Quem foi criado em ambiente católico, desde pequenino, cresceu entendendo que comungar é “receber a hóstia santa”, como diziam nossos pais. Não é à toa que a primeira eucaristia também é chamada de primeira comunhão. Entramos para a catequese (antes chamada de catecismo) e nos preparamos para o importante dia de receber a hóstia. Havia um monte de tabus e crendices em torno desse dia. Destacamos as mais comuns: não se podia mastigar a hóstia ou ela viraria sangue; não se podia deixá-la grudar no céu da boca ou significava que comungamos em pecado; não se podia tocar na hóstia pois a mão é pecadora… Assim, crescemos envoltos em uma compreensão estranha da eucaristia, que não favoreceu a partilha, nem o compromisso de doar a vida. Despertou apenas temor de Deus, que pode vingar algum ultraje à hóstia; reverência perigosa ao sagrado, que se mostra intocável e distante da nossa vida, e um puritanismo pernicioso de que a eucaristia é para os santos. Logo, não é sem motivo que ainda hoje a eucaristia é identificada com a hóstia e que sua recepção parece o único modo de fazer comunhão com Deus.

Talvez fosse bom a gente lembrar quando foi que Jesus instituiu a eucaristia. Segundo os relatos dos Evangelhos Sinóticos, Jesus a instituiu numa refeição, pouco antes de sua morte. Sabendo que seus dias estavam no fim, pois as perseguições e ameaças só aumentavam, Jesus resolveu deixar um sinal de sua presença. Então, na última ceia, tomou o pão, partiu, deu graças e o deu aos seus amigos dizendo que perpetuassem sua memória por meio desse gesto. É importante lembrar que Jesus não deu um pão inteiro para cada um. Deu um pedaço de pão para simbolizar sua vida partida e repartida entre os seus. Assim, a comunhão não é só com o mestre Jesus, mas com todos aqueles que creem, com a Igreja. Comungar não é “receber Jesus no nosso coração”, como piedosamente nos ensinaram na catequese. Comungar é fazer comunhão com o projeto de Jesus, com sua vida doada, partida e repartida entre os seus. Logo, comungar é fazer comunhão com os irmãos, cada qual com um pedaço do pão da vida repartido por Jesus. A comunhão só é plena se for comunhão de vidas; compromisso com cada irmão. Como Jesus tomou sua vida e a repartir como sinal de amor e doação, cada pessoa que comunga é convidada a se entregar, a se doar em favor dos outros irmãos, num amor sem medidas.

Ora, se a gente comunga da vida e do projeto de Jesus comprometendo-se com ele a repartir nossa vida em prol dos outros, como é possível participar da eucaristia, comer a hóstia e desprezar o próximo? Realmente, há algo errado nessa prática. A comunhão da eucaristia implica em respeito ao próximo, em acolhida dos pequenos, em aceitação das diferenças… Comungar a hóstia e torcer o nariz para o homossexual ou transgênero não é participar da eucaristia; é só comer a hóstia mas sem entrar em comunhão. Comungar a hóstia e desprezar o casal de nova união é negar-se à comunhão de vida que Jesus de Nazaré propôs. Comungar a hóstia e desprezar os pobres e desvalidos é negar tudo que Jesus ensinou. E por aí vai… São muitas as possibilidades de negar a comunhão mais genuína, ficando somente na superficialidade do rito.

Nas comunidades eclesiais, seria bom que isso fosse conversado abertamente, sem desrespeito a ninguém e sem tom de acusação. Às vezes, basta uma pequena palavra do presbítero questionando certos conceitos e certas práticas para despertar o povo para uma postura mais lúcida e cristã. Também os leigos devem introduzir essa postura dialogal nas suas comunidades. Não é preciso esperar o padre falar sobre isso. Nos conselhos paroquiais, nos cursos, nas reuniões diversas, que tal a gente começar a conversar sobre o que é a comunhão com o Ressuscitado? Que tal recordar que a comunhão com ele passa necessariamente pela comunhão com a comunidade eclesial, ou seja, com todos os que creem em seu nome? Fica aí a dica!


Dica anterior:   97. Comungar de joelhos
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