seu. Ela era a dona legítima de toda aquela fortuna.

Correu então para tomar posse de tudo. Comprou roupas novas, lenço novo, dentadura nova, renovou-se por completo, por dentro e por fora. Vida nova, muito dinheiro, muita fama, tudo do bom e do melhor.

Só que, ironia do destino, já estando velha, a pobre peregrina logo veio a falecer e pouco gozou de sua riqueza.

Por isso, fique esperto e não perca as chances que a vida te oferece; fique firme sem desanimar…


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