Todos os anos, a liturgia do Segundo Domingo da Quaresma utiliza um dos relatos da “Transfiguração”. Esse episódio é narrado pelos três Evangelhos Sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), o que possibilita à liturgia oferecer um texto para cada ano, conforme o ciclo litúrgico (A,B e C), sem necessariamente repetir, uma vez que, mesmo se tratando do mesmo episódio, cada evangelista o narra de maneira própria, considerando suas características literárias, as intenções teológicas e, principalmente, as necessidades de suas respectivas comunidades. Isso faz com que os três relatos se diferenciem entre si. Neste ano, a liturgia faz uso do relato de Lucas – 9,28-36. Por sua vez, esse é o mais rico de elementos e detalhes próprios, como veremos durante a reflexão.

Antes de adentrarmos diretamente no texto, é importante fazer algumas considerações a nível de contexto. Começamos pela sua localização dentro do Evangelho. Esse episódio é precedido por três importantes momentos interligados: a confissão de Pedro (cf. Lc 9,18-21), o primeiro anúncio da paixão (cf. Lc 9,22) e a declaração de Jesus sobre exigências para o discipulado (cf. Lc 9,23-27); se trata de uma sequência narrativa reveladora da identidade e do destino de Jesus, por isso, os discípulos devem estar à par de tudo isso para decidirem se vale a pena continuar ou não no seu seguimento. Ora, Jesus tinha lhes perguntado sobre a sua identidade: o que diz o povo e o que seus discípulos pensavam a seu respeito; em nome dos Doze, Pedro respondeu que Jesus é “o Cristo de Deus” (cf. Lc 9,18-22).

Embora correta, a resposta de Pedro poderia ser facilmente distorcida, pois contemplava as expectativas do messianismo nacionalista vigente: um messias (Cristo) glorioso e potente; por isso, Jesus o repreendeu e, imediatamente, fez o primeiro anúncio da sua paixão, morte e ressurreição, para evitar falsos entusiasmos. Logo em seguida, tratou de deixar claro que o seu seguimento compreendia diversas exigências, tais como: renunciar à própria vida e carregar a(s) cruz(es) a cada dia. As palavras de Jesus pareciam não ser suficientes para a compreensão dos discípulos. Outro dado interessante, ainda a nível de contexto, é que a transfiguração antecede o segundo anúncio da paixão (cf. Lc 9,43-45) e, prepara para a viagem decisiva a Jerusalém, a maior seção do Evangelho segundo Lucas (cf. Lc 9,51 – 19,27).

Como diz o texto, “Jesus levou consigo Pedro, João e Tiago e subiu à montanha para rezar” (v. 28). A escolha desses três discípulos não significa privilégio, mas necessidade; eram os três mais difíceis de lidar e os que mais tinham dificuldade de assimilar os ensinamentos de Jesus. Pedro é sinônimo de dureza e fechamento; é o discípulo que Jesus mais repreende durante todo o seu itinerário. Como ele sempre se antecipa, é o primeiro a responder e o que mais se expõe, também é o primeiro a ser corrigido. João e Tiago, conhecidos como “filhos do trovão” (cf. Mc 3,17), eram os mais fanáticos, ambiciosos (cf. Mc 10,35-45), e de temperamento explosivo; pouco tempo após a transfiguração, João será repreendido proibir a um homem que não fazia parte do grupo de pregar e expulsar demônios em nome de Jesus (cf. Lc 9,49-50); os dois, João e Tiago, também serão repreendidos no início da viagem ao proporem tocar fogo nos samaritanos que os rejeitaram (cf. Lc 9,51-55). Portanto, Jesus os chama para estarem mais perto de si pela necessidade de cada um e por não desistir do ser humano, apesar das fraquezas e debilidades.

Logo nesse primeiro versículo, encontramos um detalhe importante que distingue o relato de Lucas dos outros dois (Mateus e Marcos): a oração como finalidade da subida à montanha. Mateus e Marcos dizem apenas que Jesus subiu à montanha com os discípulos, mas somente Lucas diz que foram para rezar. A oração é um traço característico de Jesus em todo o Evangelho segundo Lucas, sobretudo quando antecede os momentos decisivos de sua vida: antes da escolha dos Doze (cf. Lc 6,12), antes de perguntar aos discípulos sobre a sua identidade (cf. Lc 9,18), durante o caminho para Jerusalém (cf. Lc 11,1), e antes de ser preso (cf. Lc 22,39-46). Lucas caracteriza Jesus como um homem de oração: “Ele costumava retirar-se em lugares desertos para rezar” (Lc 5,16). A montanha é, por excelência, na linguagem bíblica, o lugar do encontro com Deus. Essa montanha não é determinada em nenhum dos evangelhos, embora a tradição, a partir de Orígenes – teólogo que viveu entre os séculos II e III – a tenha identificado como o Monte Tabor, o que não se sustenta com dados da Bíblia. É melhor mantê-la anônima, como fizeram os evangelistas, porque não se trata de um dado geográfico, mas teológico; toda ocasião de encontro e intimidade com Deus é uma subida à montanha.

A oração revela a verdadeira identidade de Jesus: “Enquanto rezava, seu rosto mudou de aparência e sua roupa ficou muito branca e brilhante” (v. 29). As vestes brancas e brilhantes são características do que é do céu (cf. Lc 24,4; At 10,30), o que pertence a Deus. Com essa imagem, o evangelista revela que Jesus, embora homem, pertence também à esfera divina; Ele reflete a glória do Pai no seu rosto. Não se trata de um milagre; é uma maneira simbólica de dizer que, na oração, o ser humano se comunica claramente com Deus, rompem-se as barreiras entre o humano e o divino. Também não se trata de uma antecipação da glória, como às vezes se diz, mas uma demonstração de que o humano e o divino se encontram e se fundem na oração, o que se comprova pela afirmação seguinte: “Eis que dois homens estavam conversando com Jesus: eram Moisés e Elias” (v. 30). Moisés e Elias, representantes da antiga aliança, respectivamente da Lei e dos Profetas, também estavam revestidos de glória, porque já pertenciam ao âmbito do divino; Moisés é aquele que morreu, “mas ninguém sabe onde é a sua sepultura” (cf. Ex 34,6), e isso é um modo de dizer que o seu corpo foi levado para junto de Deus; já Elias, nem sequer morreu, de acordo com 2Rs 2,11, foi levado para o céu em uma carruagem de fogo. Portanto, de acordo com a tradição hebraica, Moisés e Elias pertenciam ao âmbito celestial e, por isso, se comunicam com Jesus que também pertence a esse âmbito, e a oração favorece essa comunicação.

Somente Lucas diz o tema da conversa entre Jesus, Moisés e Elias: “Eles apareceram revestidos de glória e conversavam sobre a morte que Jesus iria sofrer em Jerusalém” (v. 31); sobre isso, Mateus e Marcos silenciam. Porém, essa tradução não é suficiente; o evangelista diz que eles conversavam sobre o “êxodo” de Jesus, (em grego: έξοδος), o que comporta não só a morte, mas todo o mistério pascal: paixão, morte e ressurreição. Jesus não vai apenas morrer, mas fazer um processo de libertação que comporta sofrimento e morte, mas culminará com a ressurreição. Os discípulos não participam da conversa porque se distraem: “Pedro e os companheiros estavam com muito sono. Ao despertarem, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com ele” (v. 32). Aqui aparece outro detalhe exclusivo de Lucas, relacionado à oração: o sono dos discípulos. Esse detalhe é, na verdade, uma denúncia do evangelista: a falta de perseverança na oração priva a comunidade da experiência com Deus. Não se trata de um sono real, mas de uma imagem para descrever a desatenção e a falta de perseverança. No Monte das Oliveiras, já no contexto da paixão, Jesus irá repreendê-los exatamente porque estavam adormentados, quando deveriam estar rezando (cf. Lc 22,45-46).

Sem perseverança na oração, as propostas da comunidade tendem a ser superficiais, pois não são geradas da intimidade com Deus, o que o evangelista denuncia com a ideia absurda e ingênua de Pedro: “E, quando estes homens iam se afastando, Pedro disse a Jesus: ‘Mestre, é bom estarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias’. Pedro não sabia o que estava dizendo” (v. 33). Antes de tudo, percebe-se a tentação do comodismo, pois ficar na montanha em oração é praticamente lavar as mãos para os problemas e sofrimentos do mundo, é uma fuga. Deve-se subir à montanha para fortalecer-se para a missão e os desafios que essa implica. No entanto, o mais grave na fala de Pedro, é revelar que Jesus ainda não era o centro da sua vida e nem do grupo dos discípulos: ele(s) continua(m) dando mais importância a Moisés! É esse o sentido do nome de Moisés aparecer no centro: “uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”; na mentalidade hebraica, o nome que aparece no centro é o mais importante. Com isso, o evangelista está denunciando, as comunidades que colocam a Lei acima do Evangelho. Esse era um problema das comunidades primitivas e, Lucas e Paulo, sobretudo, combateram com muita ênfase em seus escritos (Atos dos Apóstolos e Cartas Paulinas). Onde o Evangelho não é o centro, não há discipulado nem cristianismo.

Diante do absurdo da fala de Pedro, o próprio Deus intervém e interrompe: “Ele estava ainda falando, quando apareceu uma nuvem que os cobriu com sua sombra. Os discípulos ficaram com medo ao entrarem dentro da nuvem. Da nuvem, porém, saiu uma voz que dizia: “Este é o meu Filho, o Escolhido. Escutai o que ele diz!” (vv. 34-35). A nuvem com sua sombra, ao longo da tradição bíblica é sinal da manifestação e presença de Deus. Essa cena é, praticamente, uma repetição da cena do batismo de Jesus: o Pai se manifesta, fala e dá testemunho do Filho. Diante das dúvidas e falta de convicção nos discípulos sobre a identidade de Jesus, quem tem mais propriedade para esclarecer é o seu Pai. Por isso, o mais importante aqui são as palavras que saem da nuvem: “Este é o meu Filho, o Escolhido. Escutai o que ele diz!”. Mateus e Marcos mantém a mesma fórmula da cena do batismo; Lucas a modifica, trocando a qualificação do Filho de Amado para Escolhido. “Amado” tem um sentido mais amplo; na verdade, todas as pessoas são amadas pelo Pai; “Escolhido” tem um sentido mais específico, denota a unicidade da missão de Jesus, o que o habilita a ser o único portador de palavras dignas de atenção, daquele momento em diante. Daí, a ordem: “Escutai o que ele diz!”.

Moisés e Elias, como representantes da Lei e dos Profetas, já disseram tudo o que tinham a dizer; de agora em diante, somente o Evangelho tem palavras adequadas para a comunidade. O Evangelho não contradiz a Lei e os Profetas, mas é a sua plenitude, ao mesmo tempo em que é diferente e novo. Por isso, enquanto o Pai dá ordem aos discípulos para escutarem seu Filho Escolhido, Moisés e Elias desapareceram: “Enquanto a voz ressoava, Jesus encontrou-se sozinho” (v. 36a). Ora, nas primeiras comunidades, inclusive entre os apóstolos, insistiam em usar o Antigo Testamento como norma, gerando divisões e exclusões, o que Lucas denuncia com clareza em sua segunda obra, os Atos dos Apóstolos. O uso do Antigo Testamento (a Lei e os Profetas) deveria ser feito para incluir, para mostrar que o Evangelho de Jesus é o seu pleno cumprimento, e não para separar. Havia uma tendência de reproduzir na comunidade cristã a mesma estrutura e mentalidade do judaísmo: apego à lei e exclusivismo. Isso Jesus mesmo combateu em seu ministério e era necessário que os continuadores da sua missão continuassem fazendo. Por isso, o evangelista ensina que é Jesus o único e autêntico interprete da Escritura (Antigo Testamento); Moisés e Elias falaram o que tinham que falar e, de agora em diante, só vale o que Jesus disser, ou seja, o seu Evangelho.

Marcos (a fonte principal utilizada por Lucas) diz que Jesus proibiu os discípulos de falar sobre essa experiência. Lucas omite a proibição, mas diz que “Os discípulos ficaram calados e naqueles dias não contaram a ninguém nada do que tinham visto” (v. 36b). O silêncio dos discípulos é fruto de uma necessidade: eles devem anunciar Jesus, o Evangelho, mas da maneira certa, sem alimentar falsas ilusões, nem omitir as suas verdades. É melhor silenciar do que anunciar de modo equivocado. Eles perceberam a necessidade de, antes de tudo, escutar, como o Pai ordenou. O anúncio distorcido é, sem dúvidas, consequência de uma escuta superficial. Aqui está um dos ensinamentos mais importantes para as comunidades de todos os tempos: a necessita da escuta de Jesus, o Filho Escolhido. É claro que sua voz ressoará de diversas maneiras, sobretudo onde há dor, injustiça, sofrimento e opressão. É preciso discernimento para reconhecer a sua voz nas vozes anônimas e sofridas dos marginalizados da história. Sem ouvir essas vozes, o Evangelho não será anunciado em sua essência.


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Próxima reflexão: em breve…
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